UM GOVERNO ONDE SÓ NÃO É FAKE A CORRUPÇÃO

Nesses tempos estranhos tão bravamente vividos e enfrentados com resistência nos últimos dois anos e meio de (des)governo, os mais de 530 mil mortos pela Covid são emblemáticos dessa sombria e fúnebre atmosfera, que paira sobre nós outros. Com o objetivo de negar essa tragédia, ouvimos e lemos todo tipo de embuste e fake news, produzidos nos laboratórios da maledicência dos neoinsensatos, que, se aproveitando da desesperança dos bem-intencionados, mobilizaram os abutres do poder, produziram um discurso oportunista, característica da política malsã, remanescente dos donos do poder, e ascenderam ao comando da República.
Adite-se a esses tempos moribundos o fato de ainda enfrentarmos, no cotidiano, violentos ataques à democracia e suas instituições jurídico-políticas, em flagrante desrespeito à Nação. Por compromisso com o registro dos fatos como eles os são, e respeito à história, não havemos, porém, de negar uma verdade que a cada dia se revela absoluta, até para os padecentes de dupla ignorância, que lhes dão sustentação. Referimo-nos à engenharia da corrupção montada para a compra de vacinas superfaturadas em até três vezes o custo no mercado internacional, com previsão de pagamento antecipado de uma parcela no valor de 45 milhões de dólares, como restou demonstrado pelos depoentes da CPI, da Covid.

Da tecedura dessa ampla teia de usurpadores, participaram os mais diversos predadores da República, com assento no governo, e no Congresso, como o seu líder na Câmara, deputado Ricardo Barros, além de militares, inclusive do Exército, de dentro e de fora do Ministério da Saúde. Desse magote participa até um “pastor”, pregador – não do evangelho, até porque deste ele não deve saber bulhufas! – mas da palavra ‘negociata’, como convém a um governo “terrivelmente” evangélico. Só não se sabia que também se revelaria terrivelmente corrupto (conforme é terrivelmente mal-educado, desrespeitador e pornográfico), como se tem evidenciado, durante as investigações da CPI.
A engenharia corruptiva desse processo, de tão criativa, provocou algo inusitado: fez o ex-deputado Eduardo Cunha, Paulo Roberto Costa, Jorge Luiz Zelada e Nestor Cerveró, os mais notórios protagonistas do escândalo de corrupção da Petrobrás, presos pela Lava-jato, protestarem por se sentirem aprendizes de corruptos, e serem reprovados na matéria corrupção, disciplina da qual já foram professores em passado recente.

É realmente desoladora a feiúra dessas circunstâncias, para um governo que antes, até, da sua formação, prometera o exercício de uma ‘nova política’, cujo conceito remete a uma mudança de paradigma no modo de governar, com amparo em novas ideias e nos valores de uma sociedade plural e democrática. Outro aspecto igualmente esperado da prometida nova política seria a implementação de novos padrões éticos nas relações com o Congresso, e com a Nação, seja pelos atos administrativos, orientados pelo interesse coletivo e com a devida transparência, seja pela modalidade das relações com a imprensa, e na comunicação com o cidadão… Em tese, foram essas as expectativas geradas por esse discurso oportunista, embora o histórico do santarrão que o verbalizava apontasse na direção oposta, como se mostrou provado.
Nessa contextura, soma-se, ainda com maior ênfase, um falso enredo moralista de que seria um governo honesto e intransigente no combate à corrupção. O que se viu na sequência foi a união ao Centrão, cuja prática política, à extensão da história da redemocratização, se revela a mais atrasada na seara das ideias, além de desprovida de quaisquer escrúpulos em relação aos valores éticos e também morais, e de uma prática político-administrativa agudamente corrupta na gestão dos bens públicos. O resultado é esse que se observa na realidade em curso, o que nos agride e envergonha a todos, se nivelando no modo de governar, até a mais insignificante das republiquetas, ainda de pé, no Continente Africano.

Em uma perspectiva política, moral e ética, o Estado Brasileiro, além de adoecido pela pandemia e fragilizado pela ausência de uma governança que fortaleça a democracia, preserve e respeite suas instituições, foi duramente golpeado por essa arquitetura de corrupção. Malgrado cada vez mais evidente, continua sendo negada por substantiva parcela da população, que se vê representada por esse governo, mesmo as pesquisas indicando que a maioria da população acha o presidente desonesto, falso, incompetente, desesperado, indeciso, autoritário e pouco inteligente, como mostrou o DataFolha, na última quinta feira. O País, também, está acometido de uma esquizofrenia ideológica, que produziu uma bipolaridade do “nós” contra “eles”, como define Luiz Eduardo Soares, em seu livro, O Brasil e seu duplo.

Esse ambiente conflagrado com acentuado grau de estupidez, não só da parte dos que desgovernam o País, mas também entre muitos dos pretensos letrados, politizados e urbanos, desorienta a Nação, corrói as instituições e fragiliza as estruturas sobre as quais procura se assentar a democracia.

Que país, é esse? Expresso de outra maneira: que sociedade é essa?

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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