Tudo ainda é tal e qual

O tempo presente foi motivo das investigações de muitos pensadores e poetas. O que está acontecendo e não sabemos o porquê? O Sol que gira em torno da Terra, ou seria o contrário? Por que todo sólido lançado de um projétil percorre uma trajetória curva até alcançar ao chão? O que é o tempo? E se o tempo girasse ao contrário produzindo não um movimento expansivo, mas retrocessivo do Cosmo?

No nosso espaço Ocidental moderno, um fenômeno aparece com muito vigor: a manifestação da barbárie no campo pessoal, social e político. A mudança de referenciais na condução dos processos da vida humana, com a conquista da Ciência e da Técnica pela razão humana, destruíram formas passadas de vínculos sociais substituindo-os por novos padrões materialistas de convivência humana nos quais não mais os valores ditados pela Religião pautam o comportamento de pessoas e grupos, mas os valores individualistas e competitivos do Mercado. Na colmeia tecnológica contemporânea mandevilleana cada abelha deve cuidar com muita ferocidade da produção do seu mel, olhando somente para si e para o seu sucesso.

Mas o que entendemos por barbárie?

Para os gregos, muito antes dos romanos, bárbaros eram todos aqueles que não compreendiam nem falavam corretamente a língua grega. Minha língua, minha pátria! De fato, a ignorância da língua de outrem me impede de percebê-lo plenamente em sua humanidade. Maso mesmo ocorre com ele ao meu respeito representando uma via de mão dupla.Portanto, a incapacidade de compreender o outroem sua dimensão existencial se torna um sinal de inumanidade.

Mais adiante, essa oposição redutiva entre bárbaros-e-gregos foi ampliada para uma concepção bipolar entre selvagens/civilizados. Bárbaros seriam aqueles que recorrem sistematicamente a diversas formas de violência (inclusive simbólica) para resolver os desacordos. Assim, o conceito de barbárie serve para designar, em qualquer época ou lugar, os atos e atitudes daqueles que em um grau mais ou menos elevado, lançam os outros para fora da humanidade, ou os julgam radicalmente diferentes de si mesmos, infligindo-lhes um tratamento ofensivo. Bárbaro é todo aquele que não reconhece a plena humanidade dos outros.Considerar os outros como menos humanos é uma típica forma de barbárie. Ao perceber os outros como seres inferiores, os bárbaros podem então submetê-los por diversos meios, inclusive político-institucionais,a uma vida empobrecida, escrava, ou até mesmo à morte, sem serem incomodados pelo remorso.Acontece que todos nós humanos participamos do mesmo do mesmo instinto de barbárie, a do sentimento de rivalidade que nos leva a recusar aos outros o direito de acesso às alegrias e aos bens que são objeto do nosso desejo.

Naturalmente nos vem indagar: o que seria então uma atitude humana civilizada?

A atitude oposta – civilizada – é aquela de quem sabe reconhecer plenamente a humanidade de todos os outros. Levar os membros do seu grupo a compreender uma identidade estrangeira, seja ela individual ou coletiva, é um ato de civilização porque, dessa maneira, amplia-se o círculo da humanidade. Para isto é preciso colocar em prática a capacidade de se colocar no lugar de qualquer outra pessoa que é o meio que o ser humano dispõe para realizar a sua vocação humana de viver com humanos.Reconhecer a pluralidade dos grupos, das sociedades, das culturas humanas, colocar-se no mesmo plano dos outros, faz parte da civilização.Isso se dá por meio do diálogo que garante uma posição equivalente entre todos os interlocutores. Dialogar é, sem sombra de dúvida, uma forma de comunicação mais civilizada que o sermão no qual um oráculo (ou pastor, ou ditador) profere suas certezas onde os outros limitam-se apenas a escutar e até a obedecer. Aceitar um proposição sob palavra por um ato de fé implica que emissor e receptor estejam em posições desiguais, enquanto que aceita-la por um ato de razão coloca os dois no mesmo plano.

As cenas nacionais recentes de intolerância, sejam no campo político como entre grupos e indivíduos, vêm demonstrar que a escalada da barbárie continua muito viva no meio de nós, com novas aparências, peculiaridades e intensidades. Cada abelha mandevilleana quer mostrar a si e ao outro, por meio de uma violenta intolerância, que o seu mel e somente o seu mel tem valor e é melhor que o dos outros. Mas, afinal de contas, nós somos abelhas ou humanos?

 

 

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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