Sangue ou suor, por Luciano Moreira

Adormeceu. E, dormindo pesadamente, sonhou. E sonhou um sonho que inspirava felicidade. E, caso a felicidade não lhe batesse à porta, ao menos as esperanças seriam renovadas.

Vestiu a melhor roupa. Calçou as sandálias que lhe custaram os olhos da cara e que, por isso mesmo, guardava para um momento de extrema significação. Produziu-se como pôde. Pôs colar, brincos, pulseira, relógio. Penteou-se. Maquiou-se. Perfumou-se. Olhou-se no espelho. Ajeitou a tiara. Passou a ponta do dedo mindinho no dorso da língua e arrumou delicadamente uma das sobrancelhas. E, confiante, disse para si mesma: mais bonita é impossível!

Pegou o celular e caminhou até a calçada. Passou as mãos na saia… e no busto, como se quisesse dar uma arrumada nos seios. Perfilou-se. E aguardou.

Estava tão compenetrada na espera que não percebeu a aproximação de uma moto. Nela, uma dupla de marginais.

É um assalto! – Vociferou um deles, saltando da garupa da moto e já encostando o cano do revólver na cabeça dela.

Surpresa, quis gritar. Não conseguiu. Assustada, quis dizer alguma coisa. Nada.

Passa, vagabunda! Passa tudo! E, se fizer besteira, morre… – Prosseguia o assaltante a sua ação devastadora, com a arma apontada para o meio da testa dela que, nervosa, não esboçava a menor reação.

E lá se iam as joias, o celular…

Sentiu escorrer um líquido morno por entre as coxas virgens e pernas roliças. Trêmula, temeu que o pior acontecesse.

Meu Deus! – Ela podia até imaginar que houvera dito isso… só que a voz não acompanhou a sua vontade.

Quenga, eu até pensei arrancar tua calcinha e ficar com ela, de lembrança… – O marginal cochichou no ouvido da sua vítima. – Mas tu já tá toda mijada, vaca! Deixa de ser frouxa, porra! – Emendou alteando um pouco a voz e, enquanto falava, movia o revólver como se fosse, de repente, explodir os miolos da coitada.

Pelo amor de Deus! – Ela conseguiu implorar. Reconheceu o seu algoz. (Era ele, sim. Dançaram forró universitário numa dessas casas de show movimentadas da cidade.).

Idiota, o que é que tu tá fazendo assim toda arrumada, a estas horas, numa calçada deserta? Tu é doida, é?! – E o pior: ele também a reconhecera. (Era ela, sim. Metida a besta, não aceitara o seu convite para encerrar aquela noitada num quarto de motel de quinta categoria. Safada!).

Moço, eu só estava esperando o meu príncipe encantado. – O reconhecimento lhe dera um pouco de coragem.

Pois ele acaba de chegar, vagabunda! – Sentenciou o bandido com o cano do revólver bem no meio da testa da jovem sonhadora.

Acaba logo com isso, cara. – Disse o comparsa, até então imóvel e silencioso. E completou: – Parece que tu tá querendo é coisar com a gostosa aí.

Um estampido se fez ouvir nas redondezas. Um grito abafado. Um projétil de calibre 38 acabara de cumprir a sua missão.

Num ato reflexo, ela levou a mão à testa. Com um olhar estupefato, balançou o corpo desengonçado sobre as pernas roliças e, agora, cambaleantes. Um baque seco eclodiu da calçada de pedra tosca.

Uma moto arrancou furiosa… dois marginais evadiam-se no meio da noite escura.

(…)

Pesadelo.

Ela acorda meio atordoada. Senta-se na cama. Uma das mãos espalmada na testa. Sente-a umedecida por um líquido ainda morno. Seria massa encefálica?! Não era. Seria sangue?! Não era.

Alívio. Era suor.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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