TUDO O QUE EU NÃO TE DISSE – pequenas novelas

Naquela estreita vila de pescadores de uma rua só, situada em linha tênue entre mar, dunas e mangues, nasceu Bagé. O menino foi crescendo e em sua companhia cresceram algumas singularidades que o segregavam dos demais garotos de sua idade. A vida nos une aos outros impositivamente; os outros repartem-nos ao meio ou constroem muros quando não conseguem nos quebrar para que caibamos em suas enfadonhas visões bipartites e congeladas. Tem gente que nasceu com o olho podado pelo ódio e pelo medo de descortinar pessoas. O envolvimento assombra.

 

Bagé era um menino franzino, mas bem cuidado apesar das precárias condições de seus pais. Dormia em rede, que nem suas irmãs, e era muito apegado à mãe, mulher de muita coragem, pouca simpatia e arraigada, embora uma esforçada mãe. O pequeno era o tipo de filho que qualquer pai ou mãe gostaria de ter (muito embora os pais esperem utopias dos filhos). Apesar de não ser dado a trabalhos braçais, como capinar, pescar, por exemplo, como o era o irmão mais velho, ajudava em tudo na casa e não dava trabalho na escola, tampouco em casa. Ao contrário, Bagé gostava mesmo era de ler, de desenhar, de escrever e de imaginar. Possuía grande vocação para as artes. Era jovem demais para se preocupar com o que seria quando crescesse e, contudo, vivia preocupado como se já fosse um adulto – era precoce em tudo, portanto, carregava traços de genialidade e, como quase todos os aspirantes a gênios, acreditava pouco em si. Se tentava crer em si, era automaticamente paralisado pelo medo de errar. Passaria um quarto da vida em defasagens por causa disso. Medo de si. Medo dos outros. Medo de amar e ser amado.

 

Eis uma das grandes maravilhas da infância: não se preocupar com o futuro, mas esperar que ele venha até nós. Quando crianças, ainda temos mais controle do amanhã devido ao estado de inconsciência com o qual tratamos as coisas significativas do porvir. O sujeito infante sempre procura a beleza do supérfluo, a relevância mínima de tudo que, infimamente, existe e nos pasma. Teve uma poeta americana, a Edna St. Vincent Millay, que chegou a falar, certa vez, que a infância é o reino onde ninguém morre. Sim, a infância, frente a qualquer cenário de horror e desespero, sempre será a porta para um lugar de paz possível porque a imaginação inocente reina. Na infância ainda há beleza, há criação, há um mundo onde a genuinidade não é só um sonho, onde as fronteiras acabam, as línguas se cruzam, o amor transpõe o medo e este, o medo, é motivo de curiosidade, é ferramenta de aproximação para descobrir outras belezas, outras perspectivas. Na infância, o medo quase não existe porque a coragem é o combustível da vida – só há o receio mas as criaturinhas têm ímpeto de elaborar questões sobre tudo. A criança é como uma esponja. Se a encharcamos de preconceitos, de medo ou ódio, demorará muito para que ela possa secar e se preencher de outra substância. A criança interior não morre, o que parece ser a possibilidade de rendenção e de reconstrução de nossas vidas e nossas percepções de mundo. 

 

Bagé foi crescendo e sua consciência despertando proporcionalmente. Esse estado evolutivo o fez, então, tomar para si certos saberes que eram negados pelos mais velhos. Ali quem ensinava era a vida, não as pessoas. Um processo de autoeducação e de percepção solitária das coisas cotidianas. Um perigo! Contudo, perigosa é a vida… e a literatura! Os livros escassos da biblioteca de sua escola juntamente a todos que com ele conviviam formaram sua existência enquanto sujeito como um mosaico de cacos de azulejos velhos. À medida que Bagé cresceu, cresceram as mazelas que comumente acometem os pré-adolescentes. Apelidos, brincadeiras sem graça… Toda sorte de tortura; daquelas chinesas mesmo. Aos poucos foi desnudando o mundo e, a cada camada descoberta, a crueza e a crueldade da vida revelavam-se a seus olhos ainda tão pueris. Cada palavra-navalha proferida era como uma gota a cair, repetidamente, sobre sua cabeça descoberta. Em Manguezal, o vilarejo de pescadores, ferir era tão legítimo quanto fora a crucificação de Jesus Cristo e os algozes, quase sempre, acreditavam cegamente em Jesus.

