Unidade na diversidade

Neste artigo pensamos brevemente em complementar nossa última reflexão “Pensando Paulo Freire” na qual tratamos sobre a categoria da “conscientização”, no pensamento freireano, concebida como “uma unidade dinâmica e dialética entre a prática do desvelamento da realidade com a prática da transformação do real”. Neste sentido, a educação se coloca como uma questão fundamental enquanto ato de conhecimento não só de conteúdos, “mas da razão de ser dos fatos” que explicam os graus de interdição dos corpos conscientes aos quais os humanos estão submetidos na estrutura social.

No seu livro “Pedagogia da Esperança” Freire destaca que ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, sem aprender a refazer, a retocar o sonho por causa do qual a gente se põe a caminhar.

Para o autor, em sociedades altamente complexas, repletas de redes de relações, a multiculturalidade apresenta-se como um desafio na caminhada da construção de sociedades radicalmente democráticas. Porque a multiculturalidade não se constitui como uma justaposição de culturas; e nem muito menos no poder exacerbado ou autoritário de uma cultura sobre as outras. Ela é expressão da liberdade conquistada. Ou seja, do direito assegurado a cada cultura de mover-se, no respeito uma da outra, caminhando livremente sem medo de ser diferente, crescendo juntas as culturas, distantes daquela tensão permanentemente causada pelo autoritarismo todo-poderosista de uma sobre as demais.

Portanto, Freire destaca que a multiculturalidade (ou o “multilinguismo”) não é um fenômeno espontâneo, mas conquistado politicamente, trabalhado a duras penas na história, no qual se manifesta a necessidade democrática da invenção da unidade na diversidade: um processo de luta pela conquista de convivência no mesmo espaço de diferentes culturas. Isto não é algo natural. Implica decisão, vontade política, mobilização, organização dos diversos grupos com vistas a fins comuns.

Importante salientar que o primeiro momento da luta pela unidade na diversidade é obviamente político. Implica mobilizações e organização das forças culturais em que o corte de classe não pode ser desprezado, para que se possa superar o modelo de democracia fundada no liberalismo clássico cujas estruturas geram uma ideologia segundo a qual o ônus pelos fracassos e insucessos criados por ela é responsabilidade das vítimas das estruturas de exploração e opressão, isto é, dos fracassados enquanto indivíduos. Para a ideologia dominante capitalista, “os meninos e as meninas dos morros não aprendem porque são incompetentes, e nada mais”, assevera Freire.

Portanto, uma educação voltada para a multiculturalidade, comprometida com a unidade na diversidade, deve desafiar os educandos, desde a tenra infância, a pensar criticamente, por meio de uma prática de ensino dos conteúdos jamais dicotomizada do ensino do pensar certo, um pensar antidogmático, anti-superficial. Um pensar crítico, vigiando-se a si mesmo, constantemente, do risco de cair na armadilha do puro improviso.

Logicamente, ao respeitar a compreensão do mundo dos educandos, desafiá-los a pensar criticamente. Esta postura político-pedagógica exige a formação permanente dos educadores e educadoras. Não apenas a formação científica, mas principalmente o empenho sério e comprometido no sentido de superar as velhas e novas marcas autoritárias, elitistas, que perduram nas pessoas. Uma formação contínua e autocrítica da subjetividade do educador-educadora, sem a qual qualquer proposta de educação crítica tende a não vingar.

Se uma condição necessária para colocar em movimento o projeto da unidade na diversidade é a constatação de que todas as pessoas são candidatas à unidade, esta é insuficiente. A suficiência somente se dá quando tais candidatas assumem o compromisso da construção do projeto, engajando-se na transformação de suas subjetividades bem como das estruturas opressoras ao seu redor. Para Freire, nenhum colonizado, como indivíduo ou nação, sela a sua libertação e conquista (ou reconquista) sua identidade cultural sem assumir plenamente a sua linguagem e por ela ser assumido.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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