Tia Zefinha e a modernidade

“Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de compreender mais para temer menos.”

Marie Curie

Josefa Filgueira, ou Tia Zefinha, era minha tia-bisavó materna. Nascida em 1880, na chamada Costa Branca, região salineira do Rio Grande do Norte, em 1964 contava 84 anos e já estava com a lucidez claudicante. À altura eu era adolescente e contava 14 anos de idade.

Ela havia vivido os anos em que ainda não se conhecia eletricidade e os barcos da sua juventude que levavam sal de lá para o sul do Brasil eram movidos à vela ou remos, já que a nem a energia a vapor não era ainda usual por lá.

Nos tempestivos anos 60 a modernidade já estava sendo vivida e se consolidaria definitivamente nos anos 70 do início da era da microeletrônica e sua tecnologia revolucionária.

Naqueles anos o golpe militar que vinha sendo tentado desde 1954 e que levou Getúlio Vargas ao suicídio como forma de abortá-lo, terminou por ocorrer (quase dez anos depois, em1º de abril de 1964, dia da mentira) e se consolidar sob os auspícios de combate ao comunismo e à corrupção: a velha cantilena golpista de direita.
À altura eu não tinha clareza do seu significado, mas me chocou ver o pai de um amigo meu, um pacato cidadão de cerca de 50 anos, que gostava de comprar uns whiskies escoceses (bons e baratos) contrabandeados no porto da cidade de Areia Branca, RN, apenas para consumo de sua turma que enxugava legal, ter seu estabelecimento comercial invadido por um jovem Tenente do Exército que o prendeu a fê-lo subir algemado num caminhão do Exército.

Anos depois foi que compreendi que aquele ato representava uma demonstração de poder arbitrário e da propaganda veiculada pela doutrina militar golpista de combate à corrupção (e ao contrabando como crime de lesa impostos da pátria deles) sob a qual se dera a quebra da institucionalidade burguesa, bem como e, principalmente, em nome de um pseudo perigo vermelho.

Ainda não eram os tempos nos quais um militar assumiria o poder político do Brasil pelo voto e encheria seu governo de militares com sinecuras bem remuneradas, uso de conhecidos hackers processados para grampear e bisbilhotar magistrados e órgãos do judiciário, e aviões para recuperar joias do Estado para o seu patrimônio particular e da sua esposa piamente evangélica.

Mas voltando à lembrança da Tia Zefinha, diante do apagão da manhã de 15 de agosto de 2023 que deixou sem energia elétrica boa parte do norte e nordeste do Brasil, paralisando a maior parte das atividades sociais, lembrei-me de sua frase num dia em que faltou energia: “num disse que esse negócio de energia elétrica num dava certo?”

Para Tia Zefinha, a energia elétrica era uma modernidade ineficaz e até certo ponto perigosa pelo medo que ela tinha medo de levar choque elétrico; é que o novo sempre assusta quem já se acomodou com o velho que mesmo ruim, é por ele conhecido, e o desconhecido pode alterar sua zona de relativo conforto.

Como disse Caetano Veloso: “a mente apavora o que não é mesmo velho”.
O crescimento da direita no mundo me fez lembrar da Tia Zefinha, que por medo do novo queria a voltar a um passado social que sempre foi ruim, mas cujos problemas e soluções eram por ela conhecidos.

Os problemas atuais estão se agravando tragicamente, com alguns aspectos adicionais antes impensáveis, como o aquecimento global fruto da irracional emissão de CO² na atmosfera e outras agressões planetárias em rios, mares, solo, subsolo e atmosfera.

Este é o combustível do crescimento da direita no mundo, naquilo que costumo chamar de pêndulo da ineficácia, como sendo aquele movimento da peça do mesmo nome num relógio de parede que vai de um lado para outro sem sair do lugar. A direita e a esquerda institucional se alternam repetidamente no poder político subserviente e ineficaz, razão pela qual a abstenção eleitoral na Argentina de 31% ganhou de qualquer candidato individualmente.

Hoje, com o apagão elétrico de algumas horas, as regiões afetadas simplesmente pararam. É que a vida social atual está completamente dependente das conexões eletrônicas e que sem a energia elétrica pouca coisa funciona, e, assim, resta paralisada a quase totalidade das atividades humanas.

A cibernética nos seus vários ramos de uso é um ganho da humanidade, e sem ela a vida de cerca de 8 bilhões de seres humanos seria bem mais difícil do que já é.
Paradoxalmente, é justamente a TI – Tecnologia da Informação, ou tecnologia da microeletrônica cibernética o que está promovendo a implosão do modo de relação social mediado sob o capital por matar a galinha dos ovos de ouro do capital: a redução substancial do crime de apropriação indébita pela extração de mais-valia tornada marginal pela obsolescência do trabalho abstrato em maior proporção que os novos nichos de empregos criados por esta mesma tecnologia.

