Sapateiro das ilusões

Bem aventurados os mansos porque deles é o reino dos céus, proclamou Cristo no seu sermão da montanha. Por muitas décadas, me perguntei quem seriam mesmo esses mansos merecedores de prêmio tão cobiçado e, milenarmente, reservado a chaves de ouro. Em que tribo, em que terra paradisíaca ou planeta habitavam? A que etnia pertenciam? Estariam ali, por perto, ao encontro dos olhos, vestidos na simplicidade e sabedoria da fala do mestre? Ou viviam enclausurados em mosteiros e conventos preceando pela humanidade obstinada e pecaminosa? Viveriam, me perguntava, embrenhados nos guetos? Ou viviam grudados ao púlpito de onde, com retórica inflamada, tosquiavam as ovelhas? Essas ponderações me inquietavam na infância e adolescência quase sempre sem resposta.

Hoje, porém, sei, com toda convicção, que Eduardo, pela carga de bondade e do bem que trazia a todos, era um desses exemplares semeados entre nós, nesse mundão tão repleto de tacanhas mais-valia, de convenções rasteiras, ódio e sortilégios alimentados na calada da noite depois de um momento de contrição religiosa. Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, poetizou Chico César. E por que assim o (Eduardo) vejo?

Por se tratar de uma figura ímpar, um personagem singular na sua ingenuidade bondosa, sempre mergulhado no universo fantástico do mundo infantil embora já fosse um decano. Esse contraste das duas pontas da vida muito me arrebatava o olhar, levando-me a legitimá-lo como enigma a ser desvendado. Nesse propósito, quantas vezes, céus, recorri eu à ágora de meus pobres dias!

Em São Miguel do Tapuio, torrão natal dele e meu, todos o peregrinavam na busca de um riso, de um lenitivo para as dores da alma ou por pura janela catástica.E, mesmo aqueles que nunca tivessem, com ele, travado um dedo de prosa tinham a convicção natural de que lhe parecia familiar tamanha era a magia que despertava.

Sendo ele sapateiro, dedicava-se ao ofício como se fosse um sacerdócio, uma missão transcendental: a de levar conforto e beleza aos pés, ao corpo, à alma. Assim, quando alguém lhe apresentava uma sandália já desbotada ou um sapato já roto, Eduardo, entre uma fala e outra, acomodava o utensilio ao colo e logo lhe dava face nova. Pagamento? Não se cogitava. Poderia ser um muito obrigado ou algumas moedas que lhe chegavam às mãos.

De tanto viver sentado, batendo pregos, a coluna cervical se aquilinou, os ombros caíram, se espigaram; os olhos, fundos, de um amarelo lânguido, imprimiam-lhe uma expressão assustadora. O coração, no entanto, era sensível, ternamente acolhedor. Gostava de crianças, dos velhinhos claudicantes, já sem público e, principalmente, da boa conversa, sobretudo, dos acontecimentos inéditos, únicos, como ele o era. Dava atenção a tudo e a todos e, embora pouco educado nos livros, exibia um português fluente, cheio de neologismo. Eu era criança e me perguntava atônito onde aquele velhote de pele murcha e amarelada pelo tempo aprendera tantas palavras novas e bonitas. Nunca o vi com um dicionário nas mãos, não frequentava minha escola e vivia recluso batendo sola e fitando as pessoas que passavam na rua. Era um grande mistério para mim! No entanto, o que mais me impressionava nele era a capacidade de estar presente a tudo. Quando alguém contava um fato, um episódio inédito que havia se sucedido bem distante daquela pobre cidade esquecida a um canto do mapa, o velho sapateiro dizia ter presenciado e logo passava a dissecar tudo nas suas mais fundas intimidades. Citava particularidades, nome de pessoas de terno e gravata presentes, mês, dia, hora. Eu, embrulhado nos meus sonhos de menino, pensava: esse senhor só pode ser um deus, ele se faz presente a tudo. E prestava-lhe temor e respeitosa reverência. Um detalhe, porém, me deixava curioso, às vezes intrigado. Se alguém da cidade contasse uma história, daquelas que fogem à realidade e nos deixam nos olhos e na boca um ar de desconfiança; os adultos da tímida cidade, indistintamente, cravavam: mas, oh Eduardo! É bem verdade que eu não entendia o pleno significado daquela expressão. Então, recorria à gramática mais moderna da época e percebia que ela não se enquadrava em nenhuma das classes gramaticais. Nem dos substantivos, nem dos pronomes, nem dos adjetivos e verbos; no entanto conseguia associar às narrativas do velho sapateiro.

Foi somente, muito tempo depois, quando a infância cedeu lugar à razão, que vim descobrir: Eduardo era famoso e conhecido pelas tramas espontâneas, bem trabalhadas, mas inverossímeis.

Bem aventurados os mansos porque, aos Eduardos, pertence o reino dos céus!

Camilo França

Camilo Henrique Cavalcante Franca

Licenciatura plena em Letras (Universidade Federal do Piauí).