Sânzio de Azevedo Ensaísta

Difícil, extremamente difícil, encontrar um leitor da historiografia literária cearense que, por qualquer motivo, não conheça os ensaios, livros ou estudos acadêmicos de Sânzio de Azevedo, um dos luminares das letras contemporâneas do Ceará.

Sânzio é escritor de prosa fluente e segura e analista literário de vasta capacidade de investigação, sendo, por isto mesmo, a leitura das suas pesquisas um convite a novas descobertas e modalidades de prospecção.

Além de ser o historiador mais autorizado da nossa literatura, Sânzio é autor, dentre outros, dos livros Dez Ensaios de Literatura Cearense (1985), Novos Ensaios de Literatura Cearense (1992) e A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará (1983), por cujas páginas perpassam o equilíbrio do ensaísta e a aguda percepção do observador das contradições e da dialética dos fatos sociais.

Sobre a sua contribuição de ensaísta, assim se expressou Artur Eduardo Benevides: “Sânzio é um pesquisador de mão cheia, cousa, aliás, a que se dedica com o maior interesse e seriedade”, afirmando que “hoje em dia, já ninguém pode escrever sobre a vida ou a produção literária do Ceará, sobretudo do século dezenove, sem ler antes os seus lúcidos e coerentes estudos”.

Quem vier a ler os seus Dez Ensaios de Literatura Cearense verá confirmada essa assertiva de Artur Eduardo Benevides. Basta que o leitor se demore em qualquer das páginas desse livro e que aí se acerque dos estudos “Júlio Maciel e a Poesia do Seu Tempo”, “Rodolfo Teófilo e o Amor à Verdade”, “José Alcides Pinto – Vanguardista e Romântico”, e “Rachel de Queiroz e o Romance da Seca”, os quais conferem a Sânzio de Azevedo um lugar entre os grandes ensaístas do Brasil.

Seus livros são infiltrados da mais densa capacidade de comunicação e, ao contrário daquilo que se pensa, não se restringem apenas ao fenômeno literário regional. Suas pesquisas também se ampliaram para absorver outros setores da nossa formação, ainda hoje à espera do seu historiador, isto porque a literatura brasileira, somente a partir de décadas mais recentes, é que viu o surgimento de estudos voltados para a integração da nossa produção literária.

Antes dos Dez Ensaios de Literatura Cearense, Sânzio de Azevedo publicou um dos seus livros fundamentais. Refiro-me a Aspectos da Literatura Cearense (1982), uma coletânea de ensaios focalizando figuras de relevo da nossa história literária, ou ainda resgatando valores literários esquecidos.

Aspectos da Literatura Cearense, além de constituir trabalho deveras alentado, arvora-se em realização editorial sobremodo lúcida, do que se depreende que a quantidade, em nenhum momento, se sobrepôs à qualidade. O livro é composto de dezesseis estudos, divulgados em revistas acadêmicas ou como introdução a edições críticas de títulos ou autores como Antônio Sales, José Albano, Lívio Barreto, José de Alencar, Joaquim de Sousa, Américo Facó, Papi Júnior, Carlos Gondim, Oliveira Paiva, Mário da Silveira, Cruz Filho, Juvenal Galeno, Alf. de Castro, Adolfo Caminha, Braga Montenegro e Otacílio de Azevedo.

Prosseguindo na análise de Aspectos da Literatura Cearense, o que nos parece seguro concluir é que se trata de livro concebido e executado por um escritor de talento, que busca projetar para o universal o que repousava entre as cinzas de uma das regiões culturais do Brasil.

E quando falo em regiões culturais, lembro que o Brasil já foi comparado a um grande arquipélago literário, como quer a teoria de Viana Moog. E, neste passo, concretiza Sânzio de Azevedo uma sugestão de Afrânio Coutinho, no sentido de que a história da literatura brasileira possa ser contada a partir da sua produção no âmbito de suas províncias culturais.

Professor do Centro de Humanidades da UFC e integrante da Academia Cearense de Letras, são ainda da autoria de Sânzio os volumes: Adolfo Caminha – Vida e Obra (1997), Para uma Teoria do Verso (1997), Joaquim de Sousa – O Byron da Canalha ou o Castro Alves Cearense (2003), Relendo Guilherme de Almeida (2012), Rodolfo Teófilo e a Saga de Jesuíno Brilhante (2013) e Escritores de Outras Plagas (2020), tratando neste último de autores não nascidos no Ceará, como Raul de Leoni, Antônio Nobre e Guerra Junqueiro.

A esses ensaios de Sânzio de Azevedo, acrescento O Modernismo na Poesia Cearense (1995), Breve História da Padaria Espiritual (2011), Aldeota (2015), onde foca a história desse importante bairro de Fortaleza, sem esquecer aqui os seus monumentais Literatura Cearense (1976) e O Parnasianismo Brasileiro (2004).

Sendo culto e erudito como poucos escritores da sua geração, é, entretanto, um crítico que não se deixa seduzir pela consagração. Tal como o pai, o poeta Otacílio de Azevedo, Sânzio é um operário das letras, fiel ao seu destino de esteta, e mais do que isso: um ensaísta de múltiplas e variadas facetas, a quem devemos render as nossas homenagens.

Dimas Macedo

Poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

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