Equivocadamente a sociedade do capital entende que o capitalismo gerou os avanços da ciência em seu benefício, e por ela foi constituído para tal desiderato, sem compreender a contradição contida neste processo que explicita a sua injustiça social intrínseca, criando um impasse cuja solução somente será possível com a adoção de um modo de relação social compatível os ganhos da ciência.

São justamente os tais avanços tecnológicos nos vários campos da ciência, e em todos eles estão presentes os saberes cibernéticos, aquilo que nos impele à adoção de um novo modo de relação social que em tudo e por tudo é incompatível com a lógica da reprodução do valor pela produção e comercialização de mercadorias, e pelos motivos antes expostos.

O capitalismo somente é minimamente viável com o emprego parcialmente substantivo de assalariados segregados.

Para sua sobrevida escravagista, a mercadoria força de trabalho há que existir numa proporção que torne tolerável a segregação social por ela promovida, e que como disse Marx, há que existir, concomitantemente, com um exército de desempregados capaz de reduzir a pressão dos trabalhadores por melhores salários, sempre reduzidos pela lei capitalista da oferta e da procura da mercadoria força de trabalho, a única que os trabalhadores descapitalizados têm para vender no fantasmagórico altar do capital: o mercado.

É por isso que Marx disse nos Grundrisse que quando atingíssemos o estágio da produção tecnológica de mercadorias capaz de prescindir substancialmente do trabalho assalariado num desequilíbrio de proporção entre empregados e grandes e majoritários contingentes de desempregados (desemprego estrutural como ora ocorre), toda a lógica de reprodução do valor iria voar pelos ares. É o que estamos a observar.

Antes, no período da ascensão capitalista, era a classe operária empregada e assalariada o sujeito da revolução, e que tomado o poder das mãos do capital deveria se auto extinguir enquanto classe trabalhadora assalariada produtora de valor, bem como extinguir a própria forma-valor no curso da consolidação revolucionária.

Hoje, com o desemprego estrutural é a insatisfação popular com a inviabilidade da vida (todos são afetados, até os empregados com a redução de salários e disfunção estatal na satisfação das demandas estatais como contrapartida dos impostos a todos cobrados), que está a exigir um passo adiante.

Mas o medo do novo desconhecido, ou seja, de uma sociedade sem a mediação social do valor, assusta o homo aeconomicus aculturado no agir e pensar sob a forma valor, que é tido por ele como dado ontológico de sua existência. Para ele é algo assim como se querer que se viva sem tomar água ou sem alimentos.

O condicionamento apriorístico a que estamos submetidos nos faz confundir o valor de uso, inerente a qualquer objeto de consumo ou serviço, com seu valor de troca, uma invenção humana histórica, sem que se saiba claramente que é esta última categoria capitalista aquela que determina toda a produção ou não-produção dos bens de consumo.

É o mercado aquilo que ora está a destruir tal produção, vez que neste processo há apenas o uso oportunista da necessidade de consumo das mercadorias cuja aquisição está substancialmente reduzida pela depressão econômica e limite desta mesma necessidade (não se usa mais de um sapato por vez).

Somente se produz o que dá lucro (regra capitalista da famigerada viabilidade econômica da produção), e a forma-mercadoria hoje esbarra na capacidade aquisitiva para que se opere a sua produção com dupla personalidade (valores de uso e de troca) e junto com ela a negatividade intrínseca a uma relação social abstrata, negativa e segregacionista que comanda a vida real.
É por isto que muitas vezes se queimam excedentes de produção de alimentos num país onde aumenta a fome.

O desapego ao modo de produção capitalista, ou seja, viver com a adoção de um modo de produção voltado para a satisfação das necessidades de consumo, e não para o lucro, não é coisa fácil; mas tal como alguém que vai dirigir um carro pela primeira numa rua com outros veículos, só tem duas alternativas:
(i) enfrentar o desafio de dirigir e se manter focado no que tem que ser feito no tráfego sem medo de abalroamento;
(ii) ou jamais aprender a dirigir.
Encontramo-nos no limiar de um processo que conjumina urgência e necessidade de sobrevivência.

Urgência por conta de que há uma capacidade autodestrutiva nuclear que vem sendo noticiada por quem detém tal possibilidade de uso, bem como pela necessidade de ajuste da contenção de emissão de gás carbônico na atmosfera por um processo de produção industrial com uso de combustíveis fósseis que não pode parar.

Necessidade por conta de que apesar todo o saber tecnológico existente, ou justamente por causa dele, ocorre o aumenta a fome no mundo, e justamente por conta da incompatibilidade entre forma tecnológica de produção e o conteúdo social desta, circunstância que se traduz numa contradição irresolúvel sob uma forma de relação social que se tornou obsoleta e inviável por múltiplos aspectos.

Não é o caso de fazermos como a minha Tia Zefinha, que queria voltar aos tempos da lamparina e do fogão à lenha condenando a eletricidade; mas de usarmos todo o saber tecnológico da humanidade em benefício dela mesma, e não de alguns poucos beneficiados administradores submissos da lógica de acumulação do capital que ora cavam a própria cova (Marx).

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;