Talles Azigon: se eu não sonhasse não teria a força que tenho para fazer as coisas que faço

Falar de Talles Azigon é falar de literatura, saraus, festas , é falar de Maraponga, criatividade, resistência, livros, leitura e Curió, é falar de eventos que transformam a cena cultural nas periferias. Na entrevista a seguir, o Poeta, Editor, Gestor Cultural e Mediador de Leituras, autor de Três golpes d’água, MARoriGINAL e o Projeto Saral, conta como e onde tudo isso começou.

 

“Quando se consegue conquistar o direito de pensar o mundo e de agir sobre ele, percebe-se que a maneira que o organizamos é através da linguagem.”

 

Foi no bairro Maraponga onde tudo começou. Minha avó tinha um bar, meu avô, mesmo sem o ter conhecido e convivido com ele, gostava de cantoria e repente. Vivia rodeado de plantas, de música e de pessoas extremamente interessantes. A Maraponga é um universo mítico rodeado de plantas, lagoa, palavras e muita festa. Um ambiente muito propício para se formar um poeta.

 

HQ: Por que é importante ler e apoiar a literatura periférica?

TA: O centro é só um ponto. Todo restante é periferia.

 

HQ: Conta um pouco sobre as bibliotecas comunitárias.

TA: As bibliotecas comunitárias de iniciativa popular, acredito, são  consequências naturais, quando se consegue conquistar o direito de pensar o mundo e de agir sobre ele, percebe-se que a maneira que o organizamos é através da linguagem, para tanto, é necessário subsídios para o desenvolvimento dessa linguagem. Os livros e as diversas formas de leitura são esses subsídios necessários para a construção do sentido do mundo, contudo, nós somos roubados, quando privados deste acesso. Quando alguns de nós percebemos isso, acaba se sentido na obrigação de fazer algo, a biblioteca é um desses algo.

As bibliotecas são pontos de concentração de linguagem. Não é apenas sobre livros. Livros é uma das formas em que registramos e organizamos a linguagem. As bibliotecas são locais em que essa linguagem respira, se reinventa, e se apresenta em diversas formas. Quando entendemos isso, e quando percebemos que não custa tanto assim, custa menos que um carro, menos quem uma delegacia, fazer uma biblioteca, e mesmo assim há poucas delas, passamos a ter convicção que se elas não existem é porque alguém não quer que elas existam.

Daí nascem as bibliotecas comunitárias de iniciativa popular, é uma resposta a todas as violências cometidas contra nós. Uma biblioteca comunitária é uma resposta.

HQ: Quando a arte é livre trata-se da verdadeira liberdade ou somente de uma liberdade sem consequências para o poder, ou seja, uma pseudoliberdade?

TA: Arte é por si uma forma de liberdade, a liberdade de usar habilidades motoras, intelectuais, emocionais, para causar efeitos no mundo e no outro. Agora, a liberdade é neutra, se a usamos para sua ampliação ou sua aniquilação, depende muito da sociedade e do tanto de poder que permitimos que seja exercido sobre nós.

 

HQ: Na infância, qual era o maior sonho do Talles menino? E hoje?

TA: Eu nunca sai da infância e ainda gosto de inventar sonhos novos todos os dias, alguns eu já realizei, outros, ainda estão por vir. Se eu não sonhasse não teria a força que tenho para fazer as coisas que faço. O sonho não acaba nunca.

Entre todos eles, o que permanece sempre atual é meu sonho de liberdade.

HQ: Em que outra época gostaria de ter vivido?

TA: Depende do lugar onde eu existiria. Se fosse, aqui, queria ter vivido no tempo em que nem suspeitávamos que existisse Europa ou homem branco.

 

HQ: A palavra que você mais e a que menos gosto? Por quê?

TA: Essa é uma pergunta complicada, porque depende em que estância estamos falando, se for apenas de significante a resposta será uma, se for de significado será outra. Se for a palavra pela palavra, gosto de libélula. Não gosto de frade, nem fronha, nem mesmo de fraque.

HQ: Politicamente:

TA: Eu sou anarquista.

 

HQ: Quem você ressuscitaria?

TA: Ninguém, não seria capaz de fazer esse tipo de maldade.

 

HQ: O livro que já leu várias vezes?

TA: Estrela da vida inteira, de Manuel Bandeira.

 

HQ: Eu me acalmo com …]

TA: Feriado.

 

HQ: Eu me irrito com …

TA: Política Partidária.

 

HQ: A emoção que me domina …

TA: Felicidade.

HQ: Um dia ainda vou …

TA: Morrer, é certo.

HQ: Existem heróis? Qual o seu?

TA: Não gosto de heroísmos. O heroísmo é um subproduto da desigualdade e da injustiça social.

HQ: Religião para mim é:

TA: Ultrapassada.

HQ: Dinheiro …

Só o suficiente.

HQ: A vida é …
TA: Agora.

HQ: Se você tivesse o poder absoluto para mudar qualquer coisa o que mudaria?

TA: Poder, o aniquilaria.

HQ: Quem você gostaria de ser?

TA: Músico ou pintor.

HQ: Não perco uma oportunidade de …

TA: Não fazer nada.

HQ: A solidão e o silêncio …

TA: Bem-vindos.

HQ: O Brasil é…

TA: Vítima.

HQ: O ser humano vai …
TA: Acabar.

HQ: Eu sou …

TA: Poeta.

HQ: Minha mensagem é …

TA: Meus poemas.

 

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, escritora, pesquisadora, coordenadora de Cultura em SegundaOpinião.jor Um cronópio num mundo repleto de Famas. Metade de minha alma tem quinze, a outra, duzentos anos.

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