UM LEITOR DE THOMAS BERNHARD

Não falo alemão; é um dos meus inúmeros defeitos: também nessa língua preciso contar com o talento, o bom-senso e a sorte dos tradutores; assim como preciso me conformar e não pensar tanto em que jamais saberei com cem por cento de certeza o que diziam alguns dos meus autores favoritos, por exemplo, da própria língua alemã. Cem por cento de certeza, eu ia dizendo, sobre o que dizem os autores da língua portuguesa eu sei que também é uma ilusão, mas uma ilusão um pouco mais viável. As duas ou três outras línguas neolatinas em que consigo ler não me iludem tanto assim, talvez, ou já me iludem tanto que já nem percebo. Ainda poderia falar do russo, do grego, do latim, do inglês, do japonês, do chinês, do árabe e de tantas línguas tão distantes em que se fez literatura. Mais uma vez só o que me resta é me conformar; para as ilusões mais belas só é dado o contato através da intimidade da língua.
Pois bem. Há muito me interessavam os livros do sr. Thomas Bernhard, escritor austríaco nascido na Holanda que foi falecer justamente no mesmo ano em que a Revolução Francesa completava o bicentenário, o mesmo ano em que, de velho, morreu Cioran e eu mesmo vim saber da sua existência pela notícia da sua morte, o ano em que Caetano lançou O Estrangeiro, o ano em que haveria eleições diretas depois de tanto tempo, o ano em que deixei de ser filho único e tive que me reinventar. Dele mesmo só tive notícias nesse nosso pobre século apressado. Algumas resenhas de traduções, um dossiê numa revista de cultura, uma referência na orelha de um romance de um escritor italiano que se dedicara, entre outras coisas, a brigar com os mestres da sua língua da geração mais ou menos anterior à dele, e as francas reverências de um prosador norueguês.
Era chegado o momento. Nem só de Joyce vive o homem. Encomendei, usados, os livros que me pareciam mais à mão e à comodidade dos bolsos, em duas remessas, cada uma com três títulos. Como nem toda a obra de Thomas Bernhard está traduzida para o português, na primeira remessa pedi três traduções para o espanhol. Na segunda, duas para o português e uma para o francês. Não me ocorre por enquanto pedir nada em italiano.
Aqueles três primeiros livros, quando chegaram, num mesmo pacote, me chamaram bastante atenção pelo aspecto físico; originalmente eram brochuras, mas aos volumes foi aplicada uma capa dura aveludada, como um manto sobre o ombros de quem sentisse frio? Não sei se isso exatamente; mais um verniz de polidez e sisudez. Pelo estado das folhas internas não me parece que tenha sido uma restauração, a não ser que as capas tenham se desgastado mais rápido e mais fácil que o miolo. Não era outra coisa; alguém, imaginei que o livreiro, tinha querido valorizar aqueles exemplares, e a capa dura dava uma impressão mais profunda de respeitabilidade.
Foi lendo que descobri que os três títulos traduzidos tinham passado antes pelas mãos de um mesmo leitor. Um leitor que sublinhava e anotava nas margens com caneta vermelha. Percebi pelo sempre mesmo tom exato de vermelho, pelos sublinhados muito retos e pela caligrafia cheia de ângulos agudos.
Na segunda remessa, o livro traduzido para o francês tinha o mesmo tratamento que os três anteriores. Uma capa dura aveludada substituía a capa da brochura original; traços retos decididos na cor vermelha destacavam frases; na mesma cor vermelha as anotações à margem, que eram em espanhol nos livros traduzidos para o espanhol, e estavam em francês no livro traduzido para o francês.
Havia sempre lugares e datas marcados nesses livros, como infalivelmente no começo das velhas narrativas do Dumas pai. As anotações eram na mesma tinta vermelha, na mesma caligrafia, mas em português. Uma data e um lugar no começo. Uma data e um lugar no fim. As traduções espanholas se referem ora a Barcelona ora a Buenos Aires como ponto de partida. A tradução francesa se refere a Paris. O ponto de chegada era o bairro das Laranjeiras, imagino que no Rio, o mítico Rio de Janeiro, se não houver em outras cidades bairros com o mesmo nome.
Já as datas iam de 1985 a 1989, o ano em que tive que me reinventar porque deixava de ser filho único, o ano em que as eleições diretas voltaram depois de duas décadas de ditadura militar, quando Caetano Veloso lançava O Estrangeiro e punha na capa uma imagem que anos antes tinha sido censurada, quando sei da existência de Emil Michel Cioran pela notícia de que ele tinha morrido de velho, o ano em que a Revolução Francesa completava dois séculos, o ano em que morria também Thomas Bernhard.
Em todos esses anos a insistência inelutável do mesmo tom de vermelho na tinta da caneta, como uma marca de batom, ou de sangue.
Imaginei então que as capas eram obra desse leitor cioso. Fiquei tentando imaginar, apesar de saber que apenas uma coincidência mirabolante me daria essa informação exata, quem seria essa pessoa. Sonho um filme improvisado, que talvez eu faça, amador, com os meus próprios recursos. Sábado, folga, é um bom dia para ir à praia, a da Barra, pensar quem foram os antigos donos dos nossos livros usados e pensar, cada um na sua própria solidão, sobre ficar velho a cada instante. O nome na capa de um livro ou de uma meia dúzia deles tornou alguns seres humanos, bem poucos na verdade, misteriosos e distantes como a mitologia. As pessoas de quem gostamos podem ser maiores, na memória e na presença, do que qualquer nome na capa de qualquer livro.
Meu plano terrível e improvável era passar esse dia ou parte dele ao lado justamente de uma pessoa que tanto amo e que tanto magoei, mas que muito provavelmente deve recusar o convite educadamente, se não preferir simplesmente não responder, o que também é justo. Talvez, acompanhado, não me lembrasse essa leitura nem a identidade inalcançável desse leitor.
O futuro dos próprios livros da minha biblioteca já tão limitada não é acabarem vendidos em terceira mão e lidos por gente que de mim não vai saber nem o rastro? Com o próprio nome do senhor Thomas Bernhard na capa não devo me lembrar de que, de verdade, e isso não mudaria nem mesmo se eu soubesse alemão e lesse no original, de verdade mesmo nunca conheci nem jamais conhecerei Thomas Bernhard? A quem mesmo eu conheceria se tivesse, criança, conhecido Thomas Bernhard? A quem Thomas Bernhard teria conhecido se tivesse conhecido a mim?
A resposta pode ser que não exista ou seja múltipla; a resposta pode ser uma negativa radial e incômoda.
A nós pode ser que só reste a interpretação das palavras, quando ao menos restam as palavras.
Na solidão solar da praia.
Areia.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.