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Medusa

Durante o carnaval
A pedra nua se me revelou espelho
E vi refletido o rosto de uma estátua humilhada
O meu rosto como o rosto de ninguém
Mero estudo sobre específica dor humana
Algo patético e clínico
O solitário e abandonado da vida
O reclamante
Uma postura curvada

O furioso momo

Aproveita o samba
E pisa
A dor do amor
Como no próprio coração
Vivo e pulsante
Que acabaste de tirar do peito
E depuseste ao chão
Como um rei cansado
Declara-te a anarquia de ti mesmo
Diz que o teu cérebro tem valor igual
Aos orifícios do corpo
E oferece os

Poema de despedida para o amor

Grandes asas exigem grandes espaços
Mais que isso
Céu
Não me queixo
Embora doa
Também eu careço da imensidão aberta
Quero ver a beleza das asas negras
Bronzeadas
Infinita envergadura feminina
As asas maternas
A graúna que amei e que amarei
Eu, aquele rinoceronte de que te falei
Num outro poema de

Coita

Amor amor amor
Preta linda exuberante
Passa o tempo e
Passam os trens e
Passa a vida e
Apesar de todos os passares
Não, eu não te esqueço e
Te encontro a cada grão e
A cada folha e
A cada pedra e
A cada lua e
A cada sol pois

Urgente tratado de estética

Era uma vez um cara.
O cara não tinha casa nem emprego; vivia de bicos e de esmolas; eventualmente de doações.
O cara fez um cubo de papelão quase perfeito; o cubo tinha uma porta; pela porta o cara saía e o

Clarice

Como quem conseguisse morrer antes de nascer
Morreu ela um dia antes do próprio aniversário
Como quiseram os astros ou o acaso
Ainda mais cruel porque não tem a consciência
Nem de que é cruel nem de que é nada que tenha nome
E esse

BEBA DO SONETO

Cruel vontade de beber como de sumir
Cruel sumiço da bebida consumida
Já anuncias pois a hora da partida
A hora inexata de o bêbado partir
Gente cruel e tanto de nos ouvir
Já não ocultas estratégias de ouvida
Gente que esqueceu a própria vida
Espera ansiosa

FEIJOADA CARTESIANA

Para Vicente Monteiro
Existo e não Cogito
A vida é difícil e —
Mais, muito mais que pensamento,
Seja rápido, compadre,
A cerveja está esquentando e eu te espero aqui,
Quanto tempo!
Meu Deus, acabou o gás,
Mas foi só o da cozinha: pede o churrasquinho!
E agora e

O FALATÓRIO COMUM DOS GERAIS

Quem foi que disse — e eu fico logo é atenazado com a prascóvia pergunta —
Que Diadorim não era feito nunca homem,
Ainda que em corpo de mulher em
Filigranas sutis de buriti bem construída?
Quem o cujo, apois? Então: o peito que

Memento mori

Juro amor meu não morrer nunca e
Amanhã não mais mentir
Em ambas as promessas o meu profundo amor
Por uma pessoa (tu) como se fosse infinita e
O meu próprio coração maior que o Nilo
Meu peito não contém águas abundantes nem seus crocodilos
Minha

ARSENAIS DO ESPÍRITO

Saiba odiar
— Também é necessário —
O próprio amor é demais agressivo
Saiba odiar
Mas saiba a quem e quanto
E descansar o ódio feito massa crua
Saiba odiar
Como quem tensiona e distensiona um músculo
Como quem trabalha porque precisa
Nem sempre é agradável o trabalho
E pode