Urgente tratado de estética

Era uma vez um cara.
O cara não tinha casa nem emprego; vivia de bicos e de esmolas; eventualmente de doações.
O cara fez um cubo de papelão quase perfeito; o cubo tinha uma porta; pela porta o cara saía e o cara entrava; a porta era tão improvisada quanto o cubo; mas o cubo tinha uma porta e pela porta o cara entrava e saía; então o cubo era uma casa.
O que tinha na casa eu não sabia; o cara mesmo, de verdade, eu nunca vi: sua história eu só sei de ouvir dizer e porque eu vi o cubo, que era casa. E pelo cubo, que era casa, imaginei: o cara ou era muito baixinho ou ali dentro ele muito se curvava.
Do lado de fora, feito uma varanda, uma mesa, enfeitada de ladrilhos descasados; no centro da mesa uma lata feito um jarro, e na lata feita jarro uma flor se plástico, uma flor branca, muito aberta.
O cubo, que não era só papelão, eu me enganei, tinha também partes de madeira apodrecida que o cara tinha recolhido; mas de tão úmida a madeira mesmo era quase papelão.
O cubo ficava numa praça, ao pé da parede de uma escola pública.
Quando dias depois eu vi que já não havia o cubo, feito casa, me disseram que o cara, que eu nunca vi nem soube nunca como se chamava, tinham mandado matar.
Quando contei essa história numa mesa, um ser desconfiado me falou: alguma coisa ele tinha feito.
Eu pensei, mas nunca disse: pois é, ele existia e não tinha uma casa, mas eu não disse isso nem disse mais nada.
Só muito depois — o dia de hoje — eu concluí: nem pela memória do cara eu podia muita coisa.
Essa história só podia mesmo vir em prosa pobre.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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