Sobre o difícil ato de crescer, por Luana Monteiro

A meninice é um fase estranha. Momento em que se entra em contato com o mundo sem saber ao certo interpretar seus códigos. Está ali representado já um protótipo de mulher não para a menina que não sabe interpretar o mundo, mas para o mundo. A informação fica velada como em um acordo tácito.

Como fazem da criança uma promessa, passam a inseri-la em um mundo de acessórios, adereços e máscaras. Alguém, em um lapso de sanidade, poderia se perguntar: “Mas, para quê? Se a única coisa que importa a uma criança é saber quando ela vai voltar a brincar.”

A “pequena mulher”, o protótipo de mulher, começa a entender que suas prioridades são ilusão. Coisas não ditas, não avisadas, começam a ser cobradas, e o corpo, que se desenvolve desinteressada e inocentemente, passa a sofrer as penas da desinformação.

E então as paixões começam a ser imputadas pelo meio àqueles que até pouco tempo não entendiam sua diferença com o outro. Não sabiam o que definia uma menina ou um menino, mas, a duras penas, começam a compreender. Aquele ser que antes só ocupava um espaço, andava nu e descalço, passa a receber gênero e lastro.

E então a juventude. Ah magnífica juventude! Essa, duas vezes mais cruel e arbitrária, além do elevadíssimo grau de dificuldade para perceber sua “chegada”. É quando as cobranças diretas pela roupa justa, os cabelos soltos e a conversa mais focada nos meninos se fazem demasiadamente presentes que a realidade recebe novos contornos. Parece que algo de novo e muito bom está para chegar, o protótipo – a jovem mulher – precisa se preparar. Mas para quê? Não se sabe muito bem. Mas isso o futuro trata de desenhar.

Os romances cochichados começam a tomar lugar. Uma juventude que deveria ser tão ampla de descobertas e aprendizados passa a ser canalizada para um único ponto: o desenvolvimento do ser feminino como um ser eminentemente sexual.

É então que a adultice faz morada, e a tão esperada perfeição não é realizada. Mas a aceitação dos padrões, sim. O próprio corpo já não é nenhum desconhecido, mas também não é um amigo querido. É algo estranhado que parece tão fora que chega a não pertencer.

A sexualidade, a descoberta e conhecimento do corpo nunca foram por ninguém ensinados. E aqui me refiro não somente às mulheres, como também à história masculina. A exploração do corpo como um objeto de desejo do outro é um projeto social alimentado por todos aqueles que, nas suas ações, reforçam os papeis sociais normativos pautados no domínio e na submissão.

Muitos fazem da sexualidade o motor da própria existência. Mas não a sexualidade que leva ao autoconhecimento e conscientização sobre o corpo. E sim uma sexualidade que explora o outro, que rebaixa e humilha.

Os padrões de beleza, de sucesso e erotismo são lançados aos braços dos indivíduos, mas sua carga é insuportável, e, ao invés de segurar com firmeza,  estes caem no chão esmagados pelo peso social de cobranças.

Em uma sociabilização na qual o sexo é o centro das atenções e o mote da relação é o desrespeito e o desconhecimento do outro, o que se esperar em termos de futuro para o desenvolvimento de mulheres e homens? Para isso nós já temos uma ideia, a repetição de padrões já conhecidos que, se não problematizados, o futuro só tratará de reforçar.

 

Por Luana Monteiro

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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