UM GOVERNO DE LESA-HUMANIDADE

Em 22 de agosto de 2018, num comício durante a campanha eleitoral na cidade de Presidente Prudente, interior de São Paulo, Bolsonaro afirmou, em alto e bom som para eleitores e eleitoras ouvirem, que iria expulsar os médicos cubanos que trabalhavam no Programa Mais Médicos. Disparou: “Vamos expulsar com o Revalida os médicos cubanos do Brasil”. E, de fato, ao assumir a presidência, extinguiu sem piedade o Programa.Os médicos cubanos, diante da virulenta ameaça, retornaram para seu país no final de 2018, antes mesmo da sua posse.

O combate aberto por parte do Capitão à saúde pública, personalizada no Mais Médicos, vem desde 2013 quando a Presidenta Dilma Rousseff criou o Programa para cobrir a demanda de imensas regiões do país por assistência médica primária. O extremismo ideológico, marca de sua atuação como deputado federal, de desprezo pelas conquistas sociais auferidas pelos governos do Partido dos Trabalhadores (PT) – 2003 a 2014 – foi a sinalização dada para o segmento fascista brasileiro se aglutinar em torno do seu nome.

O Programa Mais Médicos foi lançado em julho de 2013 pelo governo Dilma Rousseff com o objetivo de suprir a carência de médicos nos municípios do interior e nas periferias das grandes cidades brasileiras. O Programa levou 15 mil médicos para áreas onde faltava a assistência primária básica, garantindo o acesso a atendimento médico a 63 milhões de brasileiros, em 4.058 (quatro mil e cinquenta e oito) municípios. A criação pelos governos do PT do Mais Médicos, juntamente com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e as Unidades de Pronto Atendimento (UPA), compôs, até ser extinto por Bolsonaro, uma estrutura exemplar, de nível internacional, de política de saúde pré-hospitalar com impacto extremamente positivo junto à população brasileira, integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Já em 10 de março de 2020, discursando durante Sessão de Abertura da Conferência Internacional Brasil-Estados Unidos, em Miami, Flórida-EUA, ao se reportar à pandemia do Covid-19, Bolsonaro disse em seu discurso oficial: Obviamente, temos, no momento, uma pequena crise, né? No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala, ou propaga, pelo mundo”. Portanto, desde o início, ele publicamente demonstrava um alinhamento automático com Donald Trump no negacionismo  da pandemia e de suas consequências letais para as famílias.

Em 17 de abril de 2020, promoveu a primeira substituição do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, por discordar dos encaminhamentos médico-científicos adotados pelo ministério na proteção da vida dos brasileiros, uma vez que as únicas medidas de prevenção, até então, eram o distanciamento social, o uso de máscaras e a higienização contínua das mãos, visando atingir o achatamento da curva de contágio. Ao dar posse ao novo ministro Nélson Tech, Bolsonaro expôs oficialmente essa divergência: “Agora, podemos perguntar: por que substituí-lo? A minha visão é um pouco diferente do ministro que está focado em seu ministério. A minha visão tem que ser mais ampla, os riscos maiores logicamente são de minha responsabilidade”. Portanto, nada do que comandou a política da saúde federal foi feito sem o conhecimento e a aprovação do Capitão.

Dias antes, em 06 de abril, numa coletiva de imprensa, após tensa reunião no Palácio do Planalto a portas fechadas, Henrique Mandetta revelou que, naquele encontro, dois médicos o levaram para uma sala para sugerir-lhe a confecção de um decreto presidencial definindo o uso generalizado da hidroxicloroquina no combate à Covid-19. Mandetta recusou. Uma semana depois ele estava sendo exonerado do cargo. O seu substituto tomou posse no dia 17, mas no dia 16 de maio também era exonerado para em seu lugar assumir como interino o general Pazuello.

Na posse do general Pazuello como ministro titular, em 16 de setembro de 2020, no seu discurso oficial Bolsonaromais uma vez defendeu o uso da hidroxicloroquina: “Comecei a defender a hidroxicloroquina calcado também nas experiências médicas pelo Brasil que apostavam nela e tinham uma resposta através de sua observação. Não consegui impor a sugestão ao então ministro da Saúde (Mandetta) de retirar do protocolo que o tratamento com a hidroxicloroquina deveria ser ministrado apenas quando o paciente estivesse em estado grave”. Não dedicou nenhuma palavra sobre vacinas.

Ocorre que a Farmacêutica Pfizer confirmou que o governo Bolsonaro rejeitou uma oferta de 70 milhões de doses de vacina contra Covid-19, feita em 15 de agosto de 2020. Segundo a empresa, o Brasil teria doses disponíveis a partir de dezembro do ano passado.

Outro agravante, o 2020 Annual Report by Departmentof Health & Human Services – USA”, na sua página 48, revelou que no ano de 2020 utilizou as relações diplomáticas (com o chanceler Ernesto Araújo) na América do Sul para mitigar os esforços dos Estados como Rússia e China que estão trabalhando para aumentar sua influência na região em detrimento da segurança dos Estados Unidos. Entre os exemplos pode-se destacar o êxito do uso do escritório do Adido de Saúde dos EUA no Brasil para persuadi-lo a rejeitar a vacina russa Sputinik V contra a Covid-19.

Por fim, no dia 23 de novembro de 2020, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, vulgo Zero Três, continuou com sua política de agressão aberta à China, prestando-se a seguir subserviente aos ditames do governo Trump. A China por 11 anos consecutivos é o maior parceiro comercial do Brasil, representando algo em torno de 40% das exportações brasileira. Uma parceria bilateral estável e sadia. Na contramão, Zero Três e Ernesto Araújo produziram declarações infames desrespeitando a cooperação sino-brasileira e o mútuo benefício que ela propicia, num contexto de pandemia no qual a China apresenta-se como a grande produtora dos insumos básicos para a produção de medicamentos e equipamentos de combate ao vírus. Diante do clima de animosidade criado ao longo dos últimos dois anos, a Embaixada da China no Brasil, em nota oficial, alertou para as autoridades brasileiras deixarem de endossar a retórica da extrema-direita estadunidense, caso contrário irão arcar  com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria Brasil-China”.

Hoje o Brasil atesta a morte de mais de 305 mil pessoas por Covid-19, com uma média diária dos três últimos dias da ordem de 2.700 óbitos. Registre-se que o governo de centro-direita do então presidente Fernando Collor de Mello caiu por fatos muito menos graves como os anotados acima.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .