Um mundo concretado – Entrevista com Anselm Jappe

Entrevista de Anselm Jappe a Pierre Thiesset para o jornal La Décroissance, nº 174, novembro de 2020.

Como o concreto recobriu nosso meio? O livro Concreto: arma de construção massiva do capitalismo, publicado neste mês de novembro pela editora L’échapée [publicação prevista para 2021 pela editora Elefante], analisa a história desse material devastador e critica, através dele, a arquitetura e o urbanismo modernos.

La Décroissance: “Os horrores da arquitetura de hoje e das construções modernas são a consequência da combinação de concreto e aço”, você escreve. Como o concreto armado, que surgiu com a industrialização no século XIX, se tornou tão onipresente no nosso mundo, indispensável para as infraestruturas de nossas sociedades?

Anselm Jappe: Como terá sido possível chegar a este ponto? Não é culpa do concreto, dizem seus defensores. Ele já foi utilizado pelos Romanos, especialmente para a cúpula do Panteão. É apenas uma mistura de areia, cal e água: nada muito maléfico. Mas esse argumento é enganador. Não é o concreto enquanto tal, redescoberto essencialmente no século XVIII, que transformou o mundo, mas o concreto armado, moldado em “armaduras” de aço. Ele foi inventado por volta de 1867 e difundiu-se rapidamente. No início ele encontrou, no entanto, desconfiança, e os burgueses não o desejavam para suas residências. As moradias populares seriam seu campo de aplicação principal. Seu verdadeiro triunfo, no mundo inteiro, começa apenas depois de 1945. As maiores quantidades não são utilizadas para moradias e edifícios públicos, mas nas infraestruturas: rodovias, estacionamentos, aeroportos, diques, centrais nucleares e, acima de tudo, barragens. Atualmente é a China que bate todos os recordes de sua utilização, e ela não parece disposta a parar. No entanto, os “menores” também recorreram a ele: uma parte não negligenciável da produção mundial de concreto é “escoada” para as favelas e autoconstruções do mundo inteiro, dando aos pobres a ilusão de terem se tornado “modernos” e agora jogarem na liga principal. Exceto quando os edifícios construídos com muita areia no concreto se desmoronam no primeiro tremor de terra.

 

Conjunto Habitacional “Viver melhor”. Minha Casa, Minha Vida. Manaus – AM. 2014.

 

Por que o sucesso colossal? De início, porque o concreto realmente não custa caro: seus componentes são encontrados facilmente na natureza, e construir com concreto demanda apenas uma mão-de-obra pouco qualificada. As competências mais específicas e a direção são concentradas nos arquitetos e engenheiros, munidos de seus diplomas, o que está conforme ao papel central adquirido pelos tecnocratas e experts, mandatários do Estado e submetidos ao mercado, mas desconectados dos habitantes e de suas necessidades. O crescimento demográfico, as migrações do campo para a cidade e as destruições provocadas pela guerra serviram de pretextos, na Europa do pós-guerra, para a concretagem, pretextos aceitos por todos, antes de serem repetidos no resto do mundo. A tendência à estandardização e à uniformização, inscrita no coração da lógica capitalista mesmo quando ela ocasionalmente se enfeita com “personalização” e “customização”, manifesta-se nesse material que substitui todos os outros e impõe por todos os lados um “estilo” similar – os bairros novos de Shangai ou de São Paulo, de Paris ou de Riad, não se distinguem mais uns dos outros, tampouco seus bairros abandonados.

As devastações ecológicas desse material são grandes problemas… 

O concreto perdeu sua inocência e encontra-se doravante com frequência sob os ataques da crítica. Muito recentemente, a prefeitura de Paris anunciou o “fim do reino do carro, do betume e do concreto” e a maior parte do conselho municipal está dividida, ao que parece, quanto ao destino da fábrica de cimento Lafarge, localizada nas margens do Sena, em plena Paris, e acusada de despejar resíduos poluentes ali. Como para os pesticidas, o plástico ou o petróleo, descobriu-se pouco a pouco que os materiais que eram apresentados como soluções puramente técnicas a velhos problemas da humanidade estão, em verdade, ligados a numerosos efeitos secundários absolutamente indesejáveis. No entanto, o concreto escapou por muito tempo a este questionamento pelo grande público. Por quê?

O concreto tem a reputação de ser menos nocivo, menos poluente do que os outros materiais mencionados. Isto é, todavia, falso: o pó de concreto pode provocar doenças respiratórias; as temperaturas elevadas, necessárias à sua produção, demandam um grande consumo de energia, o que contribui fortemente com as emissões de CO2; a extração de areia causa danos consideráveis às praias e cursos d’água e às condições de vida locais, favorecendo tráficos criminosos, sobretudo nos países pobres; a concretagem das cidades cria “ilhas de calor” que tornam necessária a climatização, outro flagelo moderno; a concretagem dos solos favorece inundações cada vez mais destrutivas; enfim, a reciclagem dos resíduos do concreto armado raramente é realizada por causa do custo elevado.

