Um cidadão brasileiro (II)

Como ocorreria a outros tantos intelectuais e artistas, entre 1964 e 1985, período em que durou a ditadura militar, Caetano Veloso não raro seria considerado de esquerda pelos conservadores, e de direita pelos militantes da esquerda. Incompreendido, jamais abriria mão de pensar livremente o país. Como uma personagem saída de um romance de Dostoiévski, acreditou sempre que a beleza haverá de salvar o mundo.

Já no álbum de estreia, de 1967, derramava-se em lirismo na belíssima canção Avarandado, mesmo o país estando no ápice da repressão: “Cada palmeira da estrada/tem uma moça recostada/uma é minha namorada/e essa estrada vai dar no mar//Cada palma enluarada/tem que estar quieta parada/qualquer canção quase nada/vai fazer o sol levantar/vai fazer o sol nascer//Namorando a madrugada/eu e minha namorada/vamos andando na estrada/que vai dar no avarandado do amanhecer/no avarandado do amanhecer”.

A beleza, como disse, a salvar o mundo.

A voz doce, irrepreensivelmente afinada, no ritmo de acordes ao mesmo tempo sofisticados e simples, observando o desenho limpo da música, o jeito de cantar de Caetano, doce e calmo, como que anunciava o encontro consagrador com outro baiano que exercera sobre ele reconhecida influência: João Gilberto.

O encontro, aliás, dar-se-ia em agosto de 1971, sob as bênçãos de Fernando Faro, respeitado produtor de rádio e televisão a quem coube programar o momento histórico. Em seu último livro, dedicado a João, Amoroso: Uma biografia de João Gilberto, lançado pouco depois de sua morte, em 4 de outubro de 2020, Zuza Homem de Mello assim descreve o encontro: “Às seis da tarde de um sábado de agosto de 1971, estavam todos reunidos no estúdio das Emissoras Associadas no Sumaré, esperando João para o que seria uma espécie de ensaio para a gravação de domingo, quando Caetano chegaria. Passou-se meia hora, uma hora, uma hora e meia, duas horas, e nada de João. Alguns não aguentaram e desistiram, exceto Augusto de Campos e Pica Pau, que não queriam perder a oportunidade de rever João”.

Com atraso, como não seria incomum em se tratando do criador (?) da bossa nova, João, Caetano e Gal acertaram detalhes da gravação, passaram a música e, no domingo, entraram no estúdio para realizar a gravação. Estava selada uma amizade que daria novo brilho à MPB.

Incontornável, é de 1967 a música Tropicália, verdadeiro manifesto do movimento que marcaria o início de profundas transformações na arte brasileira, e cujas raízes, nomeadamente presas ao movimento modernista de 1922, reeditam a antropofagia de Oswald de Andrade.

O nome, inspirado em importante exposição do artista plástico Hélio Oiticica, por si só remete ao que a letra professa, a multiplicidade cultural do Brasil, suas contradições doces ou amargas, sua cordialidade mal compreendida, sua identidade cercada de diferentes vozes, gestos, cores e ritos: “Sobre a cabeça os aviões/sob os meus pés os caminhões/aponta contra os chapadões/meu nariz”. A dizer das oscilações de humor do brasileiro, da complexidade de seu caráter indefinível, os versos remetem ao dia a dia do brasileiro ao sabor das injunções de momento: “Domingo é o fino da bossa/segunda-feira está na fossa/terça-feira vai à roça/porém”.

À altura de seus 80 anos, Caetano Veloso vem a público com um disco notável, irreverentemente intitulado “Meu Coco”, décimo terceiro álbum de uma carreira irretocável do ponto de vista estético. E foi o próprio artista a reconhecer a retomada do tema mítico da miscigenação, afirmando em uma entrevista que “Meu Coco é uma música que rediz algumas coisas que venho dizendo ao longo de décadas”. Mas ‘redizer’, em se tratando de Caetano Veloso, não é repetir. Há no disco uma forma nova de cantar, a exemplo das modulações de voz e falsetes estilizados, pontuando a expressividade rítmica e melódica da música, e da poesia que explode em versos dissonantes cada vez mais trabalhados. Se o tema da mestiçagem constitui o eixo de discussão, ainda um tanto quanto exaltado, a veia crítica pulsa com uma intensidade revigorada: “Somos mulatos híbridos e mamelucos/E muito mais cafuzos do que tudo mais/O português é o negro dentre as eurolínguas/Superamos cãibras, furúnculos, ínguas/Com Naras, Bethânias e Elis/faremos o mundo feliz/Únicos, vários, iguais”.

Assumindo-se mais à esquerda, politicamente falando, Caetano Veloso abre a voz com a força de antes, mas o esteio de sua narrativa é muito menos do poeta de Avarandado e mais do de Podres Poderes e de Gente, composição dos anos 1970 que retoma em atos de protesto com renovado entusiasmo: “Gente é pra brilhar/não pra morrer de fome”.

Mas falar, no exíguo espaço de uma coluna de jornal sobre a obra de Caetano Veloso, é misto de fascínio e insensatez (pelo que me desculpo), leve-se em consideração tratar-se de um dos mais prolíficos e versáteis artistas do Brasil e do mundo, com uma produção tão vasta e tão diversificada que nem mesmo o espaço da academia, as dissertações de mestrado, as teses de doutorado, os artigos de fôlego, os livros e as conferências de feitio intelectual foram capazes de esgotar. Há muito a dizer e explorar da sua obra e da sua presença inclassificáveis na extensão desses muitos e muitos anos de arte e inteligência de que os brasileiros ‘devemos’ nos orgulhar.

Fonte da imagem: Instagram do Caetano Veloso

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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