Roteiro de Juvenal Galeno

Neto, pelo lado materno, do português Manoel José Teófilo e de Dona Maria Samico Teófilo e, pelo lado paterno, de Josefa Rodrigues da Silva e de Albano das Costa dos Anjos, nasceu Juvenal Galeno da Costa e Silva em Fortaleza (CE), aos 27 de setembro de 1836.

 

Foram seus pais os abastados agricultores José Antônio da Costa e Dona Maria do Carmo Teófilo e Silva. Ligando-se, por laços de parentesco, às mais expressivas elites culturais do Estado, era ele, pelo lado paterno, primo do historiador Capistrano de Abreu, e, pelo lado materno, dos escritores Clóvis Beviláqua e Rodolfo Marcos Teófilo.

 

No Sítio Boa Vista, de propriedade de sua família, localizado na serra da Aratanha, transcorreu parte de sua meninice. Ali, segundo Manoel Albano Amora (Pacatuba – Geografia Sentimental, 1972), “O menino Juvenal foi contemporâneo de fatos muitos antigos, observador de costumes, auditor de estórias, integrante de blocos infantis da manja na sua montanha verde e florida”.

 

Em 1846, como ensina João Clímaco Bezerra, no seu imprescindível Juvenal Galeno (Rio: Editora Agir, 1959), encontrava-se ele matriculado numa escola primária de Pacatuba, onde realizou o aprendizado de algumas letras.

 

A outra parte da infância viveu-a o poeta na cidade de Fortaleza, onde foi aluno de latim do Cônego Antônio Nogueira Braveza, e onde, aos 26 de novembro de 1849, fundou o jornal Sempre Viva, destinado à leitura do sexo feminino.

 

Contava apenas treze anos, na oportunidade em que fez circular o primeiro número do referido jornal, sendo enviado pelos pais, no ano seguinte, para a cidade de Aracati, na companhia do seu tio Marcos José Teófilo, pai do futuro romancista Rodolfo Teófilo.

 

A mudança para a cidade de Aracati, como assegura o Barão de Studart no Dicionário Bio-bibliográfico Cearense (1913), não chegou a lhe prejudicar os estudos, porquanto ali existia uma Escola Pública destinada ao ensino de latim, regida pelo prof. Porfírio Sérgio de Saboia, na qual foi matriculado o menino Juvenal Galeno.

 

Contudo, pouco tempo ali demorou, pois, em 1853, já frequentava o Curso de Filosofia do Liceu do Ceará, onde foi colega de Joaquim de Oliveira Catunda, futuro Senador da República e autor dos Estudos de História do Ceará (1886), um dos clássicos da historiografia cearense.

 

Tendo realizado alguns preparatórios no Liceu, entre eles, os clássicos exames de humanidades, retornou para o sítio Boa Vista, ali se envolvendo, por algum tempo, com as atividades agrícolas.

 

Mas o ambiente rural não o seduziu com as benesses do latifúndio, antes, nele despertou profundas reflexões em torno das disparidades sociais e econômicas, o que serviu para irritar ainda mais o seu discernimento.

 

Por essa época, atendendo aos apelos do pai, e não obtendo consentimento destes, como querem alguns dos seus biógrafos, seguiu para o Rio de Janeiro, não propriamente para desfrutar os encantos da Capital do Império, mas objetivando adquirir maiores conhecimentos sobre a cultura do café no Vale do Paraíba.

 

No Rio o poeta desembarcou em 1855, levando na bagagem carta de recomendação de Rufino José de Almeida, apresentando-o a Paula Brito, proprietário da Marmota Fluminense. Ali Juvenal Galeno travou relações com Machado de Assis, Quintino Bocaiúva, Mello Morais, Teixeira de Sousa e Joaquim Manoel de Macedo.

 

Passou, então, a escrever poesias e a publicá-las na Marmota Fluminense, reunindo-as no livro Prelúdios Poéticos (Rio: Tipografia Americana, 1856). Esse livro é tido por alguns pesquisadores como o marco inicial da literatura cearense. Mas Sânzio de Azevedo, em seus Aspectos da Literatura Cearense (1982), prefere considerá-lo como o momento inaugural do romantismo no Ceará.

 

Vendo seu nome na capa de um livro, Juvenal Galeno regressou ao Ceará em 1857, passando sua vida a transcorrer entre a serra de Aratanha e a cidade de Fortaleza. Ainda por esse tempo, ingressou como alferes na Guarda Nacional e passou a se encher de amores por Maria da Justa, “senhora de peregrina beleza física e moral, invejavelmente educada e rica de pecúnia”.

 

Maria da Justa, segundo Renato Braga, “foi a grande paixão da mocidade do poeta. Era sua prima. Amou-a perdidamente. Ela, porém, casou-se com o aristocrata Luís Seixas Corrêa, o Dom Paio”, que o poeta tão habilmente satirizou nos seus Folhetins de Silvanus.

