Uma voz que vem da periferia

Em março de 2013 o economista Antônio Delfim Neto publicava no jornal Folha de São Paulo uma pequena reflexão sobre a questão da financeirização da economia com suas implicações sobre as vidas de pessoas e sociedades. Partindo da pergunta básica de Marx – quem é o homem e como pode realizar sua humanidade diante dos constrangimentos que lhe impõe a organização da sociedade? – Delfim destaca que desde 1848 o famoso filósofo já havia revelado a propensão do capitalismo financeiro emergente e avassalador de produzir uma crescente concentração do poder econômico que se não for coibido pelo poder político levará a um desastre social. Conforme Delfim, a financeirização que o autor previa continua forte e abrangente no século 21. A pobreza que oprime a maioria dos habitantes do Hemisfério Sul não é fruto do acaso, mas resultado de formas de organização política mundial que em vez de deter a fome insaciável dos capitais financeiros, alimenta-os produzindo como consequência mais concentração de riqueza e produção de pobreza no mundo.

Em sua recente passagem pelo centro do capitalismo mundial, o Papa Francisco, “aquele que veio do fim do mundo”, como ele mesmo se auto-proclamou quando de sua eleição pontifícia, realizou um discurso nas Nações Unidas no qual chama atenção para a necessidade da distribuição dos poderes: políticos, econômicos, midiáticos, tecnológico como forma de solução para os impasses que desafiam a humanidade contemporânea. Para o pontífice, a limitação de poder é uma ideia implícita no conceito de direito. Dar a cada um o que lhe é devido significa que nenhum indivíduo ou grupo humano pode se considerar onipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais. Consequentemente, a efetiva distribuição de poder entre uma pluralidade de sujeitos com a criação de um sistema jurídico de regulação das reivindicações e dos interesses realiza a limitação do poder.

Aqui no Brasil, um país de matriz cultural cristã, estamos presenciando a uma luta titã na disputa pelo poder. Grupos outrora que se consideravam onipotentes, contrários ao projeto democrático de governo que possibilitou a trabalhadores e empobrecidos galgarem condições de vida mais dignas, por meio das políticas públicas de distribuição de renda e de oportunidades, como uma política de aumento real do salário mínimo, pela valorização da agricultura familiar, pela implantação de programas de transferência de renda, com a construção de universidades públicas e escolas técnicas pelo Brasil afora, pela vinculação dos resultados do Pré-sal a serem destinados à saúde e à educação, entre tantos outros programas de governo, hoje perderam a vergonha de sair às ruas e estão bradando pela imposição do impeachment à presidente Dilma Rousseff, na tentativa de retomarem seus privilégios por meio da condução do poder político central.

Acontece que o Brasil de hoje não é o mesmo de 23 anos atrás. Com a entrada no mercado de consumo, milhões de brasileiros e brasileiras estão mais conscientes das conquistas adquiridas nesta última década o que lhes propicia uma maior compreensão de sua cidadania e de seus direitos. Governar o Brasil de hoje é bem diferente de que governar o Brasil de ontem, porque estamos em um novo patamar econômico e social, com novos atores sociais agindo e disputando a cena pública.

Como lembra o Papa Francisco, é preciso não perder de vista, em momento algum, que a ação política e econômica só é eficaz quando é concebida como uma atividade guiada por um conceito perene de justiça. Assim, é preciso ter sempre presente que, antes e para além de planos e programas, existem mulheres e homens concretos, iguais aos governantes, que vivem, lutam, sofrem e pensam. Assim, o desenvolvimento humano integral e o pleno exercício da dignidade humana não podem ser impostos; devem ser construídos e realizados por cada um, por cada família, em comunhão com os outros seres humanos e num relacionamento correto com todos os ambientes onde se desenvolve a sociabilidade humana – amigos, comunidades, escolas, empresas, sindicatos, cidades, países.

E talvez seja isso que muitos ainda não entenderam e ou fingem não entender.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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