Rostos e nomes

A semana concluiu em forma de catástrofe, pelo mar de sangue que correu em solo brasileiro, decorrente da chacina na comunidade do Jacarezinho, com a execução de 24 de seus moradores, número contabilizado até o presente momento. Os vídeos que circulam pela internet, com cenas de execuções de algumas pessoas já rendidas, deitadas no chão, sobre as quais foram disparados diversos tiros à queima-roupa, na cabeça, documentam a barbárie perpetrada por agentes do estado do Rio de Janeiro, uma semana após a posse do novo governador Cláudio Castro, um bolsonarista raiz, militante da Renovação Carismática Católica.

Destaca-se ainda nesse quadro dantesco uma estranhíssima declaração em coletiva à imprensa do delegado Rodrigo Oliveira, responsabilizando por aquela calamidade o “ativismo judicial do STF” (ataques sistemáticos ao STF são tática típica do bolsonarismo). Registre-se que a operação da polícia iniciou às 6h00 e inexplicavelmente só foi comunicada ao Ministério Público às 9h00.

A tragédia brasileira desta semana, além da matança, se completa pela bipolaridade bizarra da inauguração de uma ponte em Porto Velho, no estado de Rondônia, documentada pelas lentes dos cinegrafistas, na qual o capitão desfila desvairadamente a céu aberto, pilotando uma moto com o assecla Luciano Hang grudado em sua garupa, aglomerando mais uma vez pessoas sem máscaras de proteção sanitária. Um patológico universo paralelo, indicando para o gado, com seu riso sádico, a perversa insensibilidade diante das 420 mil mortes pela Covid-19, entre as quais recentemente a do ator Paulo Gustavo, aos 42 anos de idade.

No Brasil do capitão, há 44 milhões de empregos formais – entre privados e públicos – com 15 milhões de desempregados, 6 milhões de desalentados e 38 milhões de trabalhadores informais, além daqueles condenados à miséria absoluta. Do ponto de vista político, um estúpido desperdício da força de trabalho humano. O Estado brasileiro, na gestão bolsonarista, esquiva-se em agir como indutor do desenvolvimento da nação, preferindo compactuar com o capital financeiro predatório.

Além disso, há cerca de 5 vezes o território da Itália em terras cultiváveis no Brasil, de excelente qualidade, em estado de ociosidade, passíveis de reforma agrária. No entanto, o bolsonarismo compactua com o capital ruralista em detrimento da agricultura familiar, evidenciando um problema elementar de falta de orientação de projeto político democrático de nação. Desde o primeiro momento do seu mandato, ele apenas se preocupa com sua reeleição.

Em 04 meses do ano passado, 42 pessoas físicas viram o seu patrimônio aumentar no valor equivalente ao investimento social de 06 anos de Bolsa família. Em contrapartida, cerca de aproximadamente 100 milhões de brasileiros veem-se ameaçados pela insegurança alimentar. Mesmo assim, a decisão política do governo federal foi a de enviar ao Congresso o Orçamento para 2021 com cortes em Educação, Saúde, Ciência e Tecnologia, reproduzindo o mantra golpista da quebra do Estado, recitado repetidamente desde 2013. Mas como um Estado quebrado pode destinar R$1,5 trilhão, somente em 2020, para ajudar os bancos a atravessar a crise da pandemia?

A inflação anotada em 2020, pelo índice do IGP-M, atingiu a casa dos 23,14%. No caso do arroz, item básico na cesta alimentar do cidadão brasileiro, chegou a ter um aumento de 93% no ano passado, implicando lucros da ordem de R$500 milhões para uma única empresa distribuidora deste produto. Contudo, em 2021, o governo Bolsonaro só veio a implementar o auxílio emergencial a partir do mês de abril, no valor de R$150,00 mensais, por apenas quatro meses, com um botijão de gás custando R$100,00.

Nesta mesma semana a CPI do Genocídio, instalada no Senado Federal, atuou na arguição de três dos quatro ministros da Saúde do atual governo federal: Mandetta, Teich e Queiroga. Como se sabe, o general da ativa Pazuello alegou estar infectado pelo coronavírus, fato este que prorrogou sua arguição para o próximo dia 19. A soma dos relatos das três arguições demonstrou claramente a total irresponsabilidade do governo federal ao propagandear, incentivar, produzir e distribuir medicamentos sem os devidos protocolos e autorizações oficiais das agências de saúde (Ministério da Saúde, ANVISA, OMS) e respectivos laboratórios produtores dos fármacos – cloroquina e hidroxicloroquina – sobre a eficácia no tratamento da Covid-19, como bem demonstrou o ministro Marcelo Queiroga em seu depoimento. Flagrante delito que precisa ser devidamente apurado e punidos exemplarmente os seus mentores.

Por fim, com muito pesar, na conclusão desta breve reflexão, passam pela minha mente muitos rostos e nomes de amigos e amigas que, para minha surpresa, engajaram-se nas manifestações convocadas pelo MBL, Vem Pra Rua, Nas Ruas, entre outros grupos, os aparelhos táticos ideológicos da Guerra Híbrida instalada no Brasil, desde 2013, visando à destruição do Estado de Bem-Estar social e de suas instituições, colocado em construção pelos governos do Partido dos Trabalhadores.

Movidos pela propaganda da mídia oligopolista comandada pela Rede Globo, atiçadora do ódio, essas pessoas amigas – leigos e religiosos – não conseguiram aperceber-se do ovo da serpente que estavam chocando. Em qualquer criminalização da Política, abre-se espaço para a criação artificial de pseudo-heróis cúmplices do golpismo, como Moro e Dallagnol, e para aventureiros inescrupulosos com sua ideologia ditatorial e violenta. Foi assim com o fascismo italiano e nazismo alemão. Este é o pesadelo que estamos vivendo no Brasil de hoje com o bolsonarismo e neoliberalismo selvagem, preconceituoso e excludente de Paulo Guedes, que nos colocaram no fundo do poço, aquilo que o Papa Francisco denominou de “prova histórica brasileira”. Essas pessoas, visando a seus interesses corporativos ou confessionais, perderam de vista a importância do bem mais amplo, colaborando, com o seu apoio e com seu voto, na viabilização da chegada ao poder de um mal maior.

É nesta encruzilhada que hoje nos encontramos. Cabe às instituições deste país – como o STF e o Congresso Nacional – e a todos os setores democráticos da Sociedade Civil Organizada, dos Movimentos Sociais, das alas progressistas das igrejas, unirem-se com um foco bem definido para a derrubada deste governo, pondo fim ao mal-estar civilizacional que, desde a implantação do Golpe de 2016, tomou conta do Brasil, para que retomemos nossa caminhada civilizatória, antes que o caos nos domine a todos e seja tarde demais. O que a vida quer de nós é coragem!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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