Sobre Machado de Assis, Brás Cubas e Bolsonaros

Machado de Assis (1839 – 1908), genial escritor carioca, em sua obra referencial Memórias Póstumas de Brás Cubas, lançada em 1881, afirma que os escritos ali presentes aparecem como fruto do protagonista, que primeiramente morreu para, só depois, livre das amarras, escrever sobre o que presenciara em vida.

O livro vendeu no Brasil, na segunda metade do século XIX, cerca de dois mil exemplares. E essa vendagem representou o dobro do que se costumava considerar best-seller na época, em nosso país, que tinha então 80% de sua população analfabeta. O fenômeno da obra remete a outros aspectos, inclusive. É o que se pode afirmar, por exemplo, em relação à crítica literária no Brasil acostumada aos meandros românticos de José de Alencar -, que não conseguia classificar o enredo daquele livro, narrado por um defunto-autor, o qual dedicava – como “saudosa lembrança” – os próprios escritos ao verme que primeiro roeu as frias carnes do seu cadáver…

Porém, o que importa neste texto não é a quantidade de vendas da obra, e nem esse recado macabro. Mas sim, os seus significados históricos, os quais remetem ao presente com um campo intelectual bem delimitado, além de ter um discurso válido que resistiu ao tempo, provocando efeitos na sociedade, e vigente que produz efeitos coletivos,suscitando questionamentos, polêmicas e interpretações diversas. Principalmente em relação ao mundo político, referendado por Bolsonaro e seus familiares (daí a presença no título de “Bolsonaros”).

Contextualmente, vivemos um período político bastante perturbado. O campo cultural/educacional é, por assim dizer, negligenciado ao máximo. Os atores dessa área – músicos, professores, educadores, pessoas do teatro, cinema, gente da dança e de outras linguagenssão, muitas das vezes, calados enquanto seres atuantes epolíticos. Calar, muitas vezes, remete a estar fora da área de atuação, esquecido, renegado; como aquela máxima sustenta: “calado está, morto permanece”. E parece que o nosso (des)presidente atua ao contrário; ele fala, e fala muito, funcionando mais como uma espécie de Brás Cubas: como se tivesse vindo das catacumbas de um baixo clero para, qual morto-vivo, comandar e capitanear – vejam aí a coerência do tema – o nosso país.

Por vezes, em entrevistas, Bolsonaro inclusive lembra uma caneta que possui. A caneta representa o artefato símbolo eexemplar de uma produção escrita, a qual pode servir às pessoas em suas construções humanas diárias. Por paradoxal que seja, sem pensar nas consequências, o presidente que veio de uma eleição, no mínimo, estranha, sem o seu principal candidato – assume uma postura ditatorial e sustenta ter a “caneta para mandar fazer e desfazer”. Tal postura lembra igualmente o curioso caso de Brás Cubas, ele também um político, bem como arrivista e aproveitador das benesses do poder, além de hipócrita, vaidoso e fruto da caneta do escritor Machado, que deu vida a um personagem bastante curioso e com moral duvidosa.

Ainda o tema literário: a obra machadiana foi escrita em primeira pessoa. Isso significa dizer que, todos os meandros do roteiro e todas as conclusões a que o leitor chega passam pela visão do protagonista, Brás Cubas. Esse aspecto mantém conexões com Bolsonaro, nem tanto por sua voz, mas principalmente pela postura do intitulado “gabinete do ódio, que funciona como extensão do discurso do presidente. Sempre preocupado com as pessoas… dele mesmo.

O que poderia ser visto como um aspecto ligado aos heterônimos de Fernando Pessoa logo se desfaz: os personagens do escritor português – com os desdobramentos e transformações do “eu” poético – possuem características diversas; assim, têm biografias, produção e visão própria. A partir daí, poetizam o que vivem cada um à sua maneira. Tal não ocorre no Brasil: o gabinete tem sempre um péssimo humor. Como se o mundo fosse uma extensão da raiva, da falta de solidariedade e da egolatria.

