Roda Viva

Em meio ao profuso debate em torno da Semana de 1922, assisti, ontem, pela TV Cultura, à entrevista do escritor Ruy Castro no Programa Roda Viva. Em que pese tratar-se de um intelectual que dispensa comentário, pela expressividade de sua obra em diferentes campos, o historiográfico, sobremaneira, ouso emitir sobre as posições do entrevistado, indisfarçavelmente sustentadas num bairrismo excêntrico (Ruy é mineiro de Caratinga – MG) em favor do Rio de Janeiro contra a cidade de São Paulo, onde ocorreu o evento a que ele, Ruy Castro, insiste em desqualificar, mesmo que, para isso, incorra num tipo de subjetivação em nada condizente com a importância e o rigor de informações de sua inquestionável obra. Birra, diriam os antigos.

Começo, portanto, por me contrapor a algumas de suas peremptórias afirmações acerca do que julga ser inconsequente (sem consequência) no evento  —  segundo afirma, logo esquecido mesmo entre seus pares. Ignora, pelo que pude concluir, alguns fatos na linha do que relaciono abaixo, ainda que sem entrar no mérito da relevância de cada um deles, mas com a intenção apenas de reconhecer o que representaram no correr do século XX como um nada desprezível paradigma de análise de toda a produção intelectual e artística no país e que decorreram, queira-se ou não, do evento que conta, neste fevereiro, exatos cem anos.

Destaco, assim, o estabelecimento de novos parâmetros de avaliação da arte brasileira em suas diferentes linguagens, literatura e artes visuais sobretudo, isentas, a partir daí, de preconceitos de toda ordem, nomeadamente estéticos, de que a ruptura com os preceitos de versificação, sintaxe, morfologia, semântica etc., na literatura, e diluição das formas rígidas na pintura, revisão das noções de volume, utilização de espaço, aplicação de textura etc., por exemplo, embora essenciais, não esgotam as potências daquilo que se passou a definir como obra de arte moderna. Que dizer da Poesia Concreta, do Tropicalismo, cujas raízes prendem-se às inquietações de 22, ou do que se fez a partir daí em Minas, Recife, o Ceará, inclusive, em termos de literatura?

Nesse sentido, por sinal, é que mais uma vez incorreu Ruy Castro numa falácia sobre o significado político da Semana, como a tentar, por vezes sem esconder um certo esnobismo intelectual não necessariamente competente, que mais surpreende por se tratar de um escritor culto (diz a uma dada altura não ser “saudosista”, mas “culto”, como se uma coisa se contrapusesse à outra), insiste ele em rotular alguns dos principais nomes da Semana de “racistas, homofóbicos, mentirosos, machistas” etc., principalmente Oswald de Andrade, a quem se dedica como que sob as amarras de uma fixação a atacar obsessivamente, desmerecendo-o como poeta, prosador e, em última instância, como um intelectual reconhecido por gente da estatura de Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017).

Por tabela, não podendo desconsiderar que o principal intelectual mineiro sempre atribuiu a Oswald de Andrade um papel decisivo para a construção do pensamento estético do modernismo brasileiro, faz alusão a um desentendimento entre os dois, sem registro, e a que só ele dá importância. Para não falar da leitura (ritmo, impostação de voz, ênfase em trechos retirados de seu contexto) mal intencionada que faz de uma crítica a um romance de Oswald de Andrade no fito de desmerecer a qualidade da obra: inverte o juízo do autor do ensaio, ninguém menos que Augusto de Campos, como se fosse reprovação o que é exaltação dos méritos do romancista. Foi triste.

Fato mais grave na disposição fanática de desqualificar a Semana de Arte Moderna, no entanto, reside para além disso, pois que reflete uma motivação tendenciosa e desprovida de rigor analítico: ignorar que todo movimento, independentemente de sua natureza, do seu espaço e de sua posição histórica, assenta-se em alguma medida em forças contraditórias.

Sob este aspecto, mais acrescenta à Semana ter tido desdobramentos os mais diversos e conflitantes depois de 1922: a oposição entre os ideais de “brasilidade” antropofágica (a devoração ritual das influências europeias) e o nacionalismo verde-amarelo do grupo Anta  — Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, Cândido Mota Filho, entre outros —, que resultaria no integralismo de Plínio Salgado, por exemplo.

É aí que a sanha condenatória de Ruy Castro mais ainda se torna evidente: não se contentando com as acusações assacadas contra Oswald de Andrade no campo pessoal, nega a adesão do autor de “Serafim Ponte Grande” ao Partido Comunista, em 1931, ao qual permaneceria filiado até 1945. Realidade de todos reconhecida, exceto de Ruy Castro.

Conclusivamente, pois, não se pode desqualificar a Semana de 22 por suas contradições internas. Parece-me natural que, dadas as suas motivações de origem (e que remontam a 1917, pouco mais ou menos), os modernistas tenham ao longo do tempo tomado rumos desencontrados, quer estéticos, quer políticos, pois é da natureza humana, intelectual e artística, que o façam. O importante, no debate que se instalou por causa dos cem anos desde a sua eclosão, é a compreensão do que a Semana de Arte Moderna significou em termos de continuidade para a melhor discussão em redor da nossa identidade cultural e artística. E isto, não se pode negar, a história já se encarregou de dizer.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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