 

Também por essa época, talvez por influência paterna, ingressou nas fileiras do Partido Liberal, em cujo jornal passou a colaborar. Em 1858, foi eleito suplente de deputado provincial e, em 1859, tomou posse na Assembleia Provincial cearense, onde, entre outras realizações, apresentou e defendeu projeto de criação de uma Escola Prática de Agricultura.

 

Porém desiludido, abandonou a política, passando a combater os seus desmandos e as suas irregularidades. Contudo, não se desligou do Partido Liberal, pelo menos até 04 de julho de 1863, data em que seu nome aparece na imprensa de Fortaleza como integrante do diretório desse partido, em Maranguape.

 

Em maio de 1859, dá-se o encontro de Juvenal Galeno com Gonçalves Dias, o qual, segundo a maioria dos estudiosos, seria responsável pela reformulação da sua maneira de poetar, uma vez que, a partir de então, a conselho do autor de Os Timbiras (1878), Juvenal Galeno teria passado a imprimir à sua poesia uma feição popular, contrapondo-se à estética do romantismo, na época ainda em pleno florescimento.

 

Gonçalves Dias, que desembarcou em Fortaleza, em 1859, integrando a Comissão Científica de Exploração, daqui rumou com destino a Pacatuba. Ali, estabelece conversações com Juvenal Galeno, a quem convida a participar de um banquete com seus companheiros de estudo. Galeno atendeu ao convite, mas deixou de comparecer a uma revista do batalhão da reserva do Exército a que pertencia. Isto irritou o Comendador João Antônio Machado, então comandante superior da Guarda Nacional de Fortaleza, que determinou o recolhimento do subalterno à prisão.

 

Posto em liberdade, tratou de documentar o episódio, investindo, com audácia, contra o seu superior hierárquico, cujo título de oficial da reserva ridiculizou no poema A Machadada, publicado em Fortaleza, pela Tipografia Americana, de Teotônio Esteves de Almeida, em 1860.

 

A Machadada revela, pela primeira vez, o sentido crítico e contestador da sua produção, isto porque Juvenal Galeno, antes de ser encarado como poeta popular, deve ser considerado autor de uma obra de inspiração social, em cuja confecção soube utilizar a palavra como instrumento de denúncia.

 

Nos anos de 1860, 1861 e 1862, segundo João Clímaco Bezerra (Rio: Editora Agir, 1959), Juvenal Galeno “colabora assiduamente” nos jornais fortalezenses Pedro II e A Constituição. Por essa época, o poeta escreveu artigos para O Cearense, órgão do Partido Liberal, bem como para a Revista Popular, do Rio de Janeiro, onde publicou alguns de seus poemas, entre 1859 e 1861.

 

Nesse último ano, Juvenal Galeno parece em público como teatrólogo, uma vez que é levada à cena, em Fortaleza, a comédia de sua autoria – Quem Com Ferro Fere Com Ferro Será Ferido.

 

A partir de 1861, com a publicação do poema Porangaba, Galeno torna-se poeta indianista, acentuando-se aí a influência de Gonçalves Dias sobre a sua obra. Trata-se de poema onde a figura do índio ocupa posição de relevo e no qual aflora “o murmúrio dos rios e o mistério das florestas, o canto dos pássaros e o rugir do jaguar, o coro dos guerreiros selvagens e o pranto da índia amorosa, o chapinhar das igaras e o troar dos borés, as artes dos curupiras e as sentenças de Tupã”.

 

Com Lendas e Canções Populares, de 1865, Juvenal Galeno reformula o conteúdo e a estética de sua produção, atingindo, assim, a sua maturidade plena de escritor, e transmutando-se no poeta social e multidimensional que hoje todos conhecemos.

 

Mas esse êxito ele o alcançou pela decisiva postura com que se houve na defesa do povo, na concepção de uma literatura carregada de forte atmosfera ideológica, na qual os anseios dos dominados são decantados em poemas que representam verdadeiras legendas. Na nota de introdução que escreveu para as suas Lendas e Canções Populares, Juvenal Galeno exprimia o seguinte:

 

“Reproduzindo, ampliando e publicando as lendas e canções do povo brasileiro, tive por fim representá-lo tal qual ele é na sua vida íntima e política, ao mesmo tempo e guiando-o por entre as facções que retalham o Império, pugnando pela liberdade e reabilitação moral da Pátria, encarada por diversos lados, em tudo servindo-me de suas cantigas, de sua linguagem, imagens e algumas vezes de seus próprios versos”.