Para eles, todos são comunistas (que bom seria se fossemmesmo, daí a existência do comum, aquele que pensa em justiça social), corruptos e não merecedores de uma vida plena. E, curiosamente, eles não se consideram os donos da verdade. Não! Eles são a verdade!! Essa interpretação é possível tendo em vista que o presidente já afirmou “ser a constituição”! Mais uma vez, valho-me neste ponto de uma história comparativa ocorrida com um artista fundamental no século XX e entronizado na indústria cultural, Salvador Dali. Em certa ocasião, oartista catalão foi perguntado por componentes da bandaamericana The Doors – intitulada pelo vocalista Jim Morrison a partir do livro “As Portas da Percepção”, de Aldous Huxley – se usava drogas. Ele afirmou que não. E foi além, ao sustentar que era a droga! Por falar em drogas e esta trupe de plantão, estou lembrando os 39 quilos encontrados no avião presidencial na Espanha, e que só um militar foi punido…

Há ainda o aspecto de que Bolsonaro valoriza demais as coisas que vêm de fora, principalmente dos Estados Unidos, país que surge como superpotência mundial a partir do fim da 2ª grande guerra. O presidente e sua comitiva familiar vestem a camisa (o boné, literalmente!) de Donald Trump, quase numa ode ao american way of life. Pois é: há um literato contemporâneo de Machado que criticava bastante o aspecto de brasileiros valorizando apenas o que vinha de fora. Esse escritor se chama Lima Barreto (1881 – 1922), que disputava com Machado espaços culturais e da imprensa. Nesse contexto, existe uma crônica de sua autoria que critica o costume de pessoas no Rio de Janeiro que, em vez de desejar “bom dia”, jogavam um “Vive la France” a superpotência do século XIX – como forma de cumprimento… É isso mesmo: nós e nosso complexo de vira-lata acentuado por esta turma tresloucada, e que tem ramificações de outros tempos…

Voltando à narrativa de Brás Cubas: o texto machadianoexpõe toda a vida desse personagem – do nascimento à morte (aliás, o livro começa pelo seu passamento, outro aspecto inusitado para a época). Assim, quando criança, o protagonista, nascido numa família de posses, tinha posturas simpáticas à escravidão. A partir daí, mostrava estranhamento com os escravos. De tal modo Cubas, ainda na infância, mostrava ser contra as minorias.

Aprofundando: Machado produz seu texto inaugurando a escola realista da literatura no Brasil. Sobre esse aspecto, convém destacar que classificações acadêmicas não surgem na primeira hora, “no calor da produção”. Nessa conjuntura, surgem como resultados de estudos que contextualizam o autor até mesmo no entorno de outros autores que produzem na mesma época. Historicamente, compreende-se que esta obra de Machado mantém conexões com Madame Bovary, romance publicado em 1857 por Gustave Flaubert, e primeiro livro no mundo considerado realista.

Por sua vez, focando a temática realista que a obra machadiana apresenta: sabe-se que os literatos relacionados a ela – como Domingos Olímpio e AluísioAzevedo –buscavam analisar a sociedade criticando-a em seus valores existentes, bem como possuíam uma escritura racional, verossímil, com a chamada perfeição formal da língua entendida como resultante do trabalho e não da inspiração, além de pessimista, ou seja – que não vê saídas para o ser humano, fadado que está a agir sempre com interesses escusos. Parece que essa última característica representa o cidadão que ocupa a presidência. Que o digam os índios, os homossexuais, as mulheres, a teimosia contra o isolamento por conta do coronavírus

E, em relação à passagem da morte do protagonista, a obra explora o fato de ele necessitar de fama. Assim, ele inventa o emplasto anti-hipocondríaco Brás Cubas, destinado a aliviar a melancólica humanidade, e que surge como resultado de uma invenção cristã, “verdadeiramente”. Cubas quer o arrazoado da popularidade, do sucesso. Termina que foi vítima de pneumonia, após um vento encanado...

Assim como nós, povo brasileiro, encanado por um governo confuso, a afirmar teses absurdas e tristes. Que o leitor e a leitora perdoem este articulista: é difícil não ser senso comum com as pessoas que estão no governo federal, pois são todas medíocres, na pior acepção que esta palavra tem

Ao contrário de Machado, um verdadeiro mestre da literatura, e que antecipou em várias décadas características literárias que iriam ser trabalhadas como pós-modernas apenas em meados do século XX, como a mistura/fusão entre os tempos – passado, presente e futuro, afora outros aspectos que fundamentam livros escritos nos tempos atuais. Mas isso é tema para outro texto...

Para finalizar: Machado deve ser lido sempre, numa amizade estreita e gostosamente literária! Quanto a Bolsonaro…

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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