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Imobília

Eis, morto aos teus pés, o tempo imóvel,
Inocente, pego de surpresa, feito uma criança prodígio
Que morresse de tifo sem realizar esperança alguma
Nem frustrar de uma outra forma as cruéis expectativas
Ou de fraqueza, muito antes da possibilidade das palavras,
Ainda mais absolvida

Arcano Onze

Sob a sombra da tua ausência
Penso em nunca mais dormir
Até que o sono vem. Penso em
Já não comer e a fome assalta. A sede
Me surpreende com suas urgências
Uma correnteza inesperada me derruba.
Acreditei que esqueceria os dias
E me chamaram as obrigações

Romance IX

A corrosão inerente começa quando adiamos as coisas, quando começamos a negociar com o tempo de uma forma que o tempo não permite: o tempo feito o mar não tem cabelos, mas também, igual ao mar, não tem uma cara

Romance X

A literatura é o sorriso de uma sociedade — banguela: somos todos meio filhos do escorbuto (ai, a súbita vontade inexplicável de fazer essa declaração no mais dantesco toscano). Uma bela pobreza em preto e branco, sob uma crua luz

Romance IX

O EDITOR NO CASTELO
A heráldica da editora dizia: “As árvores se acabam”. Em certo momento, a placa com a frase anunciava a entrada de um prédio vazio: o editor, tirano, tinha se mudado e instalado sua editora numa caravela. Submetia

Romance VIII

Eu preciso de uma pá e de um terreno ermo; não tenho dinheiro: mesmo a mais simples coisa — Deus, uma pá — escapa das minhas possibilidades financeiras: é a vida típica do escritor brasileiro, não tem dinheiro pra enterrar

Romance VII

E por que não o desejo também, da morte, da loucura, da solidão? Quem foi que disse que o desejo e o medo se anulam? Esse não seria um dos nomes proibidos do amor?Como se existissem nomes proibidos. Tudo cabe

Romance VI

Ser escritor é apenas ser como todo mundo e temer a morte, a loucura, a solidão, ter essa vontade de voltar para uma casa que não é nossa, que não sabemos onde é, que não existe. A diferença é que

Romance V

Quando eu fazia coisas que não devia minha mãe perguntava, com raiva: quem mandou? Eu era criança, naturalmente, não discutia a filosofia alemã e o romance russo, que eu desconhecia. Hoje quero uma sentença exata que evoque mortos inventados e

Romance IV

Seria mais fácil se fosse a primeira vez. Mas quando foi a primeira vez? Antes do primeiro livro derrubei toda uma floresta de palavras inúteis, muitas delas arrogantes ao meu gosto. Hoje as palavras me parecem quase humildes e burocráticas,

Romance III

A mim me angustia que cada livro seja o último, que cada capítulo seja o último, que cada página seja a última, que cada parágrafo seja o último, que cada frase e cada palavra e cada letra possa ser a