TENTANDO ENTENDER O BRASIL

​Por dever profissional e interesse acadêmico, aqueles que nos acompanham semanalmente neste espaço já perceberam que temos nos dedicado a estudar e a refletir sobre a complexa realidade que estamos vivendo. É um exercício de largo interesse histórico pelo registro dos fatos, que nos ajudem a entender o que vem ocorrendo em nosso País.

Forçoso é admitir que a tarefa não é das mais fáceis, pois o primeiro desafio que se nos interpõe, cotidianamente, é separar o joio do trigo, em razão da quantidade de mentiras disseminadas e aceitas como verdades.

Embora saibamos que a mentira acompanha a humanidade desde a sua origem, na atualidade, nos surpreende essa tentativa de se fazer criar uma realidade virtual pela produção de um perigoso vírus chamado fakes news. É tão grave essa predileção pelo falseamento da verdade, que essa semana um servidor do TCU resolveu publicar, pelos computadores do Tribunal, que o total de mortos, em consequência da pandemia, era apenas de 240 mil, e não 480 mil, que é o número oficial. O trágico foi ver o Presidente confirmar essa informação.

​Tal ocorre no momento em que o mundo civilizado já faz viagem de turismo ao espaço, planeja habitar o Planeta Vermelho, estuda a possibilidade da criação de outras religiões, não mais saídas das cavernas do Afeganistão, nem pelas madraças do Oriente Médio, mas muito provavelmente pelos super- computadores nos laboratórios tecnológicos do Vale do Silício.

A ideia central dos estudos e pesquisas dos gigantes da tecnologia é o desenvolvimento de algoritmos que resultarão na criação das chamadas tecnorreligiões. Ante todo esse avanço é atávico, para dizer o mínimo, que uma parcela expressiva da sociedade brasileira tenha feito a opção pelo negacionismo, defendendo o argumento de que a terra é tão plana que é possível saltar de uma das suas bordas, como ironizou a doutora Luana Araújo, em seu depoimento na CPI.

Atentemos para o fato de que, como o nome sugere, as tecnorreligiões não guardam qualquer relação com Deus, e sim com as novas tecnologias, acenando inclusive com a promessa de vida eterna, sem precisar morrer, e sim pelo desenvolvimento da tecnologia. O paradoxo é que, enquanto toda essa revolução acontece nas sociedades evoluídas, por aqui, o apagão mental é de tal ordem de grandeza em sua extensa escuridão, que muitos ainda preferem acreditar que é possível tratar e curar os milhões de infectados pelo coronavírus, tomando cloroquina, ou por meio de tratamento à base de ozônio com aplicação intra-retal; mas, não só isso, são ainda contra vacinas e o uso de máscara. A propósito, na última quinta feira, o Presidente encomendou um parecer ao Ministro da saúde, recomendando que as pessoas já vacinadas ou que já se infectaram pelo coronavírus “não precisarão mais usar máscara”. O mais surpreendente é que muitos dos que defendem essas sandices se dizem cientistas da saúde… e até sugerem mudar a bula de um determinado medicamento.

​Nesse contexto oferecemos ao leitor o que afirma o escritor Israelita Yuval Harari, “[…] as novas tecnorreligiões podem ser divididas em dois tipos principais: tecno-humanismo, e religiões de dados. Para o tecno-humanismo, o Homo sapiens, tal como conhecemos já esgotou seu curso histórico, e não será mais relevante no futuro; portanto, deveríamos usar a tecnologia para criar o Homo deus, um modelo muito superior”. Imperioso se faz lembrar que, na primeira revolução cognitiva ocorrida há setenta mil anos, os avanços mentais do Homo sapiens fizeram de nós governantes do Planeta, “[…] uma segunda revolução cognitiva poderia dar ao Homo deus, acesso a reinos inimagináveis e nos transformar em senhores da galáxia”.

​Na perspectiva de todos esses avanços científico-tecnológicos que estão se realizando em escala planetária, quando examinamos o que sucede em nosso País, o que se verifica, além da negação da ciência, escassez do saber, associado a um agudo atraso mental, que acometem parte daqueles que deveriam liderar a Nação, é uma deliberada ação de desestruturação do Estado, dividindo e embrutecendo a sociedade.

Embora a maioria da sociedade rejeite essa ação antirrepublicana que se observa no dia a dia, ainda assim, uma parcela significativa da população apoia e defende o atual modelo. Isto nos remete, mutatis mutandis e sem nenhum exagero, a comparar o momento vivido com o que ocorria há cinquenta mil anos, quando dividíamos esse planeta com nossos parentes neandertais.
​Felizmente, em meio a esse deserto de lideres comprometidos com o desenvolvimento de um modelo civilizatório, nem tudo é obscurantismo! Anima-nos – e abre sólidas perspectivas de mudança dessa realidade – o fato de constatarmos a excelência técnica da comunidade científica brasileira, na área da saúde, com destaque para as mulheres.
Cientistas como as doutoras Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz, a infectologista Luana Araújo, vetada pelo governo para integrar a equipe técnica do Ministério da Saúde, e a bióloga Natália Pasternak, assim como outras tantas valorosas mulheres, nos dão a certeza de que, pela ciência, e a responsabilidade política e social, seremos capazes de superar esse atraso. E, em nome dessas pesquisadoras, manifestamos todo o respeito e o nosso reconhecimento aos profissionais da saúde, especialmente às mulheres em geral, pelo papel preponderante que desempenham como cientistas e cidadãs em uma sociedade ainda machista, preconceituosa e excludente.

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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