Vazante: e a genealogia das estruturas de poder nacionais

Vazante (2017), primeiro longa-metragem solo dirigido por Daniela Thomas, é um filme bastante difícil de se analisar. Antes, para que se possa dar o mínimo mergulho nessa obra, é necessário um desprendimento de qualquer posicionamento reacionário independentemente do nível empregado na análise. Entendendo que esse afastar-se, portanto, nada teria a ver com algum desprendimento da instância crítica ou política do trabalho. Afinal, o olhar é, na maior parte dos casos, um exercício político.

Ambientado em 1821, o longa conta a estória de Beatriz (Luana Nastas), uma garota de 12 anos de idade que se casa com Antônio (Adriano Carvalho), um mercador de escravos e senhor de engenho que mantém uma decadente propriedade no interior de Minas Gerais. As complexas relações entre escravos, nativos e colonos conduzem a narrativa em uma espiral de violência em um País autoritário e brutalizado.

Há, pelo menos, dois filmes dentro do filme que é Vazante. Um, que aparece de dentro para fora e traz a narrativa de um núcleo formado pelos aristocratas e as pessoas que trabalham na fazenda, sejam na condição escravagista ou empregatícia. E há outro, que se desenvolve a partir da escala macro que o drama histórico traz em toda a sua abrangência.

Essa separação serve para colocarmos o longa em perspectiva. Falando dos seus aspectos técnicos e estilísticos, o filme tem no uso da fotografia em preto e branco de Inti Briones uma de suas maiores forças. As paisagens abertas que formam grandes composições no quadro trazem forte semelhança com as pinturas do final do século XIX, tais quais as de Humberto Calixto, por exemplo. E isso torna o longa, esteticamente falando, visualmente deslumbrante.

A fotografia preto e branco do longa, assinada pelo fotógrafo Inti Briones, é uma de suas maiores marcas estilísticas.

Já entrando no terreno do seu sentido e conceito, o longa assume uma linha narrativa que não necessariamente idealiza suas personagens. O senhor de engenho Antônio é o homem unidimensional e cuja subjetividade é quase intransponível. Impenetrável, só temos uma clara pista da sua real natureza na sua última aparição em cena. Seu grito que corta a tela é o desenho do homem às portas de um novo século e onde a loucura se ramificaria em uma sociedade marcada por mazelas de ordem psicossocial.

Do mesmo modo, entretanto, Daniela também se afasta da criação de qualquer perfil mais subjetivo e de protagonismo para as figuras dos escravos. Nós entendemos o arco de algumas dessas figuras e nos apegamos a elas, como no caso do garoto Virgílio (Vinicius dos Anjos). Mas não conseguimos acessá-las inteiramente, falta um pedaço. Assim como o senso de incompletude da conclusão da narrativa do filme configura uma mensagem que não deixa abertura para nenhum escapismo.

Em uma abordagem que se ancora na lógica de relações complexas como o escravismo e os solavancos de um processo hermético com a Independência do Brasil, Vazante conta uma estória infeliz para um país que estava atolado (como ainda está em várias medidas) num contexto de severas desigualdades sociais. Poderia ser a narrativa do herói negro, que tenta sair do julgo dos seus opressores? Poderia. Essa perspectiva, a propósito, diz muito da teoria sobre a “fragilidade branca” defendida pela professora estadunidense Robin DiAngelo*.

Na historiografia do cinema brasileiro temos excelentes obras que vão ao encontro desse olhar mais voltado para um quebra de status quo impregnado na nossa história. “Quanto Vale Ou é Por Quilo?” é um bom exemplo disso. Mas na mesma medida, entretanto, temos outros trabalhos que diametralmente operam em uma abordagem estereotipada do período escravagista como fora, por exemplo, o questionável “Besouro” (2012).

Mas positivamente temos dois lados de um frutífero debate que coloca, lado a lado, modos de ver, sentir e perceber nossas produções fílmicas. Há o filme que reúne estilização e técnica a partir de um pano de fundo histórico conceitual, no que diz respeito à Vazante. E há o filme que traz um apuro técnico mais frágil e que consequentemente deixa de aproveitar toda a potência que um tema como o período escravagista tem para oferecer, por exemplo.

É claro que, retornando à Vazante, nota-se um recorte bem claro nas suas escalas cronológica e temática. A narrativa em questão não protagoniza o escravo. Essa posição, ainda que não surja como modus de enfatizar feitos, são dos personagens que representam a aristocracia. E no filme, assim como fora na história do Brasil oitocentista, o contexto é de uma sociedade que vivia seus últimos momentos de um novo momento.

E esse instante, como sabemos, não fora de positivas transformações em sua totalidade. Porque a condição do homem negro no País seguiu bastante frágil pelos séculos XIX e início do século XX. E assim como vemos no longa da Daniela, esses brasileiros estavam totalmente à margem de qualquer status de protagonismo na sociedade que ali se reconstituía. Negar isso, como se observou nos calorosos debates que o filme suscitou é deixar escapar a potência de se refletir as contradições que nos constituíram enquanto nação terceiro-mundista.

E aí, o problema de Vazante talvez não resida no fato de ele trazer essa narrativa histórica de um Brasil de 1821. Antes, dele se basear em um contexto que ainda ecoa nos nossos dias atuais. A desigualdade ainda nos impede de progredirmos como nação no século XXI e o julgo dessa condição na sociedade brasileira ainda produz muitas dissonâncias em diferentes escalas. Esse, entretanto, não é um desafio que será assumido pelo cinema.

Pensar nisso e imaginar antes que um filme deva ser rechaçado, esquecendo a partir das suas premissas que são livres e que levam a assinatura de seus realizadores, soa como incoerente uma vez que vai de encontro à premissa da cinematografia e da arte como canais para discussão acerca da política e da cultura. E logo, se o cinema incomoda em alguma esfera, é porque há uma energia riquíssima pronta para ser gerada pelas ferramentas da reflexão e do livre debate. Sem isso, seremos apenas uma massa reacionária incapaz de abraçar toda a força que a contradição encerra em si.

* O termo “Fragilidade Branca” foi estudado pela pesquisadora Robin DiAngelo e diz respeito ao ambiente social em que pessoas brancas podem vir a estar isoladas ou protegidas de qualquer estresse racial. Esse ambiente, segundo a teórica, estariam ressignificados sob mediação dos conceitos de classe, das instituições, da mídia, das representações culturais, livros, propagandas, discursos dominantes, etc)

FICHA TÉCNICA

Título Original: Vazante

Tempo de Duração:  117 minutos

Ano de Lançamento (Brasil): 2017

Gênero: Drama, Histórico

Direção: Daniela Thomas

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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