Se eu fosse um burguês…

“Brigar por política no atual cenário é o mesmo que ter uma crise de ciúme na zona!

Harvey Specter

É evidente que o capitalismo vive os seus estertores; e isto não acontece por fatores externos de um sujeito revolucionário consciente, os trabalhadores abstratos politicamente unidos.

Não! Tal saturação acontece por suas contradições internas, aliada a fatores externos como a agressão ecológica que atinge a todos de forma não seletiva.

Foi Marx que previu nos “Grundrisse” a implosão de todo o sistema em face de uma contradição entre forma (a exacerbação da busca pelo lucro na guerra concorrencial de mercado que elimina a extração gradativa de mais-valia) e o seu conteúdo (a busca da viabilização de uma relação social equânime e sustentável).

A melhor forma de se conhecer a aceitação do comportamento social burguês por um indivíduo social é o incômodo que lhe é causado por qualquer contestação contundente ao way of life ora estabelecido.

A acomodada aceitação do capitalismo se divide entre duas formas políticas:

(i) os que querem impor e até aumentar a dominação capitalista e a manutenção do status quo vigente (a direita conservadora e seus vários matizes ideológicos);
(ii) e os que querem amenizar ou humanizar o capitalismo sem alterá-lo na essência (a socialdemocracia e seus vários matizes socialistas).

A polarização entre Bolsonaro, o ignaro, e seu séquito de militares nos cargos de confiança, a se imaginar como um autocrata poderoso, e Lula, com seu socialismo com Henrique Meireles, José Sarney, José Alencar, Delcídio Amaral, Roberto Jefferson, Joaquim Levy, e agora Geraldo Alkimin, representam a expressão bem acabada da dissenção dentro de um mesmo espectro de relação social: a sociabilização a partir da forma-valor, o capitalismo.

Ambos os projetos políticos burgueses se quedam ao controle parlamentar capitalista de direita, sempre majoritário (não há nenhum parlamento no mundo eleito pela democracia burguesa e seu domínio econômico no qual a esquerda seja dominante), ou seja, em qualquer lugar do mundo burguês haverá sempre um centrão” caracterizado por seus dois terços conservadores e um terço socialdemocrata (quando muito) a legitimar tal esfera de controle político do capital.

Mas como o capitalismo está gerando insatisfação social insuperável sob seus fundamentos, a questão entre estas duas correntes políticas passa a ser qual a melhor forma de mantê-lo vivo.

Os conservadores, via de regra xenófobos nacionalistas, racistas, homofóbicos, misóginos patriarcalistas, genocidas e elitistas, querem manter o status quo pela força militar conjugada ou não com controle do poder político-econômico.

Por sua vez os sociais democratas aceitam o capitalismo (e tentam humanizar o que é essencialmente desumano) pelo voto no processo eleitoral burguês e toda a sua manipulação da legítima expressão da vontade popular.

Ambos estão fadados ao insucesso justamente porque as suas bases de sustentação, a relação social capitalista, faz água e tem anunciado o seu naufrágio iminente (mas ao tempo dos fatos históricos irreversíveis).

Tal naufrágio anunciado ocorre seja por fator interno, qual seja a irresolúvel equação subtrativa da riqueza socialmente produzida (material e abstrata), ou externo, o aquecimento global causado pela irracionalidade de um modo de produção social ecologicamente predatório.

Se eu fosse um burguês conservador, ficaria apontando o fracasso da administração do aparelho de Estado burguês pela esquerda, e suas contradições comportamentais expressas em medidas de salvação do dito cujo, que flagrantemente negam os interesses dos explorados e segregados.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata, mesmo com um matiz mais socialista, diria que as medidas antipopulares tomadas pelos governos de esquerda são provisórias, e estão dentro de uma tática de dar os anéis para salvar os dedos, visando a vitória da estratégia maior de defesa do trabalhador.

Se eu fosse um burguês conservador exaltaria a figura do trabalhador e do trabalho como única e válida forma de criação de riqueza para todos os nacionais e que isto os beneficia, como fez Hitler na Alemanha nazista (lembram-se do Arbeit Match Frei…).

