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Tiranossauro: E o cinema que transcende a arte

As primeiras imagens de Tiranossauro (2011) são apresentadas em meio a cortes rápidos. Em um momento, vemos Joseph, protagonista do longa, alçando um taco de baseball contra a própria fronte. Noutra sequência, são os insultos ao vento do personagem junto às tomadas que se intercalam rapidamente que nos evidenciam o drama que está por se anunciar. O desequilíbrio de realidades marcadas pela dor é o limiar desse formidável filme de Paddy Considine.

Joseph (Peter Mullan) é o inglês de meia-idade tão pouco retratado na cinematografia contemporânea. Alcoólatra, viúvo e temperamental, ele é o anti-herói que irremediavelmente nos arrasta para o interior de seu atribulado mundo. É a figura que mata o próprio cão, dada a instabilidade emocional em que se encontra. E será pelas mãos de Hannah (Olivia Colman), cuja serenidade dos atos encobre os percalços de uma vida marcada pelo abuso e a violência doméstica, que nosso protagonista tentará construir um novo eu.

A dor, seja ela física ou psicológica, é, portanto, o elemento que unirá essas duas personagens, arquétipos tabulados na Inglaterra dos subúrbios. Espaço onde a hostilidade parece estar em qualquer lugar. Aqui, a vizinhança é mais complexa, e seus problemas são dissecados ao máximo por Considine. Falamos do padrasto que diariamente ameaça o enteado; esse garoto, à propósito, remete ao segundo elemento que conecta Joseph à sua humanidade. Que irá despertar nele a ideia de alteridade —- nós não podemos ser nós mesmos sem antes sermos o outro também. Vivermos o outro,  colocando-nos constantemente em seu lugar.

Mas o caminho desse peregrino será árduo, da descoberta da fé à retomada do controle emocional. O cenário de sua inserção não faz referência aos céus estrelados que Roger Michell idealizou em Notting Hill (1999). Em propósito contrário, Considine nos dá um “soco” no estômago ao dizer que há uma outra Europa além daquela retratada pelas grandes companhias cinematográficas. Sua intenção nos atesta que o diretor quis mesmo inquietar seu público.

E se esse fora seu real intento, Paddy teve êxito. Tiranossauro é obra audaciosa. Atolada na realidade, coloca na mesa nossas angústias, medos e destinos, que não obstante, são muitas vezes definidos por um único movimento insano. Essa ação, no entanto, nunca vem dissociada de consequências, seja no presente ou na posteridade. Isso, nas palavras do próprio Joseph, é o que o distingue, juntamente com Hannah, das demais pessoas do mundo. Unidos pela desgraça, ambos terão de fazer escolhas, se realmente quiserem iniciar nova vida.

Na vida real, certas escolhas também tendem a ser de dificílima natureza. Mas Tiranossauro é apenas uma obra ficção, certo?! Não para seu idealizador. Isso porque, em alguma medida, encontramos muito de Joseph ou Hannah em nossas reações. Por vezes somos obrigados a reiniciarmos a vida, deixarmos velhos hábitos em prol de novos posicionamentos que nos garantam um futuro de paz. Temos, assim como Hannah, de colocar nosso amor próprio em primeiro plano. Ser corajosos, mas sobretudo honestos com nós mesmos.

O longa deixa sua marca no hall da cinematografia não apenas por reunir um elenco que transborda o brilho de irrepreensíveis atuações. Mas também pela forma como seus elementos técnicos, fotografia, montagem e trilha sonora, se comungam a um roteiro cuja originalidade cabível a si nos intima sobre a mais adequada maneira de conduzirmos nossos dias.

É o cinema em sua melhor forma, onde a arte transcende o campo do entretenimento e nos aciona a reflexão, por meio do seguinte problema: o que faz com que estejamos amarrados a um cotidiano de dor e o que podemos fazer para estarmos libertos das prisões que encarceram tantas almas ao redor do mundo?

FICHA TÉCNICA

Título Original: Tyrannosaur
Gênero: Drama
Tempo de duração: 92 minutos
Ano de Lançamento (ENG): 2011
Direção: Paddy Considine

Daniel Araújo

Crítico de Cinema, Realizador Audiovisual, e Jornalista.