Você escreveu seu livro depois do colapso do viaduto Morandi em Gênova. Para você, este colapso tem como causa o próprio material, o concreto armado com vida útil de somente algumas décadas, sintomática da nossa era de obsolescência. Em que este colapso pode ser considerado “um caso da escola da hybris que caracteriza a anticivilização capitalista no ponto mais alto e em todos os níveis”, como você escreve? Devem-se esperar outros colapsos e a deterioração de nossas imensas infraestruturas de concreto armado?

Aqui, como em outros casos “ecológicos”, o problema não consiste somente em inconvenientes mensuráveis, e menos do que nunca é questão de respondê-lo com soluções, elas próprias, tecnológicas, como o pretenso “concreto verde”. O concreto armado é verdadeiramente um filho da era capitalista tanto quanto industrial. Desse ponto de vista, é possível descobrir muitos outros defeitos nele. Como o capitalismo em geral, o concreto vive no curto prazo e proclama “Depois de mim, o dilúvio!”. O colapso da Ponte Morandi em Gênova, no dia 14 de agosto de 2018, mostrou de maneira particularmente estrondosa que o concreto, combinado a uma armadura de aço – o que se chama “concreto armado” –, não tem uma durabilidade ilimitada, como se acreditava na época do seu emprego universal nos anos 1950-1960. Depois de cerca de cinquenta anos, a corrosão do aço que arma o concreto, praticamente inevitável, mas em geral difícil de detectar, tem como efeito que a construção em questão necessite de uma manutenção permanente e onerosa, tanto para os poderes públicos submetidos às restrições orçamentárias quanto para os proprietários privados obcecados pela “competitividade”. É uma despesa que se remete, de bom grado, para mais tarde.

Pode-se, portanto, esperar que as muito numerosas construções, edificadas durante os “Trinta gloriosos”, que foram também a grande época do concreto armado, seja para a construção de um pavilhão ou de uma barragem, sofram em breve sérios problemas. Os relatórios oficiais inquietam-se com o estado das pontes nos Estados Unidos e na Europa – não menos do que 25.000 pontes na França estão em um estado perigoso, segundo um relatório parlamentar de 2019. É possível, então, que o “colapso da modernidade” capitalista e industrial assuma um sentido muito concreto, muito material. E é assustador imaginar as ruínas que o desabamento de um mundo de concreto, amianto, plástico e alumínio vai deixar! Certamente essas não serão as ruínas da Roma antiga.

Você também mostra que o concreto uniformiza os lugares da vida, destrói o artesanato e o habitat vernáculo. Em que sentido é ele o material-padrão de uma arquitetura desumanizadora e de um urbanismo que transforma as cidades em espaços geométricos devotados à circulação das máquinas?

O concreto desempenhou um papel central na mercantilização do habitat e na construção massiva de “máquinas de morar”, como as chamava, muito justamente, mas com orgulho, Le Corbusier – que ainda hoje goza com parte do público da fama de grande arquiteto e até de grande humanista, ao passo que ele nunca escondeu suas intenções autoritárias e classistas: sofisticação para os clientes ricos, “gaiolas de coelho” para os demais. O concreto também se beneficiou de uma boa imagem na esquerda, que via nele um material proletário e sobretudo adaptado à promoção de habitações ditas “sociais”, quer dizer, baratas.

O que ninguém queria ver, com raras exceções, como os situacionistas, é o fato de que habitar não pode se reduzir a “ter um teto”, do mesmo modo como comer não pode nunca consistir unicamente na absorção de uma quantidade suficiente de calorias. Nos dois casos, uma vasta gama de fatores emocionais e simbólicos entra em jogo – habitar significa sobretudo ter seu lugar no mundo, estar ligado ao mundo. Durante milênios, e no mundo inteiro, a arquitetura, no sentido amplo, sempre teve essa função.

É preciso também criticar no concreto o que, frequentemente, foi proclamado, ao contrário, como seu maior mérito: ter tornado possível a arquitetura do século XX. O “brutalismo” não goza mais de grande favor, mas quem gostaria de abandonar o concreto tout court, tão fácil de empregar e tão barato? No entanto, deve-se destacar que o concreto – ou, melhor dizendo, aqueles que o empregam! – é o primeiro responsável pelo assassinato das arquiteturas “tradicionais” ou “vernáculas”, na cidade como no campo. Em geral, era uma “arquitetura sem arquitetos”, como a chamava o historiador da arquitetura Bernard Rudofsky. Ela apresentava, porém, muitas vantagens: construção pelos próprios habitantes ou por equipes locais, que dispunham de poucas tecnologias, mas de um saber-fazer notável; utilização de materiais disponíveis localmente; adaptação às condições climáticas do lugar; geralmente uma longa vida útil; um impacto ecológico muito reduzido; uma combinação de critérios materiais, sociais e simbólicos; uma vasta gama de nuances, inclusive no interior de um mesmo vilarejo. Os arquitetos tradicionais não são “primitivos”, mas apresentam amiúde excelentes soluções técnicas, fruto da experiência, por exemplo, no que concerne ao isolamento térmico. Elas variam de uma região para outra e contribuem assim para a diversidade do mundo, para a sua riqueza, para a capacidade de aproveitar das condições locais e, no seu conjunto, elas constituem um dos principais testemunhos do gênio humano. Ter depreciado, até mesmo destruído esse patrimônio, para substituí-lo por edificações em concreto armado, ou de tijolos furados, repetidas de forma idêntica centenas de vezes no mesmo lugar, sem dúvida parecerá, um dia, ser uma das maiores loucuras da era capitalista e industrial (que não é parcimoniosa!).

