Três Apitos

“Quando o apito da fábrica de tecidos
vem ferir os meus ouvidos
eu me lembro de você”

A canção Três Apitos, do compositor Noel Rosa, poderia agradar até mesmo os ouvidos de um filósofo pessimista como Arthur Schopenhauer, avesso aos fenômenos da vida moderna. Já o apito da fábrica de tecidos lá da Vila Isabel, ou de qualquer outra vila, talvez pudesse lhe cortar o juízo. Será que precisamos ser filósofos para entender que a sensibilidade ao barulho está diretamente ligada à inteligência?

Pois sim, foi mais ou menos isso que disse Schopenhauer: pessoas com percepções menos elevadas, pouco se incomodam com o barulho excessivo. Fico pensando quais eram os ruídos que incomodavam o austero filósofo na tranquila existência burguesa de 1851.

Estou lendo Querida Konbini, um livro que aparentemente relata a não-poesia da vida cotidiana dos tempos de agora. Mas, a personagem criada por Sayaka Murata entrega a apurada sensibilidade da escritora, desde os sons do primeiro parágrafo– os sinos que tocam, os cumprimentos dos clientes, o apito do leitor de cartão, saltos de sapatos caminhando na loja, a mão que aperta uma embalagem plástica… Enfim, tudo que agita os tímpanos da protagonista atrás do balcão.

Se o latido dos cães, o bater dos chicotes e os gritos ou choro de uma criança eram os barulhos mais insuportáveis para Schopenhauer, hoje, essa afirmação, inevitavelmente, soa até engraçada.

Era só isso mesmo, senhor Filósofo? Nada mais?

Então, o mundo de Schopenhauer era a própria tranquilidade. As grandes fontes de barulho ainda não tinham sido inventadas, nem televisão,
nem rádio,
nem paredão de som,
liquidificador,
nem o carro ou a buzina,
nem aspirador ou “motoca” de trocentas mil cilindradas… A vida cotidiana ainda não era exposta ao choque das grandes metrópoles, a simultaneidade planetária.

Os grandes maquinários?
Só existiam nas fábricas.
O artesão trabalhava cantando.
As mulheres lavavam roupa cantando.
E os animais?
Estavam ali, cão, vida, canto e gente, no campo ou na cidade. Perto, mas longe de ser um barulho maléfico.

Hum, esse bicho chamado silêncio…

Se o Cariri já existia? Pelo menos, enquanto terra, sim, mas, quando muito, o barulho que havia era o barulho dos redemoinhos, os tilintares dos chifres afiados em brigas de bois selvagens, passarinho assobiando, chuva caindo no mato. Quase todos os sons, “zuada”, ruídos eram de origem “natural”, humana e de animais.

Imagino os ambientes antes da industrialização do mundo no século dezenove.

Silêncio
Calma
Passarinhos sem rua

E imagino que o século seguinte, este bem tão sonhado, se tornou um privilégio para poucos.

No mercado imobiliário já pensou quanto custa uma “casa silenciosa”?

Silêncio – leveza profunda. E se o barulho caísse, vindo do céu e furasse o chão?

Calma aí, nem todos amam o silêncio. Entre sábios e inocentes sabemos que o silêncio absoluto é insuportável para o homem, ainda mais se for usado como forma de tortura psicológica. Alguns associam o silêncio à tristeza, à ausência de vida.
Outros, se ficam sozinhos, ligam a televisão ou o rádio, somente pela ilusória sensação de estarem acompanhados, ouvir vozes, sem necessariamente prestar atenção ao que a fonte do ruído diz.

Ah, gente… será que a gente se acostuma, será que já se acostumou com a cantiga gasguita da chaleira da cafeteria dos capuccinos de nossas reuniões? Será que a gente nem percebe e se acostuma com os decibéis em última escala do som nos barzinhos, ou a TV dos restaurantes, mesmo que isto represente a impossibilidade de uma boa conversa? Quem sabe se esta não é a razão ou intenção de quem quer o volume nos ares: a não conversa – o não conversar verdadeiramente?

Fazer barulho pode ser uma manifestação de potência. E gostar do silêncio não quer dizer que devemos nos calar! Por outro lado, os mais “impotentes”, em todos os sentidos da palavra, são os que mais fazem barulho. Por exemplo, um acelerar de motocicleta é uma tentativa de demonstrar masculinidade, macheza e uma grande falta de educação. Um poluente do ar e da mente.

E os que gritam quando os times de futebol ganham ou perdem. O que a vizinhna que amamenta o filho recém-nascido tem a ver com isso? Por que ela tem que aguentar alguém na janela a berrar coisas para além de comemoração ou indignação? Ou quem liga o som dentro do ônibus, sem usar fones de ouvidos e acredita que todos os passageiros desejam escutar o mesmo refrão “senta, senta, senta ou toma, toma, toma”…Não se trata de julgar os gostos, mas de ressignificar o próprio mundo na hora de dizer “estou aqui, eu existo”.

Penso que os gritos, berros, barulho cansa rapidamente, dura pouco. Mas, as nossas máscaras cotidianas anestesiam. É mais provável que alguém se choque ao ler a palavra “chupa” “senta” “toma”, do que se uma outra pessoa gritar ao seu ouvido as mesmas palavras.

Se Schopenhauer viesse dar um rolê no mundo de hoje, lá pela Konbini das terras de Sayaka ou pelas bandas de cá, tomar um chopp na perifa, por exemplo, ele veria que o latido de um cão ou o choro de uma criança é quase uma canção de ninar, se comparado aos “sons” dos que não respeitam o direito e o limite dos outros com verdades gritadas em “cultos” dentro dos ônibus, paredões de som ou o arrancar desnecessário de motores irracionais.
Aqui e acolá tem os que adoram roncar os seus motores para demonstrar um tipo de potência (que na verdade é uma impotência). Não se polui o mundo somente com derramamento de petróleo no mar ou dioxina no ar, a poluição sonora causa danos roubando do outro a pouca tranquilidade que ainda resta.

Silêncio – fartura no cantar dos passarinhos
abraço que o vento faz no alto dos coqueirais

Seu Arthur Schopenhauer certamente não reclamaria dos apitos das fábricas, pela mudança na existência delas hoje em dia, e, polêmicas à parte em torno da letra da canção, eu aposto que ele se renderia aos acordes elegante e não berrante dos Três Apitos de Noel.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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