SUA ESTUPIDEZ NÃO LHE DEIXA VER

Composição de Erasmo e Roberto Carlos, “Sua Estupidez” foi consagrada pela diva Gal Costa no disco “A Todo Vapor”, em 1971. Meu bem, use a inteligência uma vez só/ Nunca vi alguém tão incapaz de compreender / Sua estupidez não lhe deixa ver”, são versos provocantes, muito apropriados para os tempos presentes.

Ontem, 25, na Folha de São Paulo, o escritor Ruy Castro publicou um texto intitulado “Nosso destino é a estupidez”, comentando a cassação patética promovida pelos generais militares golpistas em 1964, com a posterior expulsão do excelentíssimo paraibano Celso Furtado, um dos maiores pensadores-fundadores do Brasil progressista. Ele constava na primeira lista, de muitas, com os nomes dos brasileiros com direitos políticos e civis cassados.

Para os generais golpistas, Furtado representava um perigo porque era um ser com um pensamento extremamente refinado, de visão futura. Entre os motivos de sua cassação estavam os fatos de ele ter colaborado ativamente com a produção teórica da Comissão Econômica para América Latina (CEPAL); haver criado e presidido a Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE); ter sido o primeiro ministro do Planejamento do Brasil, aos 43 anos de idade. Meu pai teve a honra de haver composto o primeiro grupo de economistas que trabalhavam com ele diretamente.

Como os militares o enxotaram, Furtado foi contratado pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade de Sorbonne, na França, em ato assinado pelo presidente Charles De Gaulle, na cátedra de Economia do Desenvolvimento. Apenas no ano de 1968, recebeu 15 (quinze) convites para ser paraninfo de turmas. Enquanto aqui no Brasil a ditadura militar editava o Ato Institucional Número 5 (AI5), tornando ainda mais tenebrosa a repressão política e cultural iniciada quatro anos antes.

Ruy Castro anota que em 20 anos de Sorbonne, Celso Furtado lecionou para futuros presidentes de República e ministros de Estado, além de haver desenvolvido um relacionamento de intensa amizade com algumas das mentes mais brilhantes do século XX, como Bertrand Russell, Jean-Paul Sartre, Theodor Adorno, James Baldwin, Herbert Marcuse, Octavio Paz, Jürgen HabermasEnquanto o Brasil o enxotava, o restante do mundo agradecia pela partilha de magnânimo presente.

De Hegel aprende-se que fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Marx lhe acrescenta: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Afinal, os homens fazem a sua história não segundo a sua livre vontade, mas sob as circunstâncias com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. O passado oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.

O medo diante de uma novidade faz com que os donos do poder ressuscitem espíritos passados, para poder garantir a dominação, ameaçada pela busca de emancipação e busca de justiça que as populações colocam em marcha no presente. Afinal, como uma mudança nas estruturas sociais não pode inspirar-se na poesia do passado, mas numa poética do futuro, o reacionarismo age justamente para impedir a produção de novos versos, apegando-se às sentenças pretéritas, demonizando o futuro, revitalizando os mortos. Para salvar sua exploração econômica, os capitalistas não têm o menor pudor de conspirar golpes, colocar no poder inclusive figuras detratáveis desde que estejam comprometidas até a alma com a defesa da tirania capitalista.

É o que estamos amargurando no Brasil, desde 2016. Na última sexta-feira, 23, o Brasil pode ter acesso ao show de horrores protagonizado pelo presidente da República, no programa do apresentador Sikêra Jr., da TV “A Crítica”, de Manaus-AM. De forma esculachada, o chefe do Executivo federal expôs com desenvoltura o seu caráter preconceituoso ao destratar ao vivo um profissional contra-regra do programa, além de pousar com boa parte de seus ministros, inclusive o pastor presbiteriano da pasta da Educação, para uma foto  com uma grande placa escrita: CPF Cancelado. Tudo isso num contexto no qual o Brasil conta 390 mil mortos por Covid-19.

Impossível pensar que Celso Furtado, cassado pelos militares, protagonizasse uma cena ridícula como aquela. A imagem e a essência do Homem Furtado ligam-se ao que de melhor há no Brasil e na Humanidade. Mas as circunstâncias concretas, arquitetadas pelos construtores do Golpe de 2016, levaram a nossa história a reviver o pauperismo dos tempos ditatoriais dos anos 1960, desta vez na versão farsesca, pela eleição de um bufão de auditório de deplorável quilate. Quanta estupidez!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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