Uma palavrinha sobre jornais, por OSVALDO EUCLIDES

A população de um estado como o Ceará é nove milhões de habitantes. Os dois maiores jornais que atuam na região vendem (juntos e somados) diariamente menos de trinta mil exemplares. A população de um estado como São Paulo é quarenta e cinco milhões de habitantes. Os dois maiores jornais que operam na região vendem diariamente (juntos, somados) menos de seiscentos mil exemplares . A população do Brasil é duzentos e nove milhões de habitantes e os dez maiores jornais juntos vendem menos de hum e meio milhão de exemplares. Estes números incluem todos os jornais pagos, ou seja, são a a soma de venda em banca e gazeteiros, assinaturas impressas e assinaturas digitais auditadas.

É verdade que há uma crise política e econômica que nasceu, aprofundou e se agudizou nos últimos quatro anos. É verdade que a internet trouxe desafios sérios e variados ao setor aqui e lá fora. Por outro lado (dizem que os economistas são os profissionais do ‘por outro lado’ para não se posicionar), tanto uma coisa quanto a outra também representam oportunidade, pois valorizam a informação e facilitam a circulação de conteúdos.

O que importa é que do jeito que as coisas estão andando, nesse ritmo, em breve os jornais ficarão tão magrinhos e frágeis, que podem perder qualidade e deixar de dar a decisiva contribuição que sempre deram à política, à cultura e à economia brasileira. Os dois riscos maiores são a perda de qualidade ainda maior e a concentração ainda mais dramática de poder de informação e de formação da opinião pública. A sociedade brasileira precisa e merece ter jornais fortes e independentes, capazes de se manter pela qualidade de seu produto e de sua gestão. Não há democracia e liberdade sem uma imprensa de qualidade.

Jornal independente e forte é aquele em que uma fatia expressiva e realmente representativa da população acredita e faz questão de ler, de debater, de recortar e guardar, e só dela depende financeira e politicamente, sem precisar ser suportado (o jornal, a empresa que o edita) por um número pequeno de clientes ou de acionistas míopes, arrogantes e gananciosos. Jornais magrinhos e frágeis são facilmente submetidos e dobrados por interesses específicos menores. O mundo dos jornais, no mundo inteiro, foi abalado e o declínio é uma regra (e como toda regra, esta já tem muitas e honrosas exceções).

Faz vinte e um anos que deixei de trabalhar em jornal. Mas aprendi (e não esqueci) que o valor de um jornal pode se provar nos momentos difíceis. E na vida de qualquer jornal sério sempre há momentos assim, desafiadores, alguns indicando que (aparentemente) não há saída honrosa.

Fiquei triste de ver a lista da circulação total líquida paga dos dez maiores jornais brasileiros em 2018, assim como a evolução individual significativamente negativa dos números de janeiro a dezembro. Dois ou três traços de tinta azul, o restante, tudo traço vermelho. Fiquei matutando um tempo e me desafiei a jogar uma luz neste (digamos) escuro túnel. Com as ressalvas que já espalhei nas linhas acima, eis uma sugestão simples, que pode ser usada, descartada ou simplesmente ignorada. A sugestão é dirigida aos jornais de qualidade.

Numa palavra: baixem o preço de capa para um real. É isso. A consequência dessa medida é que uma assinatura digital pode ser feita ao preço de apenas três reais por mês, ou trinta e seis reais por ano. Um choque de preços desta dimensão tem (ao menos potencialmente) força suficiente para alavancar um milhão de assinantes. E a assinatura impressa pode ser vendida por (até, mas não necessariamente) apenas quinze reais mensais ou cento e oitenta reais por ano.

O argumento. Os jornais estão presos pelas regras do Instituto Verificador de Circulação (IVC) a um preço de capa que é hoje irreal, não traduz a realidade de mercado e nem respeita o leitor fiel, dadas todas as mudanças ocorridas no setor. E o leitor não é bobo de pagar um valor tão alto para um produto (o digital, pelo menos) cujo custo de produção e entrega tende a zero. De cinco simulações feitas com premissas diferentes, em três a resultante final dos impactos positivos (encalhe, estrutura e custos de distribuição e controles administrativos tendendo a zero e publicidade fortalecida) e negativos favorece a ideia.

Os anacrônicos preços de capa dos jornais são âncoras terríveis que prendem jornais ao passado. E só chegaram onde estão pela tal da maldita indexação da economia brasileira. É convicção deste escrevinhador que esta proposta (hoje entre ousada e indigesta) será adotada por muitos (entre os sobreviventes) em pouco, muito pouco tempo. E, claro, os primeiros ganham mais. Pronto, falei.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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