Um porco chamado garganta

Com o fim da 2ª. Guerra Mundial, em 1945, tinha início uma nova etapa da história da humanidade com o mundo dividido em dois blocos imperialistas dominados pela URSS (bloco leste) e EUA (bloco oeste). É nesse contexto que George Orwell (1903-1950), como um bom combatente das práticas imperialistas, publica seu livro A Revolução dos Bichos, cuja temática irá se debruçar sobre os imperialismos que nascem com a Guerra Fria e as consequências que implicaram na geopolítica mundial. Contudo, A Revolução dos Bichos vai muito além de seu motivo original. Transforma-se em uma reflexão atemporal centrada na condição da política em geral, em qualquer lugar e tempo, sempre vulnerável à corrupção pelo poder.

O historiador Eric Hobsbawm relata o período de Guerra Fria como uma época de forte disputa ideológica na qual a evolução dos meios de comunicação de massa servia como instrumento potencializador das constantes ameaças de ataque nuclear que deixavam a humanidade à espera do suicídio da civilização. De fato, A Revolução dos Bichos foi lançada no momento em que havia o pavor da humanidade devido aos lançamentos terroristas pelos EUA das bombas atômicas sobre as populações humanas indefesas de Hiroshima e Nagasaki, em 06 de agosto de 1945.

O livro conta a tomada pelos bichos de uma fazenda que era administrada por um gestor beberrão, cuja propriedade estava abandonada, coberta de mato, com pastagens cansadas e as cercas caindo aos pedaços. O início do livro se dá com a exposição teórica, feita por um porco sábio e benevolente, dos princípios do animalismo, sistema que deveria reger a propriedade a partir da administração feita pelos bichos, dos quais se destacam alguns artigos do regulamento, como “todos os animais são iguais” e “nenhum animal matará outro animal”.  Ocorre que depois da revolução, o porco Napoleão assume o poder de forma totalitária, deporta e assassina o outro líder revolucionário e nomeia o porco Garganta como responsável pela mídia do novo regime. Cabia a Garganta a tarefa de manipular os corações e as mentes dos animais comuns diante dos interesses dos donos do poder, por meio de fatos, imagens e argumentos convincentes publicados em suas comunicações. Por exemplo, na lei original em que se lia nenhum animal matará outro animal, Garganta modificou-a para “nenhum animal matará outro animal, sem motivo”. Quanto à lei que tratava da igualdade entre os bichos, Garganta a refez para “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”. A semelhança dessa manipulação praticada sistematicamente pelo porco Garganta com o que fazem os meios de comunicação de global de hoje não é mera coincidência.

Importante destacar um fato bastante interessante para a época que estamos vivendo aqui no Brasil. Segundo estudo do professor Alessandro de Almeida, da Universidade Federal de Uberlândia, logo após a morte de Orwell, a Agência de espionagem norte-americana CIA comprou secretamente da viúva do autor os direitos para filmar o livro, mandando produzir na Inglaterra uma versão em desenho animado, por ela distribuída ao mundo inteiro. A produção cinematográfica realizou modificações inquietantes que produziam novos efeitos amplamente favoráveis ao imperialismo ocidental, liderado pelos EUA. Na versão original do livro, o Sr. Pilkington, representando o capitalismo financeiro, era um sujeito indolente, que não trabalhava, e passava a vida se divertindo às custas do trabalho dos animais. Por sua vez, na versão cinematográfica, modificada pelos gargantas da mídia moderna, ele é retratado como um senhor altivo, com visões mercadológicas avançadas, que usufrui de uma riqueza invejável, tanto que é fornecedor de subsídios monetários em forma de empréstimos.

Fica então a chamada: em tempos de monopólio da mídia, todo o cuidado é pouco com os gargantas de hoje, que são muito bem pagos para manipular nossas consciências diariamente nas telinhas e nas rádios fm’s, gargantas defensores dos interesses dos pilkingtons globais.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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