SPQR

Nós,
Essa comunidade coagida de outros
Irmanados pela mesma covardia,
Gente que se tolera por tão pouco
E guarda no peito,
Quando não sonhos de maldade descarada,
Um desejo muito imenso de nunca mais,
Uma vontade enjaulada de incivilidade.
Próximos,
Porque há cada vez menos espaço nas cidades imensas,
Tanto quanto distantes,
Porque na medida alugada do possível a gente se cobre com lençóis e se torna invisível,
E distantes,
Porque somos vizinhos inacessíveis que guardam muito bem os seus segredos,
Tanto quanto próximos,
Porque não somos nada originais e todos os nossos segredos são o mesmo segredo.
Os desejos são os mesmos e medíocres;
Os medos são os mesmos e irracionais;
Temos medo de ser sós mas mais de ser ridículos,
Por isso o medo essencial de ficar só, essa fome estúpida, a gente não confessa;
E permanecemos encadeados na mesma corrente social,
E choramos pelas mesmas dores sob o escuro,
Cada um no seu próprio e limitado elo,
E só.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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