TROPEÇANDO NO REGRAMENTO, por Luciano Moreira (Xykolu)

“Em que gaveta do meu ser, em que sótão da minha memória inconsciente, em que arca secreta estariam armazenadas, apanhando o pó do tempo e da vida, todas estas lembranças?” (Érico Veríssimo, em Incidente em Antares).

 

O tropeço inaugural, que marcou indelevelmente a minha existência terreal e, por isso, suscitou, na memória de longuíssimo prazo, registro especial esculpido por invisíveis e hábeis mãos com estilete de diamante em mármore de Carrara, ocorreu quando ainda naturalmente percorria o trajeto entre a nona e a décima estação da humana via que, logo, logo, de vivências extremamente cruciais se recobriria, as quais, expondo-me ao risco do sucumbimento psíquico, anímico, ainda na pré-adolescência, em face do despenhadeiro que, abissal, estonteante, provocante, escancarou sua bocarra bem à minha frente, avaliariam impiedosamente a minha capacidade de resiliência, de recomposição, de renascimento. (Hoje, com a paciência de quem ainda dispõe de algum caminho a palmilhar – avante, pois! – e a experiência de quem já perfez uma gratificante e enriquecedora jornada – um eterno aprendiz a recolher o cabralino pó da pedra que os transeuntes deixam consciente ou inconscientemente pelo leito da estrada –, percebo haver, naquele momento de convulsão pessoal, usufruído de uma qualidade de que não desconfiava sequer ser possuidor: o talento do sobrevivente!).

Incorporo, agora, a entidade deífica da vontade inabalável e, nessa condição espiritual, assumo os poderes de Cronos, o deus grego e senhor absoluto do tempo, imponho, então, à minha peculiar ampulheta a execução às avessas de suas funções naturais e, num voo surreal pelo espaço pretérito, retroajo ao ano, então já morrediço e decrépito, de 1961. Sou aluno do Grupo Escolar Monsenhor Manoel Cândido, da rede estadual de educação, dirigido pela respeitável e eficiente professora Maria de Jesus Castello Branco e já detentor de reconhecida reputação no campo do ensino e aprendizagem, onde curso o quarto ano primário, sob o zeloso e proficiente comando da versátil professora – dona Zizinha –, a quem competia conduzir-nos pelas sendas do saber em todas as disciplinas que então compunham a grade curricular. (Ela e uma irmã aparentemente mais velha – ambas quarentonas celibatárias – eram proprietárias de uma loja na rua 15 de Novembro, vizinha da tradicional padaria dos portugueses, a poucos metros da praça de Santa Luzia e quase defronte ao portão de acesso à parte interna do Mercado Público; e lá comerciavam tecidos em peças, cuja medição se dava por meio de trena fixada no tampo do balcão de madeira. Bons tempos!).

Modéstia às favas, tinham-me como aluno exemplar: capacidade excepcional de leitura e escrita, de memorização e de interpretação, bom domínio da língua portuguesa, já com razoável repertório de palavras, bom desempenho com números e operações aritméticas, além de um louvável comportamento. O mais novo de uma turma de cerca de trinta aprendizes, alguns até uns quatro ou cinco anos mais velhos, ocupava sempre um dos assentos externos da carteira de três lugares, a mais próxima da mesa da professora, bem próximo do quadro de giz. Recordo-me de um colega de nome Jaime, certamente o mais velho de todos nós, que se envolveu, juntamente com a irmã e uma amiga, elas mais novas que ele, em insólita ocorrência de alta gravidade, na avaliação dos corpos diretivo e docente da escola, e causador de muito burburinho entre os discentes. Eles foram flagrados pela zeladora, no banheiro feminino e em pleno horário de aula, aferindo, ele na função arbitral, com qual delas deveria ficar o disputado – quase teriam ido às vias de fato – título de “dona dos maiores seios” entre todas as meninas do grupo. Só não houve expulsão por causa da pronta intervenção dos pais que se comprometeram com a escola a dispensar ao fato o devido tratamento.

Pois bem. A minha aprovação e a consequente passagem – precoce, aos olhos de muitos – para o quinto e último ano do primário eram favas contadas. Certamente, no curso do ano seguinte – 1962 –, que já se avizinhava, iria ser preparado para enfrentar o exame de admissão, porto de passagem para a tão almejada fase imediatamente posterior: o ginásio. Que teria de albergar-se no Ginásio Salesiano Domingos Sávio, com acesso quase improvável para filhos de pais não incluídos nas classes sociais mais bem aquinhoadas economicamente. Eu, por exemplo.

Eis que a poética e metafórica pedra drummondiana que, na oportunidade, se me ofereceu como obstáculo no meio do caminho, não se compunha, a bem da verdade, de qualquer elemento de natureza rochosa, ao contrário, mais se aproximava, por função, da forma líquida, aquosa. Tratava-se, isto sim, de torneiras com vazões distintas, destinadas a encher tanques de capacidades diversas, em tempo apenas definido em relação a uma delas; quanto ao da outra, aí residia o xis da questão. E isso, na terminologia matemática, era conhecido como regra de três composta em grandezas inversamente proporcionais, cuja complexidade se restringia, a meu exclusivo e simplório entendimento da matéria, à rigorosa interpretação – da qual emanaria a inquestionável exatidão científica – do questionamento formulado e, mais precisamente, dos dados oferecidos, cujas relações, se bem estruturadas, possibilitariam a correta distribuição das setinhas indicadoras de simples operações de multiplicação ou divisão, ou seja e a rigor, aritmética simples.

