REVENDO O ESPÍRITO DO CAPITALISMO, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Em tempo de páscoa cristã, tempo de partilha do pão e do vinho, tempo de perdão e renovação dos compromissos assumidos com os pressupostos éticos dessa Religião, vem-nos a mente uma questão que envolve a acumulação econômica descomunal do tempo presente. Segundo o sociólogo italiano Domenico di Masi, apenas dez pessoas no mundo concentram em suas mãos a riqueza da metade da população global. Este fenômeno ocorreria por acaso?

Fazendo uma breve viagem no tempo, vamos encontrar o clássico de Max Weber, Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, no qual o autor coloca o problema: que forças culturais – de natureza mágicas e religiosas, com ideias éticas de dever nelas baseadas, teriam estado entre as mais importantes influências formativas da conduta humana que alavancou a lógica econômica da qual nasceu o capitalismo moderno?

Os fundamentos da ética calvinista apresentam-se, segundo o autor, como a teoria que dará suporte ao pleno desenvolvimento capitalista. Primeiramente em sua elaboração sobre a “predestinação”. Para Calvino, há duas espécies de pessoas: as que nasceram para ser salvas e as destinadas à condenação eterna. Esta tese rompe com um dos princípios basilares da condição humana, uma vez que concebe a desigualdade como sendo resultado da vontade divina. Deus ama uns e odeia outros. Ao serem concebidos desiguais lhes é negado o único fator-base mais forte para a solidariedade existencial: a igualdade entre os humanos. Os calvinistas imaginavam que eles eram os escolhidos e que todos os outros eram os que Deus condenara para toda a eternidade.

Associada a esta tese, há outro fator: a importância do esforço moral incessante, particularmente a ideia de que o sucesso na vida secular, como resultado de tais esforços, ser um sinal de haver sido escolhido por Deus. Eis o ponto central. Se por um lado não há a certeza absoluta de ser um escolhido como um predestinado à salvação eterna, a única forma possível de evadir-se dessa angústia e incerteza aterrorizantes que lhes poderiam levar a um estado de impotência e insignificância, é justamente o desenvolvimento de uma atividade frenética em fazer alguma coisa compulsivamente a fim de superar o sentimento de dúvida e incapacidade, conforme assinala o psicólogo social Erich Fromm.

A irracionalidade de um esforço compulsivo serve para indicar se ocorrerá ou não algo previamente estabelecido, isto é, a salvação eterna, e não necessariamente a criar um fim desejado. Assim, o sucesso nos negócios converteu-se em sinal de graça divina; o insucesso, em sinal de condenação. Surgiu com esse tipo de compulsão, uma forma de trabalho que além de gerar a sustentação e o suprimento das necessidades coletivas, como ocorria na Idade Média, produz um excedente capaz de auferir lucros aos proprietários burgueses, uma mais-valia. Essa classe beneficiou-se dessa estrutura do capitalismo nascente adquirindo riqueza e poder, expandindo conquistas e fortunas.

E de que forma este processo afetou as classes médias de então?

Apesar de odiar os ricos com suas ostentações, mesmo querendo destroná-los do poder, os membros da classe média eram essencialmente conservadores, desejavam estabilizar a sociedade e não erradica-la, pois almejavam ficar mais prósperos e participarem do progresso capitalista. Também não queriam perder seus privilégios de explorar as classes mais pobres. Desenvolveram assim a compulsão para o trabalho, paixão pela poupança, disposição para tornarem-se um instrumento para a consecução de um poder extra-pessoal, um sentido compulsivo do dever e ascetismo. Este nova forma no caráter humano tanto lhes era satisfatório psicologicamente como economicamente.

Concluindo, poderíamos repetir aquilo que Fromm indica: que o processo social, ao determinar o modo de vida do indivíduo, molda a estrutura do seu caráter; novas ideologias – religiosas, filosóficas e políticas – resultam da estrutura deste caráter assim modificada e exercem um atrativo sobre ela, intensificando-a, satisfazendo-a, estabilizando-a; novos traços de caráter, a seu turno, tornam-se fatores úteis na evolução econômica e influem no processo social: lentamente convertem-se em forças produtivas.

Em meados do século XX, Adolf Hitler irá aproveitar-se dessa teoria da desigualdade humana contida na predestinação calvinista para realizar a sua vigorosa restauração ideológica nazista. Algo semelhante parece estar ocorrendo no Brasil do tempo presente. Ou não?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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