UMA RECEITA TOTALITÁRIA BEM AVIADA

Caiu-me em mãos um volume, a que chamaríamos, outrora, nos tempos da tipografia, “brochura”.

Hannah Arendt com uma coleção sedutora de ensaios sobre as origens do totalitarismo repõe na ordem do dia temores e suspeitas quase esquecidos.

Às folhas tantas, sob o título de uma sociedade sem classes (Millôr Fernandes não resistiria a um trocadilho, de uma sociedade “sem-classe”…), lemos que o totalitarismo prospera onde existem “massas” que não “se podem integrar numa organização baseada no interesse comum…”.

Ainda segundo Hannah, as “massas não se unem pela consciência de um interesse”. As massas ganham substância política em decorrência da arregimentação das suas potencialidades em favor de reivindicações e de consensos comuns organizados em movimentos sociais, sindicatos ou partidos justamente designados como “partidos de massa”.

Em suma, as “massas” resultam de uma convocação e do processo disciplinado de organização. As “massas” são, assim, “construídas”, não se formam espontaneamente, diria Hanna. Fruto de uma aplicada engenharia, as “massas” revelam estreitas afinidades com o totalitarismo, a que os convertidos chamam de contingência “democrática”.

A “ditadura do proletariado” não seria o arquétipo de uma nova forma de absolutismo “democrático”? É verdade, admitamos, que, sem disciplina e um certo encantamento ideológico, as “massas” se reproduziriam por cissiparidade, em uma cadeia biológica, desprovidas de inspiração ideológica, como se fossem tribos perdidas na sua indiferença…

Não esquecer, entretanto, que a revolução semântica, inspiração “gramscista” largamente seguida, conserta, atualiza e e altera o sentido das palavras e dos conceitos — e empresta-lhes novos significados, a exemplo do sargento Guy Montag, personagem central da distopia de Fahrenheit 451, de Bradbury. Sem um disparo, a não ser os do convencimento…

A sutileza do texto e a sua acuidade analítica destacam alguns pontos de convergência e de contraposição entre três movimentos totalitários que armaram o teatro ideológico de horrores da II Guerra Mundial. Chegamos a presumir que estas injunções de ideias, pensamentos e práxis políticas não houvessem deixados lembranças incômodas recolhidas ao nosso ideário democrata.

Às vésperas da arregimentação das milícias comunistas, fascistas e nazistas, no entreato das duas guerras do século XX, chegaram ao poder, nas águas de grandes movimentos populares legitimados por eleições ou pela avalanche da vontade popular, lideranças fortes, nascidas sob o comando dos fundadores-totalitários que prepararam o novo cenário de poder do Estado.

Hitler, Mussolini e Stálin tinham muito em comum, como revolucionários e guias dos movimentos populares em ascenção. Admiravam-se uns aos outros e tinham em Stalin, como o definia Hitler — “o gênio” — o organizador da sociedade “sem classes” e das formas mais eficientes e perversas das táticas para a tomada do poder do Estado. Hilter tinha-o, lembra Hanna Arendt, como referência para os erros cometidos pelo “grande marcha” fascista de Mussolini.

Percebem-se visíveis as afinidades dos três países — Alemanha, Itália e Russia — em confronto com ganhos e perdas dos movimentos em suas origens e na dominação do Estado.

Nas situações consideradas, Hannah aponta [p. 436, “As Origens do Totalitarismo”, Companhia das Letras, RJ, 2023] que os regimes totalitários “objetivam e conseguem organizar as massas”, e não o contrário.

A organização dos instrumentos para a conquista do poder — o partido único —
representou estrategicamente o papel principal do cerco e da conquista do povo para a criação dos mecanismos do governo do Estado. A mobilização revolucionária baseou-se na preparação ao assalto ao poder em dois elementos essenciais: na força numérica dos ativistas e nas táticas brutais para a tomada dos controles essenciais de governo.

No caso da Rússia, a extensão territorial exerceu peso considerável como espaço vital: diversos países já haviam sido incorporados ao que viria constituir o império soviético ou submetiam-se à sua proteção.

Estas considerações suscitam dos analistas mais atentos inquietação compreensível quanto às condições e circunstâncias objetivas favoráveis à arregimentação de forças para a instalação de governos totalitários na América Latina.

Fora o México, guarnecido dessas condições, embora contido em suas fronteiras americanas, [“pobre México, tão longe de Deus e tão próximos dos Estados Unidos”…], o Brasil atende, segundo os mais pessimistas, a alguns requisitos favoráveis para a sua conversão ao totalitarismo.

A extensão do território, as desigualdades sociais persistentes, as alianças firmadas com países africanos, asiáticos e com o Oriente Médio e nas vizinhanças andinas, a instabilidade política, o traço de aproximação e cobiça com os países que fazem fronteiras na Amazônia, a fragilidade das instituições, a politização das forças armadas e dos poderes constituídos, e a pulverização de competências constitucionais — surgem como indicadores de risco favoráveis à conformação de um Estado forte, ao preço de uma democracia “relativa” como a balizaram influentes observadores e oráculos do nosso futuro político. É verdade que nos faltam lideranças e estadistas, boas ou más criaturas, para operacionalizar essa guinada gramsciana. Não falta, entretanto, aos modeladores de um “brave new world” a massa sobre a qual trabalhar e induzir à persignação de anseios e à metabolização de velhas utopias recondicionadas.

Cada coisa de cada vez — e em seu lugar.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.