VALORIZO MINHA LIBERDADE, PORÉM ME PREOCUPO MAIS COM A DE VOCÊS – Alexandre Aragão de Albuquerque

De que é feito um estadista provado numa cadeia por uma injusta condenação?

Esta pergunta foi respondida por Nélson Mandela, em 1970, de dentro da cadeia na qual estava preso injustamente em virtude da condenação política pelo regime racista sul-africano. Sua resposta: “É feito de esperança e expectativa”. E prossegue: “Talvez, um dia, nós tenhamos em nossa presidência um homem genuíno e franco que considere impróprio furtar-se a seu dever de proteger os direitos de todos, mesmo de seus mais ferrenhos oponentes”.

Quando em fevereiro de 1985, o governo do então racista primeiro-ministro Pieter Botha ofereceu uma liberdade condicional a Mandela, desde que ele cumprisse uma série de restrições quanto à sua movimentação pelo território sul-africano como também em relação às suas manifestações públicas e políticas, embora já estivesse preso injustamente por 23 anos, ele recusou a oferta. Numa carta lida por sua filha Zindzi em um estado lotado de pessoas, ele bradou: “Valorizo muito a minha liberdade, mas me preocupo ainda mais com a de vocês”.

Ontem, último dia de setembro, o Presidente Lula redigiu uma carta ao povo brasileiro com a seguinte titulação: Não Troco Minha Dignidade Pela Minha Liberdade.

Como se sabe, Lula foi condenado por um regime golpista armado pela Casa-Grande midiática (tendo à frente a Rede Globo) e lavajatista, mesmo com sua defesa comprovando reiteradamente, por dezenas de vezes, a ausência de fato determinado, de provas materiais e da possibilidade de defesa ampla e efetiva. Agora, diante da publicação pelo “The Intercept Brasil” da escancarada falsificação processual conduzida pelo ex-juiz Moro e pelos agentes do Ministério Público de Curitiba, baseando suas ações apenas em meras convicções e articulações criminosas, os procuradores estão propondo cinicamente que Lula receba o benefício da prisão domiciliar.

O que caberia a estes procuradores era de, no mínimo, requerer ao Supremo Tribunal Federal (STF) agilidade no julgamento do Habeas Corpus impetrado pela defesa de Lula, para que sua sentença de condenação fosse declarada nula. Além disso, eles deveriam pedir desculpas ao Povo Brasileiro, aos milhões de desempregados e às empresas que foram manietadas em suas atividades econômicas chegando à falência por consequência desta busca criminosa de poder por parte dessa organização de Curitiba.

A título de ilustração, uma das mais recentes conversas da força-tarefa da Operação Lava Jato revelada pelo jornalista Glenn Greenwald reforça a suspeita de que os procuradores de Curitiba montaram uma espécie de sociedade com o advogado de acionistas minoritários da Petrobrás para os dois grupos “empalmarem” dinheiro da estatal para criar a tal da “Fundação Dallagnol” que arrecadaria cerca de 2,5 bilhões de reais. Além disso, soube-se que em 03 de maio de 2017 uma procuradora de São Paulo, Thaméa Danelon, contou a Deltan Dallagnol, o chefe da força-tarefa curitibana, que haviam solicitado a ela ajuda para escrever um pedido de impeachment de Gilmar Mendes, ministro do STF. A solicitação era de Modesto Carvalhosa (comentarista do Jornal da TV Cultura, de São Paulo), advogado de acionistas minoritários da Petrobras. Dallagnol respondeu: “Sensacional, Tamis”.

Nessa suruba (como diria Romero Jucá) de agentes do ministério público, Lula mantém-se firme e conclui sua carta ao Povo Brasileiro de forma lúcida e esperançosa: “Diante das arbitrariedades cometidas pelos Procuradores de Curitiba e por Sérgio Moro, cabe agora à Suprema Corte corrigir o que está de errado para que haja Justiça independente e imparcial, como é devido a todo cidadão brasileiro. Não descansarei enquanto a Verdade e a Justiça não voltarem a prevalecer”.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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