E eu tropecei no regramento, no modo de fazer a coisa, e fui de cara ao chão. O “menino prodígio” fracassou, para a surpresa de muitos que me julgavam plenamente capaz e para o saboroso espanto e o sarcástico sorriso de alguns que me consideravam sabichão, petulante, arrogante… na verdade, não passavam de invejosos pertinazes e inconsequentes. A dura realidade: eu teria de repetir o quarto ano primário, haja vista a inesperada reprovação em matemática. E o mundo desabou sobre mim. Chorei profusamente um choro pueril, com direito a soluços que furiosamente irrompiam da alma em transe e à vermelhidão nos olhos que, lacrimejantes, ardiam. Frustração. Vergonha.

Só que, além de haver construído, desde o meu ingresso no segundo ano, um histórico escolar digno de referências meritórias e de mantido, naquele mesmo ano, um desempenho que tendia ao limite superior da escala de avaliação, eu era filho da professora Enedina Gonçalves Moreira, notável alfabetizadora, parceira da escola e das profissionais que a colocavam em destaque na região e, mais ainda, amiga particular de dona Maria de Jesus que, após dar-me o reconfortante abrigo e o revivificante consolo – Você ainda é uma criança e o tempo se encarregará de consertar as coisas! – na sua sala de diretora, incumbiu-me de fazer chegar à minha mãe o convite verbal para uma conversa, no domingo à tarde, na sua residência, na casa dos pais dela, no sítio – de frondosas mangueiras e cajueiros que produziam saborosíssimos frutos – do seu José Minau, à margem da estrada carroçável que ligava a sede do município à localidade d’As Areias e, mais adiante, ao Vale do Candéia, com cerca de arame farpado e largo portão de entrada logo após a ponte do Pompeu, erigida em tempos imperiais – creio eu – sobre o leito do rio Aracoiaba, com assoalho e guarda-corpos em madeira, assentados em estrutura de ferro instalada em pilares de concreto.

Da conversa, o assunto evoluiu para um encontro com a filha – de nome indígena que ora me foge à lembrança – do seu Campos, comerciante de ferragens e implementos agrícolas em loja no entorno do Mercado Público, com frente para a avenida 7 de Setembro, e amigo do meu tio Tonho, por relações negociais, e do meu pai, por identificação religiosa. Ela, a filha, então em férias na casa dos pais, a poucos metros da praça Waldemar Falcão, era uma das coordenadoras da Secretaria Estadual de Educação e membro de órgão encarregado de, entre outras atribuições do gênero, normatizar a área educacional do Estado, atualmente conhecido como Conselho Estadual de Educação.

Do encontro, de que participaram as professoras Maria de Jesus, Zizinha e Enedina, além da secretária da escola, restou esclarecido, de início, que, à falta de regulamentação que tratasse especificamente do assunto, caberia à direção da unidade escolar, sob comunicação formal aos órgãos competentes, dar solução ao problema. Apesar da razoabilidade desse entendimento, mas considerados o desempenho do aluno e a existência de projetos – em fases avançadas – que visavam modificar o sistema de avaliação da rede pública estadual, tornando-o mais efetivo e eficaz ao longo do período letivo, prevista, inclusive, a introdução de uma segunda oportunidade para aprendizes que não lograssem êxito nas avaliações parciais e final, a coordenadora avocou para si a responsabilidade institucional para autorizar, em caráter excepcional, a anulação da prova e, consequentemente, do resultado anteriormente obtido pelo aprendiz, e a realização, em até quinze dias, de outra avaliação, sob os mesmos critérios, agora sob o acompanhamento presencial da diretora e da secretária, além, obviamente, da professora.

Cumpridas as formalidades, os fatos ocorreram dentro da mais perfeita normalidade. E eu, agora mais aliviado e psicologicamente preparado, arrostei torneiras e tanques, pedreiros e muros, padeiros e pães, operários de fábrica e parafusos, automóveis e quilômetros percorridos, sem enganos e sem titubeios ante as antes inextrincáveis, para mim, regras de três, simples ou compostas, com grandezas direta ou inversamente proporcionais. As aulas de reforço da minha mãe me deram, além de conhecimento sobre a matéria, eficiência e tranquilidade. Dez! Nota dez!

Na abertura do ano letivo de 1962, lá estava eu bem acomodado na primeira carteira de três assentos, bem à frente da mesa da professora que, por sinal, era a dona Maria de Jesus, na sala do quinto ano primário. Houve algumas reações de espanto, mas a indignação, declarada até com rancor, quem a protagonizou foi o colega Antônio Moreira, jovem de reconhecida liderança oposicionista, contestatória, revolucionária, que, alguns anos depois, revelaria uma identificação – física (facial) e ideológica – com o soteropolitano contestador Raul Seixas, autor de músicas que marcaram a época, tais como Ouro de tolo, Mosca na sopa e Metamorfose ambulante.

Tudo foi, então, esclarecido, com a direção do Grupo Escolar dando ciência a todos da legitimação dos procedimentos adotados, arrimados em documento autorizativo oficial. Restaram algumas rusgas; nada que pudesse alterar o curso normal dos acontecimentos.

Concluí o primário com louvável desempenho. Submeti-me ao exame de admissão no colégio dos salesianos, reservadas apenas duas vagas para originários de outras escolas. Assegurei a minha.

Ocorre, entretanto, que em fevereiro de 1963, às vésperas do início do ano letivo, o Destino impôs-me a mais crucial das experiências. E o despenhadeiro – abissal, estonteante, provocante – escancarou sua bocarra bem à minha frente. Aí já terá sido uma outra história.

E já lá se vão quase seis décadas.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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