Certamente que construir com pedra talhada demanda muito mais tempo, o que no capitalismo quer dizer mais dinheiro. Se o que se pretende é que uma moradia caia aos pedaços no momento em que o proprietário acabar de pagar seu empréstimo, a fim de relançar outra construção com seu “retorno do investimento”, os “empregos” que isto cria e o “crescimento econômico” que daí resulta, então realmente a pedra não convém. Mas o capitalismo conseguiu transformar um dos materiais mais antigos do mundo em um luxo para os ricos! Com esses materiais, desapareceram igualmente os saberes-fazer artesanais pacientemente acumulados durante séculos, o espírito de construção coletiva, e de maneira geral, a arte de habitar como parte da arte de viver em todas as escalas.

“A crítica da arquitetura, e do concreto em particular, constitui o ponto de junção ideal entre a crítica do capitalismo, enquanto sistema econômico e social, e a crítica da sociedade industrial”, você escreve no seu epílogo. Por que é essencial realizar essa junção hoje?

Existe uma relação de amor entre a modernidade capitalista e o concreto, menos visível e em grande parte “inconsciente”. A acumulação de capital significa acumulação de dinheiro, e isto significa acumulação de quantidades de valor. O valor (no sentido marxiano) é constituído pelo trabalho abstrato, isto é, o lado abstrato do trabalho: o trabalho considerado somente enquanto quantidade de energia humana dispendida, medida pelo tempo de trabalho. O lado abstrato do trabalho é o único que conta na perspectiva capitalista, como se pode ver na subordinação da vida por inteiro à lógica do dinheiro e de sua multiplicação. Desse ponto de vista, todos os trabalhos se equivalem, contando apenas a quantidade de valor que produzem, e todos os valores de uso não são senão “portadores” dessa abstração fundamental, e sempre igual, que é o valor das mercadorias criadas pelo trabalho abstrato. Marx fala, com efeito, de uma “gelatina” para caracterizar essa massa amorfa de trabalho abstrato.

Ora, o que é que corresponde melhor, no plano material, a essa “gelatina” do que certos materiais como o plástico e o concreto? Artificiais, sempre idênticos, sem relação com seu meio, capazes de assumir qualquer forma sem ter nenhuma que lhe seja própria: o concreto é perfeito para concretizar, materializar essa abstração fundamental e imaterial que domina a sociedade moderna. Se lembrarmos de que concreto [béton, em francês] em inglês é concrete (daí o Concrete Jungle de Bob Marley), podemos dizer, brincando um pouco com as palavras, que o concreto é o lado concreto da abstração capitalista. Evidentemente que nenhum empreiteiro vai nos dizer que é por isso que ele prefere construir com concreto: mas o concreto tem suas razões que a razão desconhece.

Eis porque o concreto e seu mundo encontram-se na intersecção entre a crítica do capitalismo e a crítica da sociedade industrial: não se trata de um material “neutro”, que seria simplesmente mal utilizado pelo capitalismo, mas poderia servir a outros fins mais nobres. Sua estrutura é criticável em si mesma, e suas aplicações o são ainda mais. Esse exemplo deveria, então, constituir a ocasião de ligar a crítica da sociedade industrial àquela do capitalismo, este último compreendido não somente como dominação de uma classe sobre a outra, mas também como acumulação tautológica e sem sentido de valor através do trabalho. Não é verdade que as tecnologias sejam, como alguns dizem, “nem boas nem más enquanto tais” e que tudo depende do uso que se faz delas. Tornou-se fácil ver que isso não é verdade para a tecnologia nuclear, por exemplo, ou para a engenharia genética. O exemplo do concreto nos ensina, em contrapartida, que mesmo as técnicas aparentemente “não apocalípticas”, quase “inocentes”, são, em sua própria estrutura, aparentadas ao capitalismo e só podem se desenvolver neste regime, ao qual elas, por sua vez, dão vida. Não se deveria, portanto, nem criticar o concreto sem colocar em questão a sociedade capitalista que o promoveu – caso contrário, se cairá na greenwashing e nos ecobairros geridos pela Google –, nem denunciar o capitalismo sem se preocupar com seus materiais e técnicas – caso contrário, acaba-se por reivindicar junto do governo a construção de novos conjuntos habitacionais [HLM].

Traduzido por Pedro Henrique de Mendonça Resende

Entrevista publicada tambem em https://criseecritica.wordpress.com/2020/12/06/um-mundo-concretado-entrevista-com-anselm-jappe/

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