Tiranias e Democracias

Nos últimos quatro anos (2019-2022) os brasileiros tiveram a oportunidade, por meio de muito sofrimento individual e coletivo (cerca de 700 mil mortos por Covid-19 e mais de 33 milhões de indivíduos voltando para o Mapa da Fome), de aprender na prática sobre alguns dos traços predominantes do fascismo. Um eixo central desta ideologia totalitária reside na rejeição da razão em nome do uso da força, negando sistematicamente a verdade objetiva dos fatos em favor de narrativas, distorcendo a realidade, com intuito de criar uma Mitologia condutora paralela. Tudo o que lhe causar oposição e incômodo é considerado subversão contra a Pátria e contra o Mito condutor.

A utilização das imagens é de fundamental importância. O conceito “imago”, utilizado pela psicologia, ajuda a entender aspectos de tais introjeções da realidade distorcida, amplamente desenvolvido nas táticas fascistas contemporâneas. Segundo a psicoterapeuta austríaca Melanie Klein (1882-1960), o imago é um objeto introjetado fantasticamente, com uma percepção distorcida dos objetos reais, acarretando como consequência um modelo idealizado não correspondente ao objeto real. Tal distorção imaginária deve-se a uma imaturidade perceptiva e cognitiva do indivíduo incapaz de perceber e de avaliar os objetos na sua totalidade. Ou como na perspectiva de Jacques Lacan (1901-1981), o espelho utilizado como uma alienação originante, aprisionando indivíduos em suas feridas emocionais: quando as feridas emocionais não são tratadas, acabam fazendo parte do inconsciente, influenciando o sentir, pensar e agir, o estado emocional e comportamental. O papel da propaganda fascista é fundamental para alimentar tais feridas, inseguranças, medos, preconceitos, rejeições, ódios e rancores.

De outra visão teórica, o psicólogo Wilhelm Reich (1897-1957) em seu livro “A psicologia de massas do fascismo”, em 1933, sobre o estudo de três anos no contexto de ascensão do nazismo na Alemanha, buscou compreender as razões pelas quais cidadãos medianos respaldavam o discurso fascista que, em última instância, atacava suas necessidades humanas. Em sua conclusão, o autor atesta que uma situação de crise econômica não coincide necessariamente com um pensamento reflexivo capaz de levar a classe média a identificar as causas estruturais que alimentariam sua condição de explorada. Na verdade, ocorre uma não correspondência. Afinal, a aquisição da consciência da realidade não se dá de forma mecânica: requer a formação continuada e exercício do pensamento crítico sobre as contradições das relações que se dão na base material.

A classe média não sendo detentora dos meios de produção, nem se organizando enquanto classe proletária em sindicatos de trabalhadores, apresenta-se como uma força social motriz particular e manipulável, conforme provaram os fascismos italiano e alemão. Assim, quanto maior for o peso e a dimensão de camadas de classe média em uma população, tanto maior é sua importância como força social de ação decisiva na ação de massa num ambiente de crise econômica. A posição da classe média é determinada pela sua situação no processo de produção material: nem é capitalista nem é proletária. Sabendo que não conseguirá chegar ao topo da pirâmide, sua ideologia de classe abomina com pavor a possibilidade de vir a decair na escala social e proletarizar-se, principalmente em países como o Brasil com fortíssima concentração de renda, massa salarial muito baixa e condições sociais de vida muito precárias para grande parte da população.

No manual da Guerra Híbrida (Pentágono – EUA), a percepção da influência de uma vasta classe média não-engajada é essencial para chegar ao sucesso no front, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos eleitos democraticamente. O processo inclui táticas que vão desde o ‘apoio à insurgência’ (como na Síria) a ‘ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar governos’ (como no Brasil a partir de 2013). Conforme cresce a insurreição, amplia-se também a intensificação da propaganda e a preparação psicológica da população para a rebelião. (Piero C. Leiner. O Brasil no espectro de uma guerra híbrida. Alameda, 2020).

Portanto, além da veneração do Mito, o poder autoritário fascista conta com outra determinação fundamental para sua ação política: a concessão voluntária dada pelos cidadãos medianos, que oferecem antecipadamente sua adesão total, uma obediência passiva e infundada, sem a qual o fascismo não poderia impor uma rápida mudança no regime político e nos hábitos da sociedade, conduzindo-os à submissão e ao ataque sempre mais crescente a seus opositores.

Neste momento, a ameaça articulada pelas forças fascistas brasileiras – líderes empresariais, religiosos e militares – é alimentar o confronto criminoso em não aceitar o resultado legal e legítimo da eleição presidencial na qual eles foram derrotados. Dois fatos recentes, além dos amplamente registrados até o presente momento nos meios de comunicação, agravam o contexto. Na madrugada do domingo, 13, o Centro de Formação Paulo Freire (MST-PE), localizado no município de Caruaru, foi atacado por um grupo bolsofascita que pichou as instalações da instituição com símbolos da suástica nazista e com a palavra Mito, incendiando a residência da coordenadora do Centro. Em toda a história do MST em Pernambuco nunca havia se registrado ataques de grupos expressamente nazifascistas. E em Nova Iorque (EUA), ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) foram hostilizados por apoiadores de Bolsonaro, exibindo cartazes contestando o resultado eleitoral e pedindo intervenção militar: “Nós vamos ganhar essa luta, porque nós somos maiores que a Suprema Corte”, gritavam.

Um engano clássico de sociedades democráticas, diante do avanço do fascismo, é supor que suas instituições são capazes de se proteger automaticamente das investidas violentas – reais e simbólicas – como ocorreram no Brasil desde que o bolsofascismo chegou ao governo federal em 2019. O objetivo do fascismo quando chega ao poder é o de destruir imediatamente as instituições democráticas, conforme anunciou Bolsonaro em 17 de março de 2019: “Nós temos de desconstruir muita coisa”. Portanto, as instituições não se protegem sozinhas, precisam ser defendidas continuamente pelo conjunto das forças políticas e sociais democráticas de uma nação. A omissão ou a negligência no combate contundente ao fascismo só favorece o seu crescimento.

Para concluir, destaco uma mensagem circulando nas mídias sociais contendo a foto de uma jovem mulher, com um crucifixo ao peito e uma imagem de Nossa Senhora de Fátima nas mãos, sorrindo e vestindo uma camiseta com a foto do torturador brasileiro Brilhante Ustra, ícone do bolsofascismo, com o seguinte dizer: “Ustra vive”. Isto me fez recordar uma das agonísticas questões levantadas pelo filósofo espanhol Miguel de Unamuno: como o cristianismo responde ao engajamento de cristãos integrando movimentos e partidos políticos fascistas? Poderá ser igualmente cristão aquele que apoia a tirania fascista e o que defende a democracia? Ou será que o cristianismo, enquanto cristianismo, não tem nada a ver com isso? Pode um cristão, que é homem em sociedade, homem civil, desinteressar-se da vida social, política e econômica da qual faz parte? Ou os cristãos não têm nada a ver com a vida do mundo concreto?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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