Será que vamos aprender?

“Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.”

Cecília Meireles

​Pessoas bem próximas de todos nós e muitas outras conhecidas por sua posição social, ou ainda as celebridades que pontuam no noticiário morrem a cada dia infectadas pelo coronavírus, sem falar nos milhares que sequer conhecemos e que se transformam em estatísticas do noticiário macabro.
​Testemunhamos mortes horrendas por asfixia e desespero; mães e pais que deixam filhos menores órfãos em uma sociedade que não protege suficientemente crianças e velhos, e na qual quem não produz valor não come, independente da sua capacidade ou circunstâncias sociais.

​Mas, mesmo assim, o fetichismo da mercadoria impele a todos à chamada fuga para a frente, ou seja, a volta à (a)normalidade da vida social capitalista na qual somos obrigados a decidir entre nos isolarmos socialmente, coisa que apenas poucos podem fazê-lo, ou enfrentarmos os riscos de uma contaminação e morte à mingua em face de que a maioria da população não tem planos de saúde e se obriga ao terror de hospitais superlotados que já não podem atender aos desvalidos da sorte.

​No caso brasileiro contamos com a insensibilidade genocida de um governo que negligenciou na compra de vacinas ao mesmo tempo em que se insurgiu contra conceitos médicos predominantes e numa alternância de ministros da saúde que criou um descompasso administrativo tal qual um time que muda de técnico amaçado de ser rebaixado por sucessivas derrotas graças à incompetência do presidente do clube.

​Até nos parece que, além da incompetência flagrante, há uma deliberada intenção de causar mortes às pessoas idosas como forma de equilíbrio da deficitária previdência social pública, dando sequência ao plano de corte de direitos previdenciários para quem dela necessita ou contribuiu a vida inteira e se vê obrigado a mendigar a dignidade de uma vida amparada na velhice, ora negada.

​Há um crime de lesa humanidade no Brasil que deve ser apurado, e a história cobrará qualquer negligência neste sentido, porque não há dúvidas de que mais de uma centena de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se tivéssemos adotado critérios humanitários de enfrentamento da mais grave crise humanitária do pós-guerra.

​Os governos, todos, administram as finanças públicas de olho na relação receita/despesa como conceito de bem administrar; o povo que se lixe…

A razão da dissidência de parlamentares no início do governo Lula, fato que gerou a criação do Psol (que também quer ser governo e se submeter à tirania econômica capitalista institucional), foi justamente a gota d’água que fez transbordar o cálice da insatisfação de petistas menos fisiológicos, consubstanciado na proposição de uma reforma previdenciária que retiraria direitos dos previdenciário, tal qual propôs e conseguiu aprovar o desgoverno que aí está.

Keynesianos estatistas e liberais defensores do mercado como fonte de equilíbrio das relações sociais se igualam na crise do capitalismo que tentam administrar, e é justamente o comando abstrato e absolutista de uma forma de relação social baseada na contabilidade atuarial entre receitas e despesas numericamente dimensionadas aquilo que lhes impõe a obediência cega ao genocídio.
Como estamos cansados de dizer, a produção de mercadorias e tudo dela decorrente, seja no plano econômico, do direito ou da organização social, produz conceitos do que seja certo ou errado justificando a morte em nome de seus absolutistas critérios contábeis.

A vida não é, e não pode ser, uma contabilidade de haveres e deveres financeiros!

Tenho uma amiga que está internada com covid19 e felizmente melhorando o seu quadro de saturação; mas me telefonou aflita do seu leito hospitalar me pedindo ajuda em razão da pressão telefônica que estava sofrendo por conta de insistentes cobranças de mensalidades em atraso feita pela direção do colégio particular onde seus filhos estudam.

É claro que considerei tais cobranças impróprias para o momento de quem está angustiada com o medo da morte; mas a tal diretora do colégio justificou-se a mim afirmando que tem responsabilidades com a sobrevivência do colégio e pagamento dos salários dos professores, ou seja, a desumanidade é justificada por uma forma de relação social na qual critérios financeiros servem de justificativa.

O absurdo de tal situação é que é um comando externo, econômico financeiro, é o que está na base do sofrimento da minha amiga, e que serve de justificativa conscienciosa (ainda que indesculpável) da direção do colégio para a atitude ora exemplificada.

