“Sorria, irmão, pois pagamos teu sorriso” – por Emanuel Freitas

Na semana que passou ficamos a saber que o deputado federal por São Paulo, Marco Feliciano (PODEMOS), apresentou a conta de um tratamento dentário com o intuito de ser ressarcido pela Câmara dos Deputados no valor de R$ 157 mil. Isso mesmo. O valor chega a ser maior do que muitos imóveis do Programa “Minha casa, minha vida”.

O deputado, que também é pastor evangélico, reconheceu que o tratamento “foi caro”, mas afirmou existirem coisas mais caras ao erário. Então, tá! Sobe-me o temor do que, sob a mesma justificativa, possam vir a fazer os outros parlamentares.

Feliciano fez-nos saber que o tratamento a que se submeteu foi necessário para “poder trabalhar”. Do que sofria o nobre pastor-deputado? De bruxismo, algo que se expressa sobretudo durante o sono.

Estranho que, como evangélico, não tenha suplicado a cura ao deus altíssimo. Seria uma boa oportunidade de arrastar multidões com seu testemunho de cura.

A justificativa para seu tratamento deveu-se ao fato de ser ele “político e pregador”, e ter, assim, sua boca “como ferramenta”.

Sim, ele é um político. Há outros 512 na Câmara que, tomara, não sofram do mesmo mal. Ocorre que o fato de ser “pregador”, e é sobretudo nisso que “trabalha”, em nada responsabiliza o erário. Ficamos assim: os cofres públicos custeiam um “sorriso” a ser utilizado diante de “irmãos”, no momento em que o pregador Feliciano entrar em cena.

Segundo o pastor, “não há crime” no que faz. De fato, há a assistência médica da Câmara. A vida de homens públicos, porém, não é julgada somente a partir do não cometimento de crimes; há atos exigidos no plano da moral. O “parecer ser” honesto de Maquiavel.

A notícia veio a ser divulgada no último dia 05. Três dias depois, o pastor-deputado assinou um texto, intitulado “A reforma da previdência e a vitória de uma nação”, em que apresentava o Brasil como um país que “atravessa uma crise sem precedentes” por conta de uma “assistencialismo irresponsável”, com uma corrupção que arruinou as “finanças públicas”. Por certo, há muita responsabilidade na fatura de seu tratamento dentário, algo que não afeta as “finanças públicas”.

O pastor-deputado finaliza seu texto com um pedido: que seu deus ilumine as “autoridades de todos os poderes para decidirem pelo bem comum”. Amém! Por certo, foi isso o que fez pelos seus dentes: decidiu por um caro tratamento! Seus dentes, nosso bem comum!

Lembro de um tempo em que dentes de ouro ou de prata expressavam o poderio de alguns homens. Eram os brides. Bastava que abrissem suas bocas para darem mostras de seu poder. Feliciano não precisará disso. Basta que durma tranquilamente seu sono, sem precisar ranger os dentes. Seu sono tranquilo foi pago pelo erário. Depois de cada noite de sono, restar-lhe-á nos sorrir. Pagamos, e muito caro, por seu sorriso.

Sorria, Feliciano! Seu sorriso é nosso bem comum!

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.