Segundas Almas

A FARDA DO ALFERES ERA TAMBÉM A ALMA DO ALFERES. Sua integridade pessoal estava fora de si, na visão que os outros tinham a seu respeito, na imagem por ele sustentada publicamente, em uma sociedade totalmente mediatizada, consequentemente, condicionada pelas ondas publicitárias, pelas opiniões públicas construídas socialmente pelos meios de comunicação social; em uma sociedade na qual o uniforme do militar, a toga do desembargador e a batina do clérigo representam prestígio, santidade e o poder da verdade. Sem essa honraria, o Senhor Alferes perderia sua alma. Sem o olhar dos outros, ele nada é. Um ser relativo: o que o espelho representa para si? O que tem mais importância: sua farda ou o seu nome?

No início o juiz era apresentado como um paladino da justiça, caçador de corruptos. Diariamente exposto de forma sempre positiva pela mídia hegemônica nos lares das pessoas comuns. Sem mancha no traje, nem na face. Um super-herói. Mas depois, incapaz de conter o seu insaciável apetite por vaidades, adentra ainda mais o poder, expondo-se no espaço público, agora com lentes que não lhe são tão fiéis, não lhe garantindo mais a projeção da imagem desejada devido à ausência das produções editadas do passado. E assim, começam a aparecer as rugas, os cacoetes, o cabelo assanhado, a voz desafinada, os erros linguísticos, a pouca bagagem jurídica, as manipulações processuais, a conivência com a corrupção, o gosto pela violência contida em seu projeto de poder. O juiz não era não tão justo assim; muito pelo contrário! Estava muito mais dobrado ao poder do que à justiça.

Uma das grandes marcas do gigante Machado de Assis foia de trazer à tona com maestria o Eu e os muitos Eus que nos habitam: haverá mais de um ser em mim? Com sua técnica apurada, Machado consegue sugerir as coisas mais tremendas de maneira cândida ou irônica, estabelecendo um contraste entre a normalidade social dos fatos com a anormalidade essencial, num misto de profundidade e complexidade presente em toda a sua narrativa. Um profundo observador da realidade nacional, dissecada em suas crônicas exploradoras dos temas essenciais de nossa brasilidade, cuja uma sua máxima é expressa na seguinte sentença: “Você sabe com quem está falando?”. Ou seria: “com que farda, batina ou toga está falando?”.

Em nossos dois últimos artigos passados, (https://segundaopiniao.jor.br/dizer-o-indizivel/) e (https://segundaopiniao.jor.br/a-razao-de-ser/), tratamos um pouco sobre as inversões, aquele esforço necessário e não tão comum de sairmos do nosso lugar existencial para tentar olhar o mundo ao nosso redor – e a nós mesmos – de outras perspectivas pelas quais tenhamos a oportunidade de enxergar novas verdades para com elas reconfigurar nossos mundos.

No plano da filosofia política há, em nossa perspectiva,uma inversão fundamental resultado da experiência antropológica cristã, a qual legou à humanidade uma revolução social e juridicamente positiva na forma de ver, sentir e pensar os humanos. Apesar de suas singularidades e diferenças pessoais e grupais, todas as pessoas são filhos do mesmo Deus-Pai. Portanto, a dignidade e a importância dos indivíduos estão no fato de ser uma pessoa, independentemente de suas relações subjetivas ou de seu status social. O conceito de pessoa trazido à tona pela antropologia cristã se opõe a qualquer tipo de discriminação ou preconceito, e menos ainda à concepção do outro como inimigo. Por meio dela, a noção de humanidade se sobrepõe à noção de povo, materializando-se universalmente e ganhando contornos no direito positivo mediante os princípios universais da igualdade e da dignidade humana, como bem acentua o jurista brasileiro Pedro Estevam Serrano.

A antropologia cristã também acentua que da mesma forma que a humanidade, o sentido de comunidade não se reduz a um mero fenômeno biológico ou natural. É uma convivência que se constrói dia a dia, num processo nunca acabado, a partir da primeira célula social que é a família. Para a cultura cristã, toda relação nasce da necessidade, definida pela matéria, e emerge para a liberdade, definida pelo espírito. O desejo de posse (matéria) consuma-se no gesto do dom (espírito). Da necessidade chega-se a relações de reciprocidade. Os humanos só se universalizam plenamente quando se reconhecem como irmãos (do latim, “germanus”, aqueles que possuem o mesmo gérmen, a mesma origem humana).

Além da farda do alferes, Machado toca com muita agudez em muitos outros temas da existência humana, de forma muito constante na relação entre aquilo que é com aquilo que parece ser. Foi assim que Bento Santiago, o Dom Casmurro, destruiu o seu lar ao imaginar uma verdade e fazer dela sua realidade. O Brasil do tempo presente parece correr o mesmo risco ao imaginar que um defensor da tortura, um entreguista do patrimônio público ao capital financista, um produtor inveterado de mentiras, um despossuído de conhecimento cultural mínimo para representar um país na comunidade internacional, um insensível à dor das famílias, um defensor confesso do desmatamento, pode ser o seu messias salvador. O que diria Machado sobre essa alma brasileira de hoje? O que dizemos nós?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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