Se eu fosse um burguês social democrata exaltaria um partido trabalhista qualquer e a aliança com seus sindicatos como o melhor artífice da defesa dos interesses sistêmicos da trabalhador para que estes não fossem tão explorados (mas desde que continuassem como trabalhadores explorados, categoria capitalista tida por estes como ontológica…).

Se eu fosse um burguês conservador de um país economicamente dominante diria que o imigrante é um estorvo para os nacionais que construíram um país rico que lhes oferece o Estado do bem estar social, e pediria votos contra a inaceitável invasão étnica estrangeira.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata num país economicamente dominante faria um discurso a favor do imigrante, que é útil para fazer os serviços que os nacionais rejeitam (lavar pratos, banheiros, cuidar de doentes ricos e de idosos, recolher o lixo das ruas e separar os materiais recicláveis, etc., etc. etc.).

Se eu fosse um burguês conservador condenaria a corrupção com o dinheiro público e a punição rigorosa dos envolvidos, inclusive com achaques policiais veiculados pela grande mídia ao vivo, principalmente sob o pálio do Poder Judiciário e do Ministério Público, e aproveitando as brechas da lei, até porque entenderia que salvar as finanças públicas é salvar o capitalismo.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata diria que a corrupção sempre foi praticada pelos governantes de direita sem que estes jamais fossem punidos, e que o repentino combate escrupuloso à corrupção não passa de uma perseguição a quem defende os trabalhadores.

Se eu fosse um burguês conservador defenderia os princípios republicanos capitalistas e suas práticas como se fossem o Graal da santidade, e não hesitaria em dar um golpe militar quando tais princípios estivessem ameaçados ou pretensamente ameaçados, e rasgaria a constituição em nome da defesa do republicanismo constitucionalmente estatuído.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata defenderia os princípios republicanos capitalistas, mas torceria o nariz para as aventuras militares totalitárias, que nos privaria do bom e velho Estado de Direito burguês.

Se eu fosse um burguês conservador defenderia um torturador militar dos tempos de ditadura como um herói nacional, e condecoraria representantes de grupos paramilitares ou milicianos.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata faria um lei da anistia pacifista de modo a que as arbitrariedade cometidas pelos militares ao tempo do regime de exceção fossem niveladas às ações dos que lutaram contra tais exceções.

Se eu fosse um burguês conservador negaria a lisura do voto e condenaria o voto eletrônico, alegando ser o mesmo susceptível de manipulação, e como se o voto impresso estivesse isento de coisas que tais.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata defenderia o voto eletrônico e seus mecanismos de controles externos e, assim, reforçaria o processo democrático eleitoral burguês como a legítima expressão da soberania da vontade popular.

Se eu fosse um burguês conservador defenderia a livre circulação popular mesmo dentro de uma pandemia virótica assassina e negaria as vacinas (principalmente as originárias de todos países tidos como comunistas, mesmo sem sê-los), porque, afinal, o capitalismo não pode parar.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata defenderia as vacinas como forma de apressar o retorno à normalidade burguesa tão necessária para a sustentação do emprego e de sua extração de mais-valia.

Se eu fosse um burguês conservador defenderia a guerra de conquista iniciada por um autocrata qualquer como forma de demonstração de sua força e aceitação popular somente possíveis num regime de força e disciplina.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata mais à esquerda defenderia a mesma invasão e a guerra como legítima alternativa ao domínio burguês ocidental e seu imperialismo, e tudo sob o pálio de uma bandeira vermelha cada vez mais desbotada.  

Se eu fosse um burguês conservador defenderia medidas econômicas próprias do liberalismo de Milton Friedman, mas não hesitaria em mudar os rumos das coisas e virar keynesiano de carteirinha caso a economia estivesse afundando.

Se eu fosse um burguês socialdemocrata no governo, idem, idem.

Ufa…

Mas como sou um revolucionário emancipacionista, e com tudo que tal definição incorpora (negação da forma-valor e seus padrões monetários –dinheiro e as mercadorias tangíveis, Estado, poder vertical, constituição burguesa e direito burguês, trabalho abstrato, trabalhador, partidos políticos, eleições burguesas, etc.) e defendo uma estrutura social de base, como um modo de produção social sem mensuração monetária e voltado para a satisfação das necessidades sociais,

eu NÃO VOTO! Dalton Rosado.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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