 

O mundo ensina da pior forma, dizia sua mãe. Depois do pior só resta a vida. O pior precede a indiferença em relação ao sofrimento. O garoto dava de ombros, mas não tardaria a saber que ela era profetiza. A matriarca era difícil em alguns aspectos e isso a tornava mais mulher do que se pode imaginar. Nenhuma mulher precisa ser mãe exemplar (e entende-se exemplar como sendo o que se espera delas e não o que elas podem fazer e são). Não se nasce mãe, torna-se. Se esta invenção de deus dá-se o direito de ser pai relapso e contamina a paternidade com a chaga da indiferença e da frieza, que as mães possam, então e ao menos, descansar e ser humanas. E a mãe de Bagé era dessas que não reconhecia os próprios erros, que nem o deus pintado nas igrejas, mas quando acertava assombrava a todos. Acertou em muitas coisas sobre a vida do menino. Errou em várias também. Era humana e, mais importante, era mulher. Só em ser mulher já significa que o mundo dos homens deve a ela mais do que se pode elaborar verbalmente.

 

Certa vez, dissera ao filho que não esperava mais pedido perdão de ninguém. Que pedido de perdão não serve para nada. Que não alimenta, não abriga, não protege e não cuida, nem educa nem traz paz. Queria mesmo era mudanças, tomar para si o que lhe fora negado: a infância, a juventude, a liberdade, a educação, o prazer, a escolha, o amor para consigo, o reconhecimento… Apanhava com uma vara para aprender a escrever com a mão direita, pois era canhota. Odiava o professor carrasco. Largou os estudos na quarta série, sabendo ler e escrever e fazer as quatro operações. Canta até hoje, é mezzo soprano, e aprendeu a costurar com sua mãe, de quem herdara o gênio forte, meio masculino de ser. Teve o dedo sujo de merda de galinha para parar de chupar o dedo quando criança. Chorava muito enquanto lavava o polegar com sabão inúmeras vezes, corria na cozinha e enfiava-o na lata de açúcar para voltar a chupá-lo, agora às escondidas. Casou aos 14 anos obrigada por uma fofoca de rua, quando alegaram que estaria grávida do único homem que conheceu e com o qual vive após quarenta anos. Engravidou da primeira filha aos dezesseis anos. Humilhada e agredida pela família do marido, mudou-se com o cônjuge para uma casa velha, abandonada, feita de tijolo cru, iluminada por lamparinas, sem água encanada, onde criou os sete filhos. Lavava roupas nas lagoas ou no riacho próximo, quando as chuvas enchiam as cacimbas de lama nas enxurradas de inverno. Administrou o bar do marido para os sete filhos não morrerem de fome, pois o patriarca bebia tudo com os amigos. Foi assediada dentro do bar pelo homens bêbados, chegando a puxar faca ou quebrando gargalo de garrafa para se defender. Depois de narrar cada história exemplar de sua vida, exclamava a Bagé: pedido de perdão é para ser enfiado no cu. Se arrependeu, aja sobre! A palavra só performa se tiver ação, sem isso de nada serve. É oca! e palavra oca é para ser mandado para o oco do cu mesmo. Poucos filhos tinham a sorte de Bagé: uma mãe honesta cujas palavras atravessam tudo em choque jocoso. Depois do pior, realmente, não resta nada a não ser a vida. Perguntava-se, já rapaz, se toda essa dor é sentida no útero e se poderia ser transmitida ao feto.

 

Da mãe, o garoto herdara a clarividência e esse poder satírico que regava os dons para a arte (ele realizaria tudo o que ela não pôde). Também herdara a energia yang, dominadora, masculina e ativa para trabalhos. Era da mãe que vinha o masculino. Do pai, herdara a voluptuosidade de escorpião, uma feminilidade que coexistia com esse masculino espiritual, bem como o senso de justiça para mediar conflitos e ouvir. Só descobriria o pai em si mesmo muitos anos depois, quando finalmente concluiria que pai e mãe são tão humanos quanto qualquer filho, quando o deus menino-porco fosse morto e virasse mitologia.

 

Tornou-se triste muito cedo que nem sua mãe. Era ambos os pais, homem e mulher, ao mesmo tempo, numa simbiose que transcende o mero sexo ou qualquer tentativa de elucidação de gênero. Era duas carnes, dois sangues e dois espíritos; sem um nome para não ter que caber nos sentidos. Tinha natureza indígena da qual se orgulhava mesmo quase apagados sua identidade e seu pertencimento pelo maldito e frígido europeu. Por sorte, restavam-lhe as histórias contadas e valia-se delas para construir a própria composição viva. 

 

Toda noite, desde a infância, Bagé sonha abismos. Pode ter um jardim ao lado, florido, com riacho cheio e passarinhos cantando na copa das árvores, mas prefere, ainda, o precipício, o risco, a margem crua, tudo o que é limítrofe. Tornara-se poeta ali, criança, quando escolheu o risco. E dali, arriscaria-se, talvez, para o resto da vida.

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é Produtor cultural, artista, ativista queer e revisor de textos em Língua Portuguesa. Às vezes é do tamanho da duração do instante. Cursou Letras na UECE e atuou como produtor em diversos espaços culturais de Fortaleza.

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