Sobre um pretenso direito de corromper parlamentares por amor aos homens

Eu não estou de acordo com essa história, mas a opinião de vovô, politicamente incorreta, me faz refletir. E confesso logo que não se trata de um ensaio sobre a filosofia de Kant.

Lembra aquele episódio, “o escândalo do “mensalão”? Então, na época eu visitava meu avô, no interior cearense, prestes a completar 99 anos. Estava lúcido e prestativo, no entanto, naquela altura da vida, somente percebia o mundo com a luz da razão, pois a visão ali já era quase totalmente opaca. O certo é que ele tinha outros modos de ver e muita, muita percepção.

Papai Chico, como era chamado pelos meus primos e primas, (não por mim e nem pelos meus irmãos, para nós, ele era e sempre será: vovô Chico) ficava o dia todo numa redinha embaixo do pé de Juá ou na varanda de casa espiando os pés de manga que ele outrora plantara. Cada filho, neto ou bisneto que chegasse ali, vovô tinha um milhão de incríveis histórias pra contar.

E pra matar a saudade da infância e recordarmos, vovô e eu, o que já havíamos esquecido, ele contou e recontou os causos de meninice, juventude até o seu casamento. Cantou repentes, recitou cordel e tudo, tudo eu gravava no meu celular. Durante os dois dias de visita, quis saber dos assuntos que me interessavam mais, e não sei por que, assim, do nada, quis saber se ele lembrava a primeira e a última vez que havia votado. E aquilo nem era assunto favorito. E vovô lembrava de tudo.

Pra me amostrar, quis discutir sobre um assunto que eu ainda não estava preparada e, sequer tinha uma opinião ou conclusão a respeito. Para quem tinha e via TV, à noite, nos jornais nacionais, o que tínhamos era âncora falando de “mensalão”. E pensei: aqui no sítio, sem televisão, será que vovozinho sabe o que tá rolando na cena política hoje? E aquilo interessava a um camponês aposentado?

— Vovô, o que o senhor escuta nesse radiozinho de pilha?

Perguntei, apontando para o rádio de antigamente, na mesinha de canto, “arrodeada” de santo e com os mesmos enfeites que vovó Lina deixara.

— Minha filha… eu escuto umas cantorias… umas emboladas… e escuto mais é política mesmo… e agora… agora tão mexendo com Lula, tão querendo mexer com Lula…

— O Lula foi acusado de pagar os parlamentares da oposição para votar em algumas leis…

— Lula negou.

— É claro…

— O presidente, o representante supremo da legalidade, nunca pode admitir ter violado a lei, minha filha…

— Mesmo que todos soubessem, vovô?

— Repare bem, o presidente pagou para que boas leis fossem votadas, como o Bolsa Família, por exemplo. Você sabe o que é “o bolsa família” pra um bocado de gente dessa redondeza?

— Mas, vovô…

— Calma… agora pense nas redondezas do Ceará, do Nordeste todinho… pense no País…

— Eu pensei que Lula…

— Lula, minha filha, Lula poderia se defender dizendo o seguinte: “É verdade que eu corrompi estes parlamentares absurdos, pra aprovarem leis que melhoram a vida de milhões de brasileiros. Mas eles são tão corruptíveis e corruptos que não votam uma lei porque é boa, votam porque são pagos pra isso… não votam porque pensam no bem do outro, votam pensando em encher os próprios bolsos.

Sim, sim, acreditem, estas palavras foram ditas por um camponês aposentado não acadêmico. Era sabido, profeta do sertão. Não leu Kant, nem Platão, não leu sobre verdade e mentira, nem sobre ética e virtude.

— Então, vovô, Lula se defenderia dizendo que decidiu violar a lei, corromper um pouco mais os já corrompidos, para o bem do País inteiro?

— Um pequeno preço por uma finalidade tão importante… O que vale mais? 50 senadores corrompidos ou 50 milhões de pobres que finalmente podem comer?

Com as palavras de meu vô, Lula continuaria: “A corrupção não era para o meu poder pessoal, e muito menos para me enriquecer ou para enriquecer o meu partido. A corrupção era um pequeno mal necessário para o bem de uma nação. Eu mereço a gratidão e o perdão de todos.”

Mas Lula não podia fazer este discurso. Devia fingir improvável inocência. E até mesmo hoje seria difícil dizer isto: para os partidários de Lula, não se deve admitir que ele corrompeu ninguém, e os seus adversários (a extrema direita) dirão que ele era um corrupto e não pode ser presidente.

Foi isso o que vovô Chico pensou há vários anos, no momento do escândalo. Além de mim, sei que ele nunca contou pra mais ninguém.

Lula seria mais bem compreendido ou ainda mais digno dizendo que o fim justifica os meios.

“Corromper com finalidade para o bem – é possível?”

Hoje, penso que todo aquele assunto com vovô Chico, seria ideal para iniciar um debate num seminário de ética. É possível fazer um pequeno mal para obter um bem maior?

E quem decide qual é o bem e qual é o mal?

Voltando a Kant, o qual, vovô não conheceu, parece que a opinião dele é bem clara sobre isso.

Mas o que diria Dostoievski?

Hoje, assistimos nos jornais a notícia de uma mãe que rouba pão para alimentar o seu filho que está com fome. Houve épocas em que a condenaram à morte.

Enfim, eu não sei o que diriam outros avôs a seus netos, sobre um “pretenso direito de corromper parlamentares por amor aos homens” (ao país, ao povo), o que sei é que meu avô defendeu o presidente melhor do que os hipócritas.

 

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, escritora, pesquisadora, coordenadora de Cultura em SegundaOpinião.jor Um cronópio num mundo repleto de Famas. Metade de minha alma tem quinze, a outra, duzentos anos.

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