SIMPLESMENTE JOSÉ OU MESTRE OLAVO (Parte I) – por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Na pia batismal, agraciaram-no com um nome singelo – embora cristãmente expressivo: José.

Queriam-no assim: José simplesmente!

A expectativa dos pais – um jovem “faz tudo”, que, havia pouco tempo, abandonara a viola tão amada e o repente tão criativo e, às vezes, sarcástico, irônico e mordaz, para, aos poucos transformar-se em requisitado mestre de obras; e uma jovem de reconhecida beleza física e moral, religiosa e prendada senhorinha, que, recentemente, desistira da clausura do convento carmelita para, aos poucos tornar-se a respeitável professorinha das primeiras letras, a fada madrinha na segura e obstinada condução dos fantásticos primeiros passos pelos auspiciosos caminhos da leitura e escrita –, a expectativa deles, repito, sertanejos de raiz (o sertão era o seu mundo!), consistia em que, tão logo aquele saudável e robusto novo-cristão crescesse e o mundo ganhasse, artífice fosse, ou seja, de esmero, engenhosidade e efetividade, de melodia, ritmo e rima, revestisse tudo o que a criar, a recriar ou a construir se dispusesse, sempre sob as bênçãos do sereno, cordato e santo carpinteiro bíblico.

Assim, estreavam eles, também, no cumprimento do compromisso de, através dos filhos – que certamente seriam muitos! –, render as justas e devidas homenagens aos seus progenitores; no caso, chamava-se José o patriarcal juiz de paz daquelas bandas onde o sol se fazia causticante e impiedoso e a chuva generosa e abundante – cada um ao seu tempo, aquele bem mais frequente e intenso que essa –, avô paterno do neófito e líder de uma vasta prole de trinta e seis filhos, frutos de três abençoados e pródigos casamentos porquanto viúvo ficara duas vezes, o mais velho com idade suficiente para ser o avô do mais novo, afora os que, ao sabor das línguas afiadas dos praguentos e difamadores, gerados em atos puramente carnais, à margem dos preceitos cristãos e do regramento vigente, bastardos eram.

E o pequeno José, dado à luz do mundo havia poucos dias, acessava o pórtico da cristandade, ungido pelas sacrossantas mãos do velho pároco e sob o inefável testemunho paternal.

E a ampulheta do tempo virou incontáveis vezes.

Agora estamos em meados do ano de 1965 da era cristã.

Encontro-me em pleno sertão central, mais precisamente no berço de duas famílias então tradicionais: os Gonçalves e os Moreiras, aqueles no lado de cá e esses no lado de lá do estreito e profundo – anêmico e silencioso no curso do verão; valente e rumoroso em épocas de chuva – rio Mazagão, que empresta o nome à localidade, para uma até então inédita quinzena de férias escolares, como convidado do casal Valdim-Maria Luíza, ele primo-irmão de meu pai.

Pelo combinado, eu me obrigava a passar um dia na casa de cada um de meus tios, o que funcionou normalmente no lado de cá, incluindo animadas noites de debulha de feijão ou milho, na penumbra de acanhadas salas de estar de casas de taipa e telhas de barro, no piso de chão batido, sob a tremeluzente chama de lamparinas a gás querosene, estrategicamente posicionadas, em meio a muitas conversas sobre a atualidade da região, das pessoas e dos fatos, e com o saboroso e salutar adjutório do café torrado em fogão a lenha, socado em pilão de madeira (esculpido em tronco de árvore) e passado na cara do freguês – cheiroso e quente, capaz de inebriar o mais exigente dos olfatos e queimar a língua dos incautos –, acompanhado de fartas fatias de pão de milho, beiju, macaxeira ou bolo de batata. A fartura sertaneja denunciava a expressividade do inverno que já se fora.

A agenda teve de ser revista quando, para as visitas do jovem citadino, de educação salesiana que saudável inveja certamente causava a alguns dos que me acolhiam com aconchego e até reverência – o filho da dona Enedina! –, impôs-se a travessia diária – ida e volta – do velho curso d’água, cuja correnteza ora mal cobria os pés de quem cruzasse o seu arenoso leito.

