SOBRE DIFERENÇAS E LUTA DE CLASSES

Diante dos inúmeros relatos sobre a realidade caótica e a violência sem controle, dentro e fora dos nossos ambientes de convivência, surgem inúmeros debates de pensadores e educadores contemporâneos, reconhecendo e apontando difíceis soluções. Neste sentido, resolvi também apontar algumas ideias, propondo uma reflexãozinha, sem pretensões de certezas, mas com uma imensa vontade de acertar.

Na medida em que envelhecemos, perdemos a capacidade física de reação. Somos aprisionados pela indústria alimentícia/farmacêutica e corremos desesperados para as academias e para os consultórios psíquicos.

A capacidade de se indignar está cada vez menor entre os jovens, preocupados em definirem gênero, raça, etnia etc., esquecendo que isso está contemplado na luta de classes. Afastam-se dos não tribalizados e ignoram a relação direta entre o preconceito, o racismo, as tudofobias e o Capitalismo selvagem, repaginado e disfarçado em ongs fabricadas e financiadas na Europa e nos Estados Unidos, pelas grandes corporações, como a Fundação Ford.

Como a sociedade “civilizada” convive há mais tempo com a diversidade e, mesmo sob o peso da moral e ética burguesas se submetem às leis, as pautas identitárias são absorvidas mais facilmente pela esquerda periférica, porque vive imersa num mundo de golpismos e escravismo religioso e comercial/industrial.

Quando surgiram os estudos culturais que abraçaram o Decolonialismo, houve reação imediata contra esses rebelados. Fanon, Lima Barreto, Paulo Freire, Eduard Said… foram demonizados pela direita. Hoje, a contribuição de Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, Boaventura Santos, dentre tantos, promovem a visão de um mundo democrático e possível, pautado na igualdade humana.

A professora nigeriana Oyěwùmí faz um levantamento extraordinário do pensamento decolonial africano. Precisamos aprender com ela e enxergar a Filosofia Africana que Hollywood faz questão de soterrar. Tudo está conectado. A luta contra a homofobia e a misoginia são tão importantes quanto a luta para saciar a fome, aliás, matar a fome precede todas as lutas.

Entre essas lutas está uma divisão de classes que, por parte da elite aceita as diferenças, porque os filhos da elite são protegidos pelos sobrenomes e pelas contas bancárias. E os filhos dos pobres, que são assassinados pela polícia e pelas milícias, mesmo sendo iguais aos “excluídos” pertencentes à elite, são apenas pobres, periféricos e prontos para o abate. Tudo está conectado. Só precisamos unir as pontas deste novelo de Irismar (uma costureira de roupas de bonecas, que eu chamava docemente de mãe), para entendermos quem está ao nosso lado.

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza–CE. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor e Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 26 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014; Poesia na bagagem, 2018; Crítica da razão mestiça, 2021, dentre outros. Editor da Revista de Estudos Decoloniais da UFCG/CNPQ. Vencedor de Prêmios Literários nacionais. Contato: [email protected]

2 comentários

  1. Carlos Gildemar Pontes

    Mais ou menos assim, Laurineto, pois a luta entre o bem e o mal começa dentro de nós. E, quase sempre, conceituamos erroneamente o que julgamos ser um e outro. A depender de como aprendemos as coisas, podemos inverter os conceitos quando a conveniência se sobressai à vontade do coletivo.