TODA VIDA É ETERNA: UMA LEITURA D’A METÁFORA COMO NAVALHA – CRÔNICAS DECOLONIAIS – Por Vicente de Paula da Silva Martins

É uma obra que, a rigor, ressobra de méritos ou virtudes textuais por ser de altíssima qualidade literária e escrita por um poeta brilhante, um cronista muito inteligente. Um cronista que sabe falar sobre a “epistemologia tupiniquim” através de “crônicas decoloniais”.

Minha missão aqui reside em brevemente apontar pontos importantes para valoração das crônicas gildemarianas (e os valores que as constituem). Por essa razão, ao ler o livro de Carlos Gildemar Pontes, cuidei unicamente de descrever o que percebi a partir da sua estesia e das experiências pessoais como poeta, boêmio, professor, o efeito de fruição de sua memória civilizatória em benefício da estética e da linguagem simbólica. Estas, sim, como sabemos, capazes de produzir, no leitor, o sentimento do belo.

A produção do escritor é bastante robusta. De 2008 a 2021, publicou, ao menos, 20 obras. As crônicas de Gildemar Pontes têm muito da escritura braguiana. Ah, que crônicas saborosas, e fiquei logo com a velha vontade de ler para aprender, ler para memorizar, ler para declamar a crônica “O que atrapalha é o povo”, trechos em que o cronista-poeta escreve sobre seu “primeiro grauzinho na Escola XI de Agosto”, em Fortaleza, em cuja escola conheceu uma especial e bem-dotada professora de História, período de “explosão hormonal dos adolescentes”, e igualmente importante para desvelar que o povo, já naqueles “anos dourados”, sofria com a submissão política.

Essa densidade lírica das crônicas de Gildemar pode ainda ser atestada quando define o amor assim: “O amor é a maior parcela de energia que nos alicerça a humanização”. Mais adiante, e decididamente, em “O amor e a razão de sua existência”, deparei-me com a mais pindérica crônica de sua lavra. Outra joia valiosa do cronista está em “Existe um timing para ser feliz.”, e na crônica “Enquanto envelhecemos”; mais outra preciosidade, quando diz “Quero ser o Aristóteles de mim mesmo.”, que aparece na crônica “Por uma alma estética”, ou a sábia lição “Escolher palavras difíceis, debulhar a verborragia típica de quem quer ser fechado e metido a intelectual de botequim não te levará a nada a não ser à completa miséria.”, em “Isso de ser escritor”, esta, certamente, o melhor receituário que li para quem almeja ser escritor.

De cada uma das crônicas desta obra destacaria ao menos trechos de expressividade estilística, mas, claro, limitar-me-ei a decantar apenas estas porções: em “A corrosão da utopia”, quando diz que utopia “Seria um retorno ao paraíso, não corrompido pela maldade e pelo egoísmo, por exemplo, em que haveria uma igualdade pacificadora das individualidades. Talvez aí, neste sentido, resida um apagamento do eu e uma projeção do coletivo acima das necessidades do indivíduo, mas suprindo a necessidade de todos.”.

Quando pensei estar diante de um cronista-poeta, o autor se propõe a trabalhar, de forma bem engajada, a “literatura através da união entre texto e história, texto e psicologia, texto e sociologia, texto e filosofia, e não apenas escandir versos ou enquadrar a prosa nas correntes das teorias, invariavelmente, daquela forma, excludentes.”. É, enfim, o autor deste volume um leitor que soube, ao longo dos anos, se apropriar de aportes teóricos e reflexivos extraídos de Bakhtin, Candido, Bosi, Sodré, Afrânio, Romero, Carvalho, Castello, Azevedo, Holanda, e mais outros, devidamente determinados pela bibliografia dos Cursos de Letras.

A vitalidade do cronista é, nesse momento, evidenciada por generosidade humana e maravilhosa quando lembra de um garçom, o Baleia, que, ao contrário, do imaginar de “um sujeito gordíssimo”, deparou-se com “cara alto, magro, com a presteza de quem faz parte de uma grande família unida pela arte, servindo com muita alegria.”. Como Gildemar alcançou esse feeling somente observado nos grandes contistas brasileiros? Ao lermos as crônicas obteremos as respostas.

Por fim, faço minhas as palavras finais do cronista: “Toda vida é eterna”, uma mensagem de grande otimismo em meio à pandemia vencida da Covid-19.
(Texto adaptado do prefácio)

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