 

“Se consegui, não sei; mas para consegui-lo procurei primeiro que tudo conhecer o povo e com ele identificar-me. Acompanhei-o passo a passo no seu viver, e então, nos campos e povoados, no sertão, na praia e na montanha, ouvi e decorei seus cantos, suas queixas, suas lendas e profecias; aprendi seus costumes e superstições; falei-lhe em nome da Pátria e guardei dentro em mim os sentimentos de sua alma; com ele sorri e chorei, e depois escrevi o que o povo sentia, o que cantava, o que me dizia, o que me inspirava”.

 

Este protesto de Juvenal Galeno, como se pode perceber claramente, hoje ainda continua atual, prova de que, aliás, ou as estruturas sociais brasileiras não mudaram durante o percurso de mais de um século, ou o poeta, abraçando a poesia social, fez a decidida opção que nem as correntes literárias do seu tempo, nem as que vieram posteriormente tiveram a coragem de reconhecer.

 

Lendas e Canções Populares consolida definitivamente a sua posição de escritor, inscrevendo o seu nome como um dos momentos mais altos da história literária do Ceará. Trata-se de um livro todo ele aberto à exposição das misérias do povo e da sua humana condição.

 

Nomeado Inspetor Literário da Comarca de Fortaleza, em 1865, sete anos

 

Depois o poeta publicou Canções da Escola, em 1871, obra adotada pelo Conselho de Instrução Pública, como matéria de uso obrigatório nos estabelecimentos de ensino primário do Ceará.

 

Também de 1871 é o livro Cenas Populares, com o qual expõe a sua vocação de retratista genuíno e contumaz. Trata-se de um volume de contos, reveladores, segundo Florival Seraine (In: Cenas Populares, 3ª edição, 1969), “de um estilo que se caracteriza especialmente pela descrição de aspectos sugestivos da natureza e da cultura rurais”.

 

Depois, veio a edição de Lira Cearense (Fortaleza: pela Tipografia do Comércio, 1872), em cujas páginas vibram, segundo Franklin Távora, “as mesmas cordas simpáticas, às quais deve Juvenal Galeno a popularidade de que goza entre as classes rústicas do Ceará”.

 

Em 19 de maio de 1876, Juvenal Galeno seria nomeado Juiz Municipal e de Órfãos de Pacatuba, município onde passaria a residir, após o seu casamento com Maria do Carmo Cabral.

 

Contudo, jamais deixou de participar da vida literária de Fortaleza. Por esse período, o poeta participaria da criação Clube Literário, sendo, aos 04 de março de 1887, um dos fundadors do Instituto do Ceará.

 

Fazendo-se, na sua Província, um dos arautos da campanha abolicionista, cuidou também de alargar, através da imprensa, a sua inconfundível expressão de escritor insubmisso e popular.

 

Nomeado Diretor da Biblioteca Pública de Fortaleza, em 1889, nesse cargo permaneceria até 1908, quando foi aposentado por força da cegueira que o surpreendeu, deixando-o pelo resto da vida a meditar os segredos da sabedoria popular, resultando desse recolhimento os livros Medicina Caseira e Cantigas Populares, que somente seriam editados em 1969, três décadas após o falecimento do poeta, ocorrido em Fortaleza, aos 07 de março de 1931.

 

Em 1891, Juvenal Galeno reuniria suas sátiras sociais e políticas no livro Folhetins de Silvanus, cujo conteúdo o situaria em posição de confronto com sociedade de Fortaleza, figurando o seu nome, em 1894, entre os fundadores do Centro Literário.

 

Em de setembro de 1896, recebeu o diploma de Padeiro-Mor da Padaria Espiritual. O de Juvenal Galeno, contudo, já se achava inscrito nas páginas da literatura do Brasil. Experimentando, ainda em vida, a consagração que nenhum outro escritor cearense conheceu, duas décadas após a sua morte Juvenal Galeno seria proclamado Patrono dos Operários do Ceará.

 

Juvenal Galeno, em verdade, fez da sua tarefa de poeta do povo, o apostolado maior de sua devoção. Mesmo relegado à incompreensão do ambiente provinciano, soube extrair das contradições sociais de sua Província nativa o pano de fundo necessário à tessitura do seu projeto literário, sendo todo ele recortado por um sopro de criatividade e indignação.

 

Depois de Juvenal Galeno, é correto afirmar, nenhum outro momento da poesia cearense foi assim tão comprometido com as desgraças e os infortúnios das maiorias espoliadas pela estratificação das posturas burguesas. Nenhum outro escritor cearense, de forma tão resoluta, foi mais longe do que Juvenal Galeno na tentativa de restaurar as verdadeiras bases sociais da nossa literatura, nem conseguiu ultrapassar o conteúdo revolucionário da sua projeção de escritor, mesmo porque, conforme advertência de Renato Braga “Juvenal Galeno é único na literatura cearense”. E como único é possível que não venha a ser repetido.

 

 

 

Dimas Macedo

Poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

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