Se Eu Fosse Uma Escritora, por ÍRIS CAVALCANTE

Amo os livros que não escrevi. Aqueles que trazem os entusiasmos e os assombros dos que estão vivos. Eles habitam algum tempo ou espaço do universo. Nosso encontro há-de acontecer um dia, assim como se dão todos os encontros que importam.

É das palavras que vivo. Elas são meu pedaço de sobrevivência. Fantasia versus real. Meu traço Disney. Enquanto as indesejáveis traças devoram a parte do sonho que não resistiu.

O impossível habita o fantástico e a cena real. A dor e a feiura caminham juntas. A bela e a fera. O ciclope. A divina comédia ou a tragédia humana.

Não façamos literatura para convencer ingênuos deslumbrados com a estética. Façamos literatura com a absurdez de nosso tempo e com o sarcasmo elegante que pode estar numa vírgula. Desacredite da escrita que não tem inquietude. Desconfie do escritor satisfeito e do leitor conformado que ele produz.

O desassossego da arte é o que mais me incita a criação. Me preparo para a escrita como se fosse para a morte ou ressurreição. Faço a leitura de um texto ou outra peça de arte, mergulho num tempo que não é o meu, me entrego a uma música, crio um ambiente de sedução, aromas, luz em refração, torno-me uma mulher sensual em quase nudez, sigo o flow, deixo-me seduzir.

Exceções ao lugar comum. Fantasias, meu bem! A verdade é que o meu cenário criativo é bem raiz. Sinto-me à vontade nos domínios da minha bagunça particular. Não tenho métodos de escrita. Deixo-a fluir como um jorro em sua primeira versão. Nua. Sem pudores. Depois dá-se o filtro. O corte.

Há algum tempo, eu sofria com os inevitáveis cortes de edição. Era dolorido desapegar-se do texto. Paralelo a um movimento pessoal de desapego, inseri esse hábito em meu cotidiano. Hoje, tão básico como uma t-shirt.

Mas minha escrita tem trilha sonora, sim. Poderia citar muitas canções que ambientaram meus textos. Tanto a música quanto a leitura escolhidas despertam essa entidade autônoma, que atua nos bastidores da minha criação, que já não sou eu. Acontece uma interface com a obra e o autor, mesmo com a substância do tempo logo ali, a nos separar. Tempo que pode ser contado em minutos, décadas, séculos ou atemporalidade.

O exercício do autor ao ler-se em voz alta é vital para apropriar-se do ritmo do texto e decidir o detalhe a permanecer e o outro a ser eliminado. Assim é na vida, decidimos quem fica e quem deixamos ir, num estalo.

Ah, o detalhe!

O cuidado define se o detalhe vem enaltecer ou sombrear a narrativa. Aqui, ele não pode ser contado de maneira amorfa, como o reconhecemos em nossa rotina diária. Aliás, não será ele que compõe a principal matéria da vida, o detalhe?

A literatura nos move a notar alguns signos impercebíveis por uns, enquanto outros transformam em arte. A percepção ao detalhe que se mostra com discrição ou quase oculto, aguça nosso papel de leitor, nos reforça de elementos para intervir no texto. Seremos sempre maiores após uma boa leitura.

O melhor leitor é aquele que lê a vida, no detalhe. Algum lugar entre o metafísico e o sublime.

Se eu fosse escritora, escreveria o detalhe.

Iris Cavalcante

Iris Cavalcante

Íris Cavalcante é especialista em Escrita Literária e MBA em Administração Estratégica. Estreou na literatura em 2003, teve publicações como autora independente, participação em coletâneas e revistas eletrônicas. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2018 na categoria poesias com o Vento do 8º andar.

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