TERREMOTO POLÍTICO – Rui Martinho

Terremotos são destruidores. A liberação de forças tectônicas, fortes ou fracas, causam apreensão. Era geológica é a divisão de um éon na escala de tempo geológico, marcada pela formação de continentes e oceanos, cuja mudança é relacionada com as maiores transformações do planeta. A política atual passa por abalos sugestivos de reviravolta global. Transformações geológicas decorrem da escala planetária dos abalos de força “císmica”. A política sofre pressões “tectônicas”.

Líbano e Iraque têm manifestações com dezenas de mortos. Desde a chamada primavera árabe Síria, Líbia e Iémen ardem, todas com intervenção estrangeira. Israel, única democracia da região, passa pela mais prolongada crise de governabilidade, sem maioria para compor um gabinete, após sucessivas eleições. A democrática Europa ocidental passa pelo mesmo problema na Itália, Espanha, Alemanha onde repetidas eleições não definem maiorias. O Reino Unido não decide se deixa ou fica na União Europeia. A França vive a crise dos coletes amarelos. Na Ásia Hong Kong é palco de intermináveis manifestações com força de terremoto. A Ucrânia, no leste da Europa, passou por violenta crise política, mudou governo e caiu na guerra civil com intervenção russa.

Nos EUA partidos vivem crises de identidade e representação, o presidente é contestado pela oposição e está a beira do impeachment. Na América Latina temos: Colômbia com um acordo de paz reprovado em consulta popular e de concretização duvidosa; Venezuela tornou-se inviável; Nicarágua passou por manifestações com odor de guerra civil; Equador vive turbulência; Peru tem ex-presidentes presos e um conflito entre o Poder Executivo e o Legislativo; Chile em convulsão; México vive guerra civil protagonizada por organizações criminosas; Brasil passa por prolongada radicalização da sociedade e uma criminalidade com laços políticos, limítrofe de guerra civil; Haiti passou décadas sem governo, entregue ao crime. Na África, a Somália viveu situação análoga a do Haiti. URSS e o leste europeu passaram por terremoto político do qual ainda não se recuperaram.

O governo Trump vive crises em meio ao crescimento econômico e pleno emprego; o Chile e a Bolívia vivem um largo período de prosperidade. O Brasil ainda vive o rescaldo de uma recessão. Hong Kong é riquíssimo e não conhece insatisfação com a economia. A Revolução Iraniana explodiu em tempos de prosperidade. Bonança e dificuldades econômicas fazem parte da equação, mas não são determinantes, senão em alguns momentos. A falta de instituições confiáveis; lideranças acreditadas; sob impacto da mudança cultural forçada; resistência posta pela revanche do sagrado à aculturação aludida, principalmente no campo dos costumes; o choque de civilizações (Samuel Phillips Hutington, 1927 – 2008), agudizado pelas migrações e pela globalização, potencializando a agressividade do multiculturalismo diferencialista confluem para a liberação das forças “tectônicas” capazes de refazer “oceanos” e “continentes” políticos e sociais. A mudança de equilíbrio de forças entre potências tradicionais lideradas pelos EUA, de um lado, e a China, de outro, completam o quadro de instabilidade.

O desgaste das teorias políticas tradicionais abala partidos, sindicatos e formadores de opinião. A telemática introduziu novos atores políticos. Mudança de eras geológicas não deixam pedra sobre pedra. É catastrófica e de resultados imprevisíveis. Foi o que que houve quando da queda do Império Romano. Será isso que estamos vivendo?

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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