SOBRE ATAVISMOS Para José Marques de Melo (1943-2018)

Gostaria de fazer alguns comentários sobre este nosso, digamos, seminário, que aconteceu ontem, 26 e, hoje, 27 de março de 2024 no Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará.

Em primeiro lugar, a despeito de eventuais e muitas vezes necessárias dispersões, elas não podem ser cerceadas ao estilo Alexandre de Moraes, para voltar ao “FHOCO”, com PH mesmo,

Foram dois encontros muito ricos de trocas de conhecimento, sapiência colonial (a maioria dos autores referenciados são do hemisfério norte, notadamente Europa), avaliação de perspectivas e principalmente pontos de vista — estes, os mais ricos e, nem sempre considerados relevantes.

É bom que se diga que não existe um padrão nos estudos de jornalismo e de comunicação, agora elevados ao status de teorias. Nada mais dialético, nada mais heterodoxo que a comunicação e o jornalismo depois do advento da Internet.

As teorizações são todas elas válidas necessárias estimulantes para o debate intelectual, um estímulo aos neurônios ainda mais quando elevam o debate à questão simbólica.

Ainda mais porque um colega nosso, talvez o Ricardo Jorge, disse ontem em sala que o Imaginário é mais importante que o Real. Sem dúvida, Ricardo, sem dúvida. No imaginário estão todas as nossas crenças, os nossos “BIAS”.

A questão central que eu coloquei na reunião do dia 26 é: qual o profissional que queremos formar? Isso, me parece. uma dada resposta remete para um hibridismo: profissional para o mercado de trabalho nos canais de produção e emissão de conteúdo em várias plataformas, e aqueles que irão se dedicar à pesquisa, ao mundo acadêmico, torço que para uma pesquisa mais dialética, aquela pesquisa que quebrou os paradigmas da história conservadora indo fundo para o ensaio biográfico ou para a grande biografia como fazem nossos Lira Neto a exemplo de Fernando Morais e de Ruy Castro, todos jornalistas.

Quando eu ganhei o prêmio Esso, em 1982, ele veio em decorrência de uma grande reportagem sobre tráfico ilegal de crianças recém-nascidas do Ceará para os Estados Unidos.

A grande reportagem ainda é hoje, em qualquer plataforma, líquida ou sólida, hermética ou heterodoxa, o que for, o grande momento intelectual para jornalistas, por onde começaram Truman Capote, Norman Mailer, Hunter S. Thompson e muitos outros e, no Brasil, as turmas das revistas O Cruzeiro, Manchete e Realidade.

No nosso encontro, repito, muito rico, me incomodaram particularmente duas coisas.

Primeiro uso da expressão “decolonial”, uma expressão inglesa para representar a ideia de “descolonização”. Ora, nada mais colonizado que falar “decolonial”.

Na segunda questão, que me incomodou muito, as referências pejorativas ao professor José Marques de Melo — meu professor na ECA-USP. Ora, como lembrou Ricardo Jorge, me parece também o professor Nonato, e me desculpe algum outro, o homem é o retrato do seu tempo. O tempo é daqueles muito colonizados, inclusive academicamente.

Mas a marca de Zé Marques é a de que ele foi o primeiro teórico da comunicação no Brasil. Nada mais descolonizado que que ele.

José Marques de Melo era uma acadêmico com foco no mercado pois ele sabia que, afinal, quem pagaria a conta dos novos profissionais seria um mercado.  Em sua época, um mercado robusto, hoje,  uma dispersão líquida. Então, não dá para comparar Zé Marques e seu tempo e os tempos  de Bauman.

No Brasil, José Marcos de Melo é o pai de todos nós, sim. Ele vem depois de Beltrão, que não era um Acadêmico. O nordestinado  José Marcos de Melo é fundador da Escola de Comunicações de Artes da Universidade de São Paulo. Ele é ofundador do programa de pós-graduação da Universidade de São Paulo .

José Marques de Melo tem uma relação umbilical com o nosso Curso de Jornalismo amigo que era, intestino, da professora Adísia Sá. Esteve aqui várias vezes e ajudou a montar nossos currículos.

Não à ignorância histórica.

Respeito ao Zé.

Luis-Sergio Santos

Jornalista e Professor da UFC