TERÇA-FEIRA DE CINZAS E DE FAKE NEWS – Alexandre Aragão de Albuquerque

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Como os brasileiros e brasileiras elegeram e ainda continuam a apoiar um tipo como este? É a pergunta que insiste em não querer calar.

 

No quadro geral do resultado das eleições de 2018 houve 31,3 milhões de abstenções, 8,6 milhões de votos nulos, 2,5 milhões de votos em branco e 47 (44,87%) milhões de votos para Fernando Haddad, perfazendo um total de 90 milhões de eleitores que não votaram no capitão. Contudo, dos 57 milhões (55,13%) de votos por ele obtidos destacam-se os resultados de alguns estados da Federação apontando o bolsonarismo como um fenômeno apoiado majoritariamente pelos habitantes das regiões sudeste e sul do país. Vejamos o quadro abaixo que indica o percentual de votos para Bolsonaro no segundo turno da eleição:

 

Santa Catarina    75,92% dos votos

Paraná  68,43% dos votos

Rio Grande do Sul  63,24% dos votos

São Paulo  67,97% dos votos

Rio de Janeiro  67,95% dos votos

Espírito Santo  63,06% dos votos

Minas Gerais  58,19% dos votos

 

Nesta terça-feira, 24, Bolsonaro estreou nas Nações Unidas – ONU – fazendo o discurso de abertura da Assembleia Geral, fato que ocorre desde 1947 quando o chanceler Osvaldo Aranha deu início à tradição. Vejamos alguns aspectos do seu texto.

 

De início afirmou que foi “covardemente esfaqueado por um militante de esquerda”, mas o capitão omitiu que a 3ª. Vara Federal de Juiz de Fora sentenciou inimputável Adélio Bispo de Oliveira por possuir Transtorno Delirante Persistente, não podendo ser punido criminalmente. Até o dia 28 de junho, se quisesse de fato ir à busca da verdade, Bolsonaro poderia recorrer da decisão. Por que não o fez? Em nenhum momento ficou provado que foi uma armação da esquerda. Mas o capitão em seu discurso na ONU cometeu mais uma difamação pública, mais uma fake news.

 

Em Segundo Lugar, o capitão não teve em seu discurso a honestidade de fazer uma avaliação do que representou o Programa “Mais Médicos” para a população brasileira. O “Mais Médicos” foi criado em 2013 pelo governo de Dilma Rousseff em colaboração com a Organização Pan Americana de Sáude (OPAS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) para ampliar a atenção primária em saúde e suprir a carência de médicos nas regiões de pobreza do Brasil. Além disso a OPAS/OMS também contribuíram com o monitoramento e avaliação dos resultados e impactos do programa, bem como na gestão e disseminação do conhecimento gerado pela iniciativa, capacitação, fortalecimento da educação em saúde para um grande contingente de médicos, entre outras ações relacionadas à melhoria da atenção primária à saúde no Brasil. Mais de 60 milhões de brasileiros eram beneficiados pelo Programa. Segundo a OMS, o “Mais Médicos” foi um dos projetos mais audaciosos para a cobertura equitativa e universal da atenção primária à saúde no mundo e considerado como uma das melhores práticas de cooperação sul-sul na Região das Américas. No dia 22 de agosto de 2018, o então candidato Bolsonaro ameaçou abertamente, no interior do estado de São Paulo, que se fosse eleito iria EXPULSAR OS MÉDICOS CUBANOS DO BRASIL. Isso ele não disse na ONU.

 

Em terceiro lugar, o capitão afirmou que tem “compromisso solene com a preservação do meio ambiente”. Como? Desconsiderando os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostrando que a Amazônia teve 26.345 focos de incêndio de 1º a 25 de agosto deste ano, configurando a maior marca que a média histórica para o mês, medida desde 1998? Não tomando nenhuma iniciativa para investigar e punir sobre aquilo que se chamou como “Dia do Fogo”, uma ação planejada de queimadas que circulou pela internet? Neutralizando o papel do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente dos Recurso Naturais (IBAMA) na aplicação de multas ambientais? Intimidando e difamando os profissionais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ameaçando abrir processos administrativos contra os seus servidores?

 

Ele ainda afirmou na ONU que hoje o Brasil está mais seguro. Mas não disse para quem? Na noite da última sexta-feira, 20, mais uma indefesa criança brasileira, de apenas oito anos de idade, foi assassinada pelas costas por um tiro de fuzil disparado por um agente de segurança do Estado. Seu nome? Ágatha Félix. Seu crime? Ser negra, descendente de escravizados e morar numa região empobrecida da cidade. A respeito de mais este assassinato frio e covarde Bolsonaro calou.

 

Essa passagem de um presidente pela ONU é inédita na história da diplomacia brasileira. Nunca antes na história desse país uma coletânea de fake news foi despejada de forma tão deletéria para a comunidade internacional. Momento de luto para nós, uma terça-feira de cinzas que deve demarcar a extrema necessidade de arrependimento e de nossa conversão, mudança de rumo de nossa história em direção a um tempo de fraternidade entre nós brasileiros e brasileiras, em busca de nossa democracia perdida. Sem ódio e sem medo.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .