Sobre a metáfora da prisão de Fabrício Queiroz

NO DIA 18 DE JUNHO, finalmente, encontraram Queiroz. Segundo declarações de autoridades policiais que participaram da operação de sua captura, ele já estava há mais de um ano em Atibaia – SP, recolhido na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef, frequentador assíduo das cerimônias do Palácio do Planalto, além de ter livre acesso ao Palácio da Alvorada. Em sua “live” à noite, depois da prisão do amigo, em sua página do Facebook, (https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/videos/263958998021686/), Bolsonaro fez questão de defendê-lo: “O Queiroz não estava foragido e nem havia mandado de prisão contra ele. Foi feita uma prisão espetaculosa; parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da terra. Repito: não estava foragido e não havia nenhum mandado de prisão contra ele. Tranquilamente, se tivessem pedido a qualquer advogado o comparecimento dele, ele teria comparecido. E por que estava naquela região de São Paulo? Porque é perto do hospital do tratamento de câncer”. Demonstrou cabalmente estar bastante inteirado do dia a dia do amigo.

Mas a reação espetaculosa – e paradigmática – foi a do advogado ao afirmar em diversas redes de televisão que não sabia que o amigo do presidente estava hospedado em sua casa. Antes já havia declarado a jornalistas que não conhecia Queiroz, nem sequer mantinha contato com ele. Esta postura emblemática de Wassef pode associar-se a tantos descaramentos de outros agentes públicos nesta quadra brasileira bolsonarista.

Por exemplo, na negação dos governadores do Rio de Janeiro e São Paulo em afirmarem que não são bolsonaristas, apesar de estruturarem toda a campanha eleitoral de forma afinada com suas ideias, como no caso paulista que cunhou, ainda no primeiro turno, o lema BOLSODÓRIA. Em 02 de outubro de 2018, a poucos dias da eleição, Dória declarou em alto e bom som: “A partir de janeiro, a polícia vai atirar para matar. Vai atirar para colocar no cemitério”. E é o que se está constatando, o aumento exponencial da violência da polícia de Dória contra a população pobre, preta e jovem de São Paulo. Ainda como prefeito, diante do incêndio e desabamento de um prédio de 24 andares onde viviam pelo menos 150 famílias sem-teto, no Largo do Paissandu, causando a morte de um homem e desalojando aquelas famílias, quando questionado pela imprensa sobre o sinistro, Dória afirmou: “O edifício estava ocupado por uma facção criminosa”.

Outro exemplo paradigmático, como o de Wassef, é o do grupo de padres e leigos católicos, empresários midiáticos, em seu encontro no final de maio de 2020, com Bolsonaro, tratando de negócios, nada republicanos, documentado em vídeo e mídia impressa pelo jornal O Estadão e o site Poder 360. O padre Reginaldo Manzotti, da Rede Evangelizar, em sua intervenção, diz: “Gostaria de me aproximar ao governo para justamente apresentar essa proposta positiva, de realmente levar esse trabalho e fazer com que ecoe desde os ribeirinhos até as grandes capitais. É preciso que caminhe o processo de radiodifusão. O Senhor está instigando para as coisas acontecer, presidente Bolsonaro”. Por sua vez, Monteiro de Barros Neto, representando a Rede Vida de Televisão, com entusiasmo, afirmou: “Nós, presidente, temos muito em comum”. (https://www.youtube.com/watch?v=rwop06l7kpY).

Ontem, 23, a Folha de São Paulo publicou uma entrevista com a escritora Lya Luft, em sua residência em Gramado, na serra gaúcha, na qual ela disse que “apesar de não o conhecer direito, votou em Bolsonaro”. Como não o conhecer direito? Por ser escritora, pessoa bem informada, reúne condições de ter acesso à boa parte das declarações, racistas e de apologia à violência, emitidas pelo seu presidente quando candidato, que vão desde o apoio à tortura e torturadores, como nos elogios ao coronel Ustra, ao extermínio de seus opositores, como declarou em comício de campanha no Acre. E disse Luft: “Alckmin (PSDB –SP) estava muito sem possibilidade. Queria outro Brasil e deu no que deu. Parece que vivemos uma ditadura branca, onde ele decreta e tem que ser como ele quer”. Ditadura branca? Mas ditadura, uma categoria eminentemente política, possui cor? Que preconceitos mais arraigados estariam numa declaração como esta?

Por fim, resta a pergunta em relação às Forças Armadas, avalistas de primeira hora, na pessoa do general Villas Bôas, do projeto Bolsonaro de poder, conforme ele fez questão de agradecer publicamente em discurso no dia 02 de janeiro de 2019, durante a cerimônia de transmissão do cargo de ministro da Defesa ao general Fernando Azevedo, quando afirmou: “Hierarquia, disciplina e respeito é o que fará do Brasil uma grande nação. Meu muito obrigado, comandante Villas Bôas. O que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos RESPONSÁVEIS por eu estar aqui”. Será que, quando o cerco finalmente chegar até Bolsonaro, os generais agirão como Wassef, dizendo não saberem como Bolsonaro chegou ao Planalto?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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