O que faz com que pessoas (principalmente jovens) que atravessam a nado o ponto mais extremo da África em relação à costa europeia espanhola sejam presas e rejeitadas por clandestinidade migratória?
O que faz com que o governo dos Estados Unidos, que separou crianças dos seus pais numa espécie de jaula, sob o republicano Donald Trump; que ainda ontem deportou brasileiros sob o DEMOCRATA Joe Biden, repetindo o que fez o DEMOCRATA Barack Obama, senão que fossem todos rejeitados por mesquinhos critérios de cidadania baseada em aspectos econômicos contributivos?

É que a cidadania democrática burguesa, em qualquer país dito civilizado e rico somente funciona para quem tem dinheiro, e se for bastante, pode até receber o green card, ainda que seja um criminoso em seu país de origem.

O mundo que se pretende civilizado (e demonstrando que não o é) não deveria mais conceber um tipo de relação social que se baseia em critérios de produção de valor monetário simplesmente porque ele é desumano, antes de a vida seja inviável no estágio do limite interno de reprodução de sua própria substancia funcional, o dinheiro.

Quando expliquei isto para uma jovem leiga nos assuntos que regem a matéria, e que considera acordar para ganhar dinheiro algo tão natural como tomar água e satisfazer as suas necessidades fisiológicas, ela me questionou afirmando que era impossível as pessoas se conscientizarem por elas mesmas de viver sem o dinheiro e adotarem um novo modo de vida, ou seja, que eu sou um mero sonhador.

Mas, sabedor de que ela está desempregada e sem dinheiro para pagar a faculdade que trancou em razão disso, e sem poder custear outras despesas pessoais, expliquei que é a falta de dinheiro, num nível cada vez mais acentuado, que ora a atinge, aquilo que vai provocar empiricamente uma exigência de formas alternativas de relação social, independentemente da consciência teórica sobre a conveniência do combate à negatividade implícita nas relações sociais capitalistas.

Não foi o sentimento humanitário que aboliu a escravidão direta dos negros no Brasil, mas a necessidade capitalista de absorção dos negros no mercado produtor de valor via trabalho abstrato (ainda que a hipócrita consciência civilizatória o tivesse exigido); trabalho abstrato que, paradoxalmente, agora lhes é negado substancialmente.

​É o processo dialético social aquilo que impõe revolucionariamente as transformações sociais, a posteriori, e não a consciência teórica a priori.

Há fatos absolutamente imprevisíveis que contribuem para a explicitação da irracionalidade capitalista e se agregam subsidiariamente às crises. Um destes fatos é o surgimento de uma pandemia que assola os continentes e a humanidade cujos números extraoficiais já apontam para cerca de 10 milhões de óbitos; número de guerras mundiais.

É evidente que um modo de produção social fora do mercado possibilitaria uma racionalização da produção e distribuição de objetos servíveis e indispensáveis ao consumo (excluindo as quinquilharias capitalistas desnecessárias), bem como a efetivação de serviços presenciais adaptados a uma realidade pandêmica, principalmente na era da tecnologia eletrônica de comunicação.

Ao mesmo tempo, a produção de vacinas sem o critério da comercialização e custos de produção que proíbe os países pobres de comprá-las (já há um apartheid pandêmico, com os países ricos vacinando suas populações em percentagens bem mais expressivas do que os países pobres) certamente que provocaria uma controle sanitário profilático verdadeiramente humanitário.

A depressão econômica anteriormente já em curso encontrou na pandemia continental um inimigo que o capitalismo não pode colocar na cadeia como terrorista subversivo, ainda que muitos queiram qualificá-la como comunavírus, numa alusão à China, que é, hoje, quem pratica o capitalismo mais selvagem do planeta, poluindo a atmosfera (é, com os Estados Unidos, com quem disputa a hegemonia da exploração capitalista, o maior emissor da CO²) e escravizando o sofrido e milenar povo chinês.

Caminhamos, pois, para o momento de saturação definitiva do modelo capitalista cambaleante, seja por agressão ecológica, pandemia, desemprego estrutural, dívida pública impagável, colapso iminente de todo o sistema financeiro, concentração da riqueza, e tantos outros fenômenos próprios à incorretamente denominada modernidade social.

Será que vamos aprender e nos reinventarmos, ou nos destruiremos num processo autofágico?

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;