Uma verdade inconveniente

Certamente podemos afirmar que a lua de mel da impresa com o atual governo petista já passou. Na verdade, a todo momento somos bombardeados com críticas às ações e falas do presidente eleito e seus ministros.A despeito do fato de parte importante dessas críticas serem feitas por gente que nunca teve compromisso com a democracia e o país (refiro-me à mídia puxa-saco da Casa Branca e bolsonaristas) algumas movimentações do governo são bem problemáticas.

O ministro Haddad, na sua ânsia por acalmar o mercado financeiro temeroso com a volta do PT, acabou se esquecendo que o campo progressista voltou ao governo federal para acima de tudo atender aos interesses da população mais sofrida e evitar que parte desta caia(novamente) nas mãos da extrema-direita, processo esse que está ocorrendo no mundo todo.Ao propor um arcabouço fiscal que propõe limitar o investimento público que já está minguado no Brasil desde Temer(processo que iniciou-se ainda no segundo governo Dilma com o ministro Joaquim Levy) o professor do Insper compromete a capacidade do setor público brasileiro de financiar áreas sensíveis para o país agindo contra as desigualdades sociais historicamente sedimentadas nesta nação tropical.Na seara política parece que o governo opta sempre pela capitulação ao invés do enfrentamento democrático e até agora isso só fortaleceu a agenda de Artur Lira no Congresso Nacional, lugar em que a articulação política do governo eleito tem sido bem ruim.

Há uma verdade inconveniente que precisa ser dita com clareza;Lula,até o momento, não consegue governar seguindo aquilo que prometeu na campanha resultando com isso em uma gestão que demonstra sinais de fraqueza. O L que está prevalecendo,infelizmente, é o de Lira.

A ”fraqueza” a que me refiro vem sobretudo da dificuldade de comunicação do governo que simplesmente não consegue transmitir para a população o que ele está fazendo em termos de política pública e por quê.Isso tudo é muito danoso ao país e acaba por fortalecer a extrema-direita.

A frente ampla de Lula, no momento, parece tão ampla que não consegue estabelecer aquilo que quer mesmo fazer.

É preciso destacar que o presidente vem pisando na jaca em algumas declarações.Ao relacionar jogadores de video-games e pessoas com condições mentais adversas com violência nas escolas Lula erra feio.Quando generaliza as críticas do ponto de vista dos direitos humanos feitas ao governo Maduro como apenas ”narrativas” contrárias ao chavismo, Lula brinca com fogo e entra num debate complexo,desgastante e desnecessário.

A indicação de Zanin ao STF, contrariando uma fala de Lula na campanha de que na Suprema Corte o presidente não deveria ter amigos, dá ainda mais munição para a impresa pregar o mito da terceira via e rezar a lenda ”Lula é igual a Bolsonaro” alimentando a força discursiva da oposição parlamentar, que na prática é liderada por Artur Lira, uma figura completamente envolvida com os interesses das elites econômicas brasileiras como vimos na votação que desmantelou os Ministérios dos povos originários e do Meio Ambiente.

O projeto de Lira e da oposição parlamentar é o mesmo que o de Temer e Bolsonaro; Destruir a capacidade do Estado brasileiro de conter a sanha financeira dos mineradores, garimpeiros, banqueiros e operadores do mercado financeiro deixando a população na penúria econômica ao mesmo tempo que induz o protecionismo para os ”campeões nacionais” que essa altura do campeonato já seguem a castilha do Bolsonarismo.

Lula foi eleito para enfrentar com vigor todo esse emaranhado. A frente ampla que ele lidera teve como objetivo eleitoral a tarefa de ”normalizar” o país longe de qualquer utopia de esquerda ( não é razoável cobrar de Lula grandes mudanças no seu terceiro mandato).Mesmo que algumas boas notícias tenham animado as pespectivas futuras(como a volta dos programas sociais e o crescimento de 1,9% do PIB) a impressão geral é que o governo responde muito mais as armadilhas da grande mídia e do universo bolsonarista do que impõe a sua visão sobre os fatos.

Lula contribuiu para o crescimento de um partido sectário e diverso, criado por comunidade católicas, sindicalistas e intelectuais e foi um dos grandes responsáveis para que esta agremiação tenha se tornado uma das mais importantes da América Latina.Será capaz de nesse momento vencer a maré contrária, superar seus erros, evitar falas desnecessárias e fazer um bom terceiro mandato?

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.