Uma palavra sobre Dalton Rosado

Meu pai era jornalista. Chegava em casa à noitinha abraçado em jornais e revistas. Trazia um mundo nas mãos. Cresci nesse ambiente de letras e imagens, palavras e notícias. Nos intervalos da sua leitura, meu pai falava comigo, e seu silêncio também conversava com o meu. Depois, muito depois, é que vieram os livros. E ainda hoje estou aprendendo a ler.

Salto no tempo. A comunidade do Segunda Opinião é quem hoje me dá as lições. Somos vários e todos diferentes. Não há dois iguais entre nós, nas ideias, nas opiniões. Dizem que a beleza faz a diferença. Digo que a beleza é a diferença.

Imagine um grupo de pessoas inteligentes e sensíveis tratando de economia, política e cultura sem parar, sem cansar, e quanto mais escrevem, mais há o que dizerem. E não podem calar. Mesmo que saibam que estão escrevendo cartas e jogando-as em garrafas transparentes ao mar. Naturalmente é preciso escrever, e respirar, me dizem.

Dalton Rosado é especialmente presente no Segunda Opinião nos anos recentes. Pontual e regular na colaboração, tem uma trajetória política e de vida que o distinguem. Suas convicções se aproximam da paixão, e ele as defende com rara coerência, beirando a teimosia. Usa argumentos respeitáveis e opina com uma firmeza vizinha da contundência. Dalton sempre navegou seu conjunto de ideias contra a corrente. Mesmo assim, parece ver nos contrários os seus iguais. Excepcional lutador, recebe e encaixa os golpes e segue, um guerreiro de boas ideias não dá espaço para o ódio. E dialoga, sempre é possível.

Num desses momentos de diálogo sobre diferenças, saiu espontaneamente um desafio que a mim, que o propus, parecia impossível de ser respondido. Algo como a formulação jurídica de um modelo de sociedade realmente novo. Surpresa: Dalton aceitou o desafio e realizou em poucos dias a proeza. Escreveu e justificou uma constituição comunitária emancipatória. É trabalho de fôlego e sensibilidade. Está postada no Segunda Opinião (link abaixo). Completa, única, a proposição. Claro, sujeita a críticas e reservas, sem dúvida merecedora de avaliação por cientistas políticos, advogados constitucionalistas e jornalistas, sem falar de lideranças político-partidárias. Eu o faria pelo prazer do debate. Não farei, e lamento. Como não tenho formação jurídica nem leitura suficiente de Marx, como me falta experiência política prática, declaro minha incapacidade de julgar, aprovar ou contestar, mesmo debater.

Dalton Rosado é exemplar na sua jornada. Quando deixou a vida pública, dedicou-se a uma carreira na advocacia, onde começou atendendo um cliente especial, D. Aloísio Lorscheider. Uma história de sucesso. Compõe música de qualidade e de surpreendente diversidade, e coloca nelas os próprios versos. Produz a gravação audiovisual de todas elas, tratando de igual para igual com o maestro, e as divulga discretamente, no que poderia ser outro sucesso. (‘A bela música aproxima até um ateu do que é divino’). Contou em livro a história do Brasil de um século através da história da música brasileira, páginas literárias cheias de ritmo e graça. Todavia, o sucesso de que se gaba é da atuação como avô.

Dalton Rosado é exemplar do valor de cada pessoa que faz o Segunda Opinião, sem segundas intenções, voluntariamente, livremente, sem interesse comercial. Através dele, rendo minha homenagem a cada uma dessas pessoas que põem em palavras ideias sensatas de um mundo generoso, amigável. Como se diz entre nós, “vamos em frente”!

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CONSTITUIÇÃO COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE FORTALEZA – EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.