Era a época da farinhada.

Na vila dos Moreiras, uma larga rua de terra acinzentada, de cujo leito as ventanias – cálidas sob o império do sol e frígidas sob a iluminância inspiradora da lua – levantavam uma poeirinha crucial para a saúde das vias aéreas, margeada por casas de alvenaria, reboco e caiação, em que residiam os já casados filhos e filhas do viúvo Francisco – que não admitia ser chamado de Chico, desde os tempos em que vivenciou as perigosas experiências de seringueiro em terras acreanas, ao sul da floresta amazônica, e soube que lá “chico” é “mênstruo” –; na parte mais elevada do platô, sobressaía a do patriarca, de alpendre lateral, imponentes janelas frontais e platibanda alta. Atrás, ao amplo quintal recoberto de arbustos, onde aves de criação doméstica e ovinos, caprinos e suínos disputavam espaço e alimento, seguiam, após cerca de pau-a-pique, as remansosas águas do açude de médio porte, menina dos olhos do proprietário, fonte de abastecimento do familiar povoado e um dos ambientes preferidos dos netos já taludos para algumas de suas molecagens [Uma delas: na pescaria de anzol, com isca de minhoca, não raramente alguém fisgava um cágado (o jabuti, em outras paragens); atava-se, então, uma tira de pano em uma de suas perninhas traseiras e introduzia-se a outra ponta no furo aberto no centro de uma cuia (surrupiada das muitas que o avô de todos nós punha para secar no telhado dos galinheiros), a qual era amarrada a um sabugo de milho, colocado transversalmente no fundo da concavidade dela; aí, o animalzinho era devolvido às águas, com a boca da cuia para cima; logo se iniciava a luta do cágado na tentativa do mergulho mais profundo, impedido pela insistência em flutuar da boia improvisada que de nós ia paulatinamente se afastando; quando já distante, todos nós largávamos as varas de pescar, empunhávamos as baladeiras – ou estilingues, como queiram amáveis leitoras e leitores – e o alvo desejado passava a ser a cuia flutuante que só afundava quando as pedrinhas arredondadas por nós lançadas conseguiam quebrá-la quase completamente, sob aplausos e gritos de contentamento da molecada; havia casos em que o cágado fisgado já se oferecia com a tira de pano presa a uma das suas perninhas traseiras. Teimoso ou imprudente.]. À frente, no outro lado da rua, a rústica e nesses tempos disputada casa de farinha.

A matéria-prima – os tubérculos de mandioca arrancados a enxadadas e braço de homem nas roças próximas ou nem tanto – e a fonte natural de energia – achas de lenha aparadas a foice em áreas em que já se iniciava o preparo para futuros plantios – chegavam ao local de processamento rudimentar, aqueles em caçuás e essas em cambitos, ambos presos às cangalhas encilhadas ao lombo de jumentos e burros. Facas afiadas em mãos ágeis de mulheres sentadas ao rés do chão, ao derredor do monte de tubérculos, cumpriam a fase inicial do processo: o descascamento. A trituração carecia da ação concatenada de três agentes: uma mulher, de habilidade reconhecida para o mister, assumia o comando do cevador, ou seja, do maquinismo para ralar mandioca; e dois homens jovens, corpulentos e vigorosos, executavam o acionamento sincronizado da bolandeira, grande roda de madeira, dentada, montada sobre eixo vertical, ligada por grossas polias de borracha ao pino central do ralador. O respirar arfante, os urros brandos e cadenciados, os corpos atléticos, os braços musculosos, os troncos desnudos e os suores lubrificando a pele grosseira e queimada pela ação impiedosa do sol, tudo isso compunha um quadro de rara sensualidade, afetando sobremaneira os sentimentos libidinosos e essencialmente humanos das mulheres trabalhadoras, inclusive as já comprometidas, que arriscavam, aqui e acolá, olhares libertinos e quase reveladores de desejos carnais severamente contidos e reduzidos a inexpressivos e imperceptíveis suspiros. E se estabelecia assim um clima mais que perfeito a divagações, devaneios e até sonhos, logo despertos pelo zunido mecânico e intermitente da pequena moenda a triturar alucinadamente as raízes descascadas, trazendo de volta as sonhadoras para os exigidos cuidado e zelo com o que faziam, no limite do extremo, do risco, do perigo.

E as conversas de passar o tempo invadiam – e estripavam e expunham as vísceras – os cotidianos de pessoas ausentes. E as aventuras e desventuras dos outros, trazidas do longínquo espacial pelo vento soprado das bocas maledicentes de uns nos ouvidos renitentes a segredos de outros, quase sempre serviam de recheio aos colóquios das comadres. Como o que ora passo a narrar.

Duas descascadoras, sentadas uma ao lado da outra, tricoteavam em pleno desempenho da função. E eu, atento, tudo ouvi sem que elas percebessem, tão entretidas estavam com o que faziam e falavam:

– Comadre, você já soube o que aconteceu com o Juninho?

– O quê? Com quem?

– Com o Juninho, filhinho querido do doutor Menescal.

– Ah, sei. O que houve com ele, comadre?

– Você lembra que ano passado ele se casou com uma das filhas gêmeas do coronel Eudósio, né?!

– Sim. As duas fizeram a preparação para a primeira comunhão com a minha mãe. A Eulália ou Lalinha e a Eurídice ou Dicinha iam até lá em casa, todos os dias, de charrete puxada a cavalo, com cocheiro particular. Eram muito bonitas e simpáticas. Nem pareciam ser ricas.

– Pois bem, a Dicinha casou-se bem nova com o Juninho, numa festa em que as duas famílias gastaram uma pequena fortuna. Pois, mulher, não é que agora, tão logo ela teve uma menininha, em parto normal, o rapaz achou por bem não reconhecer a paternidade, lançando dúvidas sobre a honra da esposa.

– E ele se separou dela?!

– De imediato, não. Primeiro procurou o pai a quem revelou o que desejava fazer. O velho e bom doutor Menescal foi rigoroso com ele. Exigiu que ele procurasse o sogro, a quem teve a coragem de pedir a filha em casamento, e também fosse corajoso ao devolvê-la, com a filhinha que alegava não ser dele, sob a justificativa da traição.

– E ele fez isso?

– Fez. Só que o coronel tomou as dores da filha. Disse que ela havia garantido não ter cometido qualquer tipo de traição, que só se deitava com um único homem e por amor, que o neto dele tinha pai conhecido, que preferia acreditar na filha a ter de dar crédito a ele, que sempre esteve disposto a defender a família e nada seria diferente neste caso. E foi mais franco ainda ao afirmar que no grupo familiar dele não havia um caso sequer de mulher abandonada pelo marido; havia viúva, sim.

– Eita, comadre. O velho foi direto ao ponto.

– E o Juninho mijou pra trás, como dizem os homens valentes em relação aos medrosos. Pediu desculpas ao sogro e à mulher. Reassumiu o casamento e a filha. Fez de conta que nada tinha acontecido.

E as afiadas facas em ágeis mãos femininas continuaram removendo as cascas dos tubérculos de mandioca que, em seguida, eram levados em cestos de bambu e cipó até o cevador que, frenética e intermitentemente, zunia em desespero ou gozo no ato da trituração.

Era diversão para o dia todo, em todos os dias, excetuando-se apenas o domingo, dia de oração e recolhimento e recomposição de energias. Reservavam o sábado para que o arrendatário cumprisse as exigências do arrendador, quais fossem a prestação de contas, a limpeza de todas as dependências e equipamentos da casa de farinha e o abate de porco adulto, capado e cevado, cujas carnes assadas ao calor abrasante do forno a lenha, eram por todos saboreadas como acompanhamento de baião-de-dois de feijão verde, com as mulheres tomando copinhos de licor de jenipapo ou tangerina e os homens entornando algumas talagadas da mais pura aguardente de cana.

E a aparente rudeza do sertão se